Por que a frente tem de ser classista

Os trabalhadores brasileiros viveram na década de 80 do século passado uma onda de greves tão importante que os colocou naquela época em uma posição