A luta de classes ganha contornos militares na Líbia

Enquanto o conflito na Líbia permanece em um impasse político-militar, os supostos aliados imperialistas discutem o próximo passo. Após o ditador Muammar Kadafi ter sido descartado pelo povo libio, ele que se transformou no maior agente imperialista da região, e não tendo outra alternativa, o imperialismo busca aliados entre os rebeldes, mas estes estão divididos em várias facções polarizadas e militarizadas pelo conflito.

O grande dilema da administração Barack Obama é se entrega recursos militares dos EUA diretamente para os lutadores da resistência Líbia contra Kadafi.

Washington não descartou a utilização dos AC-130 e A-10 “Warthog” aeronaves que se revelaram eficazes em abater tanques e baterias antiaéreas, utilizadas pelas forças pró-regime. Mas ir mais longe que isso é o dilema.

Até agora o comando dos rebeldes não lhe pareceu totalmente confiável, além disso o imperialismo fala da influencia da Al Qaeda, e da presença de guerreiro islâmicos mujahdins na região.

Mas isso é somente desculpa, pois ninguém mais exportou a Jihad e seus guerreiros do seu principal aliado na região à Arábia Saudita, e depois dela o Iêmen e a Síria, e o imperialismo, mesmo assim, sustenta todos estes governos.

O verdadeiro medo do imperialismo é com qual o rumo será tomado pela revolução árabe na Líbia.

O CARATER POLÍTICO DOS REBELDES
Existem muitas duvidas no imperialismo sobre o apoio militar em armas para a resistência Líbia, principalmente por que ainda não esta claro para ele o caráter político dos que lutam contra a ditadura Kadafi.

O próprio Kadafi afirma que ele sempre foi um grande combatente contra a Al Qaeda, e apresenta como prova o contingente de libaneses que juntaram-se a Jihad islâmica.

Isso é verdade, mas não somente libaneses juntaram-se ao Jihad no mundo árabe.

De qualquer forma o governo norte-americano alega ter medo que a ajuda militar em armas possa chegar a guerrilheiros mujahdins.

O Secretario da Defesa norte-americano, Robert Gates, é um dos que diz nutrir desconfianças pelos rebeldes e suas supostas possíveis ligações com a Al Qaeda, já que estudos de West Point afirmam o corredor que vai de Benghazi para Tobruk, passando pela cidade de Darnah representa proporcionalmente uma das maiores concentrações de jihadistas do mundo.

Para eles, em números absolutos, dos jihadistas que foram lutar no Iraque e Afeganistão, a Arábia Saudita ficou em primeiro lugar, depois vem Síria, Iêmen e Argélia, Marrocos e Jordânia. Mas em números proporcionais a Líbia é a campeã.

Quase 20 por cento dos combatentes estrangeiros no Iraque eram líbios,

Relatórios de West Point afirmam que tanto Darnah, a leste de Benghazi, como esta, têm sido associados com a militância islâmica na Líbia. Darnah em particular, foi um “manancial” de bombistas suicidas no Iraque contra as tropas dos Estados Unidos.

Entre os mujahdin estariam Mohammed Ali al-Fakheri, conhecido como Ibn al-Sheikh al-Libi (“o filho do xeque libio”). Envolvido com Abu Zubaydah em campos de treinamento em Khalden, no Afeganistão. Ele foi capturado pelos Estados Unidos no Paquistão em 2002 e levado a Guantánamo, onde foi interrogado, depois enviado ao Egito para mais torturas e, finalmente, repatriado para a Líbia, onde supostamente teria cometido suicídio em 2009.

Junto com ele Abu Yahya al-Libi, um libio que comanda a Al-Qaeda no Afeganistão, muito ativo nas regiões tribais do Waziristão, especialista em guerra de guerrilha. Elogiou calorosamente o levante em seu país, convidando os líbios a assassinar o tirano Kadafi.

