A frente, passo a passo

A Frente de Esquerda Classista e Socialista que o PSTU propôs ao P-SOL, PCB e outras forças de esquerda, pode ser a manifestação eleitoral de toda a experiência feita com o governo Lula. Não se trata, portanto, de uma simples frente eleitoral, mas de uma Construir um programa antiimperialista e anticapitalista
O programa que propomos começa pela rejeição ao governo Lula e à oposição de direita, sintetizada na palavra de ordem “Nem Lula nem Alckmin”. Não vamos permitir a imposição de uma falsa polarização entre dois blocos burgueses, com o mesmo programa neoliberal e a mesma prática corrupta.

Rejeitamos essa democracia, que é dos ricos, pois se trata de um jogo de cartas marcadas. Os grandes setores da burguesia controlam as eleições, financiando os partidos em campanhas caríssimas (como apoiaram o PT e o PSDB nas eleições de 2004) e monopolizando os meios de comunicação de massa (TV, jornais, rádios). Sempre ganham as eleições, mesmo com os partidos de “oposição”, que depois aplicam os mesmos planos econômicos, a exemplo do PT.

Partilhamos da concepção revolucionária de que o fundamental são as lutas diretas das massas, e o parlamento pode ser um ponto de apoio secundário para essas lutas. Por isso, disputamos o voto e queremos eleger parlamentares, mas priorizamos as lutas diretas das massas, às quais deve estar subordinada a ação parlamentar.

O não pagamento das dívidas externa e interna às grandes empresas é parte vital deste programa. Será impossível que a economia brasileira possa satisfazer as necessidades mínimas dos trabalhadores sem resolver este problema. Até o fim de seu mandato, Lula gastará mais com o pagamento de juros do que FHC em seus dois governos. Só em 2006, o governo Lula deve pagar R$ 272 bilhões, enquanto apenas serão destinados R$ 56,5 bilhões para a saúde, educação e reforma agrária juntos.

A campanha do Jubileu Sul contra o pagamento da dívida, que vai culminar na semana da independência em setembro, permite colocar este tema no centro do programa da frente, interligando todas as propostas relacionadas à economia. Seria possível ligar a campanha eleitoral à luta dos movimentos sociais.

Uma frente, para ser de esquerda, tem que ser classista
A independência política dos trabalhadores deve estar manifestada nesta frente. Não pode ser que trilhemos o mesmo caminho do PT. Este partido, ao ampliar seu leque de alianças para os partidos burgueses, assumiu em conseqüência o programa da burguesia.

Este é um debate importante porque existem setores que seguem defendendo a incorporação do PDT a esta frente, um partido burguês. Em alguns estados, como no Rio Grande do Sul e no Pará, tem latifundiários que perseguem sem-terra. Em outros, faz parte de governos de direita, como o de Serra em São Paulo.

A Executiva do PSOL, ao discutir a frente, tinha se posicionado a princípio contra a participação do PDT, mas a discussão segue nesse partido. No último domingo, a Folha de S.Paulo noticiou a possibilidade da frente entre PSOL, PSTU e PCB e entrevistou vários dirigentes, entre eles Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL. Segundo a Folha: “Valente disse que o PSOL ainda negocia uma aliança com o PDT, mas as decisões só devem sair após a definição sobre a verticalização. Uma das propostas é ter o senador Jefferson Péres (PDT-AM) como vice.”

Disse Valente: “A aliança mais importante que poderíamos fazer, do ponto de vista do tempo de televisão e estruturação partidária, seria com o PDT. Mas, se a verticalização for mantida, será difícil um acordo.”

Nessa mesma matéria, Plínio de Arruda Sampaio, possível candidato a governador de São Paulo, foi entrevistado: “Sampaio disse que apóia a criação da frente de esquerda com partidos “realmente socialistas”. “O PDT não tem nada de socialista”, disse. Concordamos inteiramente com Plínio.

Contra o sectarismo e o hegemonismo nas candidaturas
Uma frente deve expressar seu conteúdo plural. O PSTU, PSOL e PCB são partidos diferentes, com programas e políticas bem distintas. Essas diferenças não terminarão por encanto, mas é necessário construir uma cultura frentista, que permita a luta conjunta pelos pontos em acordo. Muitas vezes esta postura unitária é esquecida por setores de esquerda, inviabilizando ou enfraquecendo uma luta.

Um péssimo exemplo foi dado recentemente pela esquerda argentina, durante o processo revolucionário de 2001-2002. Os distintos partidos e grupos não conseguiram articular nenhum projeto unitário, sequer ao redor das assembléias populares ou dos piqueteiros, as principais expressões do movimento. Muitas vezes não conseguiram nem garantir um ato unitário.

Devemos ficar atentos para evitar estas tentações hegemonistas e sectárias. A candidatura de Heloísa Helena à Presidência se impõe por seu peso eleitoral em um setor minoritário de massas. Mas a frente pode ser mais que a expressão de um único partido e suas figuras públicas. Pode ser a manifestação eleitoral de todo o processo de lutas e da reorganização contra o governo. Para isso, é necessário expressar também nas candidaturas a postura de frente.

O PSTU reivindica a vice-presidência nessa frente, assim como uma discussão nos estados sobre a indicação de governadores e senadores.

Não está claro que a discussão da composição da frente caminhe para um acordo. Já foram feitas duas reuniões, em clima bastante amistoso, entre as direções do PSOL e do PSTU. Mas o debate programático apenas começou, e a definição sobre o PDT não foi tomada definitivamente. Tampouco existe resposta sobre a questão da vice-presidência.

Em alguns estados está fluindo uma discussão fraternal, como em Santa Catarina e Distrito Federal. Em outros, como Rio de Janeiro e Pernambuco, o PSOL está lançando seus candidatos, sem nenhum respeito à composição de uma frente eleitoral.
É preciso considerar a importância dessa frente para avançar em uma definição programática, resolver o tema PDT e chegar a um acordo sobre as candidaturas.
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