A luta das massas e a traição das direções

Direções do movimento de massa tentam desmontar mobilizaçõesÉ impossível entender a permanente “instabilidade” da burguesia boliviana sem considerar um fator essencial: a luta das massas, cuja combatividade se fez presente em várias ocasiões, desde a revolução de 1952. Foi essa luta, por exemplo, que impediu o governo Lozada de consolidar e aprofundar a entrega dos hidrocarbonetos ao imperialismo e o derrubou, em outubro de 2003.

Se essa luta, que havia reconstituído a COB como alternativa de poder, não avançou para uma revolução operária e socialista, foi devido à traição das direções majoritárias. Depois da queda de Lozada, essas direções frearam a luta e permitiram a subida de Carlos Mesa, votado por um Parlamento cuja composição não expressa a nova realidade política do país. Ou seja, garantiram a “continuidade institucional burguesa” no país.

Evo Morales e o MAS (Movimento ao Socialismo), principal força política boliviana, apoiaram Mesa. Jaime Solares, da COB e o dirigente camponês Felipe Quispe, do movimento indigenista Pachakutik, declararam-se “opositores”, mas definiram uma longa trégua que permitiu a aprovação do plebiscito fraudulento sobre o gás e a consolidação do governo. Este ano, diante da renúncia apresentada por Mesa ao Congresso, os deputados desses partido votaram pela sua permanência no cargo.

Algo similar havia ocorrido no Equador em janeiro de 2000. Diante da dolarização da economia levada à época pelo presidente Noboa, uma poderosa luta revolucionária de massas derrubou o governo, dividiu as Forças Armadas e, inclusive, chegou a criar organismos de duplo poder, como o Parlamento dos Povos. Mas as principais direções do movimento, como a CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador) e o PCML (Partido Comunista Marxista Leninista) entregaram o poder ao coronel Lúcio Gutiérrez, dirigente do setor militar que havia apoiado a insurreição. Mas Gutiérrez o transferiu à cúpula das Forças Armadas, que, por sua vez, respaldaram o vice-presidente para que assumisse o poder. Em outras palavras, ainda que com mecanismos um pouco mais complicados que na Bolívia, essas direções também garantiram a “continuidade institucional burguesa”. As eleições posteriores foram ganhas por Lúcio Gutiérrez e os dirigentes da CONAIE e do PCML integraram seu governo.

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