E a prova viva seria Abu Sufian bin Qumu, que já esteve preso em Guantánamo, de volta a Líbia em setembro de 2007 e hoje líder rebelde na guerra civil da Líbia.

Tais influencias poderiam explicar porque os manifestantes líbios têm desfigurado a imagem de Kadafi com o símbolo judeu da Estrela de Davi. Ou por que usam táticas de pequenas unidades móveis, sem linha de frente, e se movem em jipes operando como enxames de abelhas.

Táticas ensinadas em campos de treinamento do Afeganistão.

Ou ainda, utilizam táticas antiaéreas com “artilheiro solitário” mergulhados nas dunas de areia de difícil identificação para os pilotos de avião ou tanque que andam rápido e não pode ver todas as fendas, além do brilho das areias quentes.

Com isso, o imperialimo pensa em crise: “If Gaddafi is bad. What will follow him is likely to be worse”.

A ALA BURGUESA PRÓ-IMPERIALISTA DOS REBELDES
Por outro lado vários analistas destacam que a bandeira que os rebeldes usam seria a antiga bandeira da monarquia, do rei Idris, derrubado por Kadafi.

E lembram que na II Guerra Mundial, as tropas as quais se aliaram o rei, contra os italianos, em Benghazi, incluíam soldados britânicos, franceses e gregos, antecipando a composição da coligação anti-Kadafi atual.

Neste contexto o imperialismo prioriza a negociação com os que defectaram do regime de Muamar Kadafi, alguns dos mais fervorosos confidentes e leais ex-companheiros de armas. Aqueles que sempre querem estar onde o poder esta e representam a burguesia nacionalista pró-imperialista.

Entre eles estão o ex-ministro da Justiça, Mustafa Abdul-Jalil, que desertou do governo em fevereiro e atualmente é o presidente do Conselho Nacional de Transição. Garante que a Líbia irá respeitar todos os acordos fechados com a Itália e os demais paises imperialistas, incluindo os contratos assinados com Eni e demais multinacionais. Assim como os arquivos relativos à luta contra a imigração ilegal. Permitindo que equipes de patrulha em sua costa para impedir a emigração.

Junto com ele estão: Ali Suleiman Aujali, diplomata, embaixador nos Estados Unidos do governo Kadafi; Mahmoud Jebril, chefe da Equipe Executiva do CNT, serviu Kadafi no Gabinete Nacional de Desenvolvimento Econômico, onde promoveu a privatização e a liberalização econômica; e Ali al-Issawi, o ex-embaixador da Líbia na Índia, ministro das Relações Exteriores no Conselho, um associado de Saif, filho de Kadafi.

Com eles esta o ex-ministro do Interior de Kadafi (foi considerado seu defensor chave), general Abdel Fattah Younis. Mas em constante disputa dom o comandante Khalifa Belqasim Haftar. Haftar também foi comandante de Kadafi no conflito com o Chade, mas se desentendeu com ele quando perdeu a guerra, e procurou exílio nos Estados Unidos. O Le Monde Diplomatique o denunciou por ter montado uma milícia financiada pela CIA.

Há também a FNSL, National Front for the Salvation of Libya, conhecida por ser uma organização financiada pela CIA, com escritórios em Washington, e que mantém no Egito, junto à fronteira, uma força militar chamada Exército Nacional Libio. Seu por voz e secretário-geral é Mohammed Ali Abdallah.

E por fim, como se fosse pouco, tem Ahmed al-Zubair Ahmed al-Sanusi acusado de conspiração e tentativa de golpe contra Kadafi. Passou 31 anos preso. Foi solto em agosto de 2001, por ocasião do 32º aniversário da revolução. Único descendente do último rei da Líbia, Idriss al-Sanusi.

Por isso o secretário britânico de Relações Exteriores, William Hague, que tem estado em contacto telefônico com o general Younis, o aponta como provável sucessor de Kadafi, e esta disposto a enviar armas a Líbia. E o senador republicano norte-americano McCain, do Comitê do Senado para as Forças Armadas, disse que vai continuar a pressionar a administração Obama para que reconheça o Conselho de Transição Nacional dos rebeldes, o que lhes permitiria ter acesso a fundos que ajudariam a financiar a insurgência.

Estados Unidos, França, Itália e Grã Bretanha já informaram que estão enviando conselheiros militares a Líbia.

NACIONALISTAS REBELDES
Mais populares que estes senhores estaria Abdul Hafiz Ghoga, advogado de direitos humanos, porta-voz do Conselho Nacional de Transição, ativamente envolvido na representação legal das famílias de pessoas mortas no massacre de 1996 na prisão de Abu Salim.

E Omar Mokhtar El-Hariri, ministro de Assuntos Militares do CNT. Esteve junto com Kadafi no golpe de 1969 contra a monarquia, depois organizou uma conspiração para acabar com Kadafi, em 1970. O golpe foi descoberto, 300 homens foram presos e quatro deles morreram durante o interrogatório, 21 foram condenados à morte, incluindo El-Hariri. Ficou preso 15 anos.

BRIGADA KHAMIS
Do lado de Kadafi os militares mais sanguinários são os da Brigada 32, Brigada Khamis, treinados pelo SAS 22 britânica.

Além dos mercenários oriundos majoritariamente das fronteiras com o Chade, Nigéria e Sudão

A Brigada Khamis é uma das forças especiais da Líbia. Comandada pelo filho mais novo de Kadafi, Khamis Kadafi, é a “mais importantes estrutura militar de segurança do regime”.

Khamis é graduado na Academia Militar da Líbia, em Trípoli, tendo recebido formação em Moscou, na Academia Militar Frunze.

A Brigada sob o seu comando geralmente recebe mais armas, equipamentos e salários do que o resto do exército e serve como uma espécie de guarda pretoriana para defender o regime.

A Brigada Khamis tem meios de comunicações e sistema de dados no valor de US $ 165 milhões fornecidos pela Inglaterra, que desde 2008, se tornou um importante fornecedor de equipamento e treinamento militar. As Unidades do Serviço Aéreo Especial (SAS) foram envolvidos na formação da Forças Especiais da Líbia. Ironicamente eles que estavam envolvidos na luta contra o Exército Republicano Irlandês, que já recebeu ajuda de Kadafi.

Enquanto a maioria dos ex-militares do regime tinham acesso apenas aos equipamentos da era soviética, obsoletos, depois de suportar anos de sanções.

AS MILICIAS
O Conselho Nacional de Transição nasceu oficialmente 06 março. Esta sustentado por uma série de Conselhos Municipais que já estão funcionando, desde o levante de fevereiro. Sendo assim, este conselho é, em essência, um conglomerado de unidades conselheiras improvisadas de auto-governação. (em Misurata, Zentan, Zawiya, Zouara, Nalut, Jabal Gharbi, Ghat e Kufra.

Cada centro populacional no leste da Líbia, desde o início do levante tem criado milícias, que são, teoricamente, independentes.

Na verdade, a mais notável destas milícias locais, criada 28 de fevereiro, é a de Benghazi, mas existem também milícias em Ajdabiya, Bayda Al e Tobruk e em várias outros localidades também.

Em Benghazi a base de Gar Yunis, antigo quartel das terríveis milícias de Kadafi agora está ocupada pela “Brigada 17 de Fevereiro”, considerada o braço armado da revolução Líbia. Integrado por cerca de 2 mil voluntários, formada por grupos civis que se organizaram para assaltar este quartel-general e inutilizar com toneladas de lixo as pistas do aeroporto nos primeiros dias da revolta.

Um de seus principais objetivos é a captura de funcionários e células kadafistas que ainda sobrevivam.

“Nascemos antes do Conselho Nacional de Transição”, diz Mustafah el Saguisli, número 2 da milícia mostrando sua antiguidade.[2] El Saguisli era programador de informática, sem nenhuma experiência militar anterior, assim como seu comandante: Fawzi Bukatef, um engenheiro de petroleiro. Fawzi, que diz que recebe armas do Qatar, não confia nos dois generais que comandam os rebeldes e diz que se sente decepcionado com eles.

A Brigada está encarregada de caçar forças contra-revolucionárias, mas a perseguição de kadafistas provoca tensões entre o conselho e a Brigada. “Eles dizem que não é o momento de detenções nem processos(…)Pediram-nos inclusive que soltássemos alguns porque havia pressões de suas tribos, e não querem problemas. Mas nós pensamos que o poder da revolução deve prevalecer sobre o poder da tribo. E libertar essa gente vai atiçar as vinganças.”[3]

A brigada foi responsável pela morte de Pierre Marziali, diretor da Secopex, uma empresa francesa de segurança que negociava com o governo rebelde um contrato de assessoria. Marziali recebeu um tiro nas costas e seus quatro soldados foram detidos. E olhe que o governo francês, é um de seus grandes defensores, para o povo libio.

A “Brigada 17 de Fevereiro” é vista com extremo receio, porque pode ser decisiva na luta pelo poder que cedo ou tarde vai se desatar depois da queda de Kadafi.

O POVO LÍBIO NECESSITA DE ARMAS
A verdade é que as dúvidas do governo dos Estados Unidos não tem nada a ver com a quantidade de guerreiros islâmicos que saíram da Líbia, afinal, como já foi dito, a maioria saiu da Arábia Saudita, aliada incondicional do imperialismo, e depois da Síria e Iêmen, ditaduras sustentadas hoje por ele contra as manifestações populares.

Tem sim a ver com o caráter da resistência Líbia, como produto de uma revolta espontânea inspirada pela proximidade da Tunísia e Egito, e da lição, contagiante e inebriante de que autocratas podem ser derrubados.

O “aterrizar suave” de Ben Ali e Mubarak e a transferência do poder para os seus antigos aliados, têm sido impossibilitada pela resistência de Kadafi.

O problema é que sem um exército treinado, liderança única e melhor armamento, o combate das improvisadas milícias será mais extenso e mais sangrento, contra os mercenários e o exercito treinado de Kadafi.

O porta-voz dos rebeldes em Washington, Mahmoud Shammam, disse que com armas adequadas já teria derrotado as forças de Kadafi: “Estamos gratos pela ajuda que estamos recebendo da comunidade internacional, mas ainda acreditamos que a liberação da Líbia é a responsabilidade do povo libio. Historicamente, os líbios não pediram ajuda externa. Nós passamos por isso antes. Lutamos contra a ocupação italiana de 40 anos. Nós estamos prontos para lutar por nós mesmos contra Kadafi. É claro que estamos acolhendo qualquer ajuda que podemos obter de qualquer país. Até agora não tivemos nenhuma por isso não vou comentar sobre algo que não tivemos ainda. Pedimos a todos para nos ajudar de muitas maneiras. Um deles é dar aos nossos jovens algumas armas reais. Se você olhar para os relatórios que você têm, e para as ruas e cidades da Líbia, você vai ver que o nosso povo tem armas muito leves. Você pode ver que os carros regulares estão lutando com metralhadoras. Se conseguirmos (armamento mais pesado) tanto que seria melhor. Em todos os caso, se não conseguirmos, acabamos Kadafi, mesmo assim, em poucos dias”[4]

O senador norte-americano Carl Levin, disse que ele estava mais preocupado em como eles usariam as armas depois de um cessar-fogo. O imperialismo tem medo de não controlar o processo revolucionário e da revolução prosseguir de maneira independente depois da derrota de Kadafi. Afinal estarão armadas as milícias em Benghazi, Ajdabiya, Bayda Al e Tobruk e o curso da revolução estará nas mãos do povo.

[1] Américo Gomes, advogado com especialização em Política e Relações Internacionais, membro do ILAESE.
[2] Al Jazeera
[3] Al Jazeera
[4] The Guardian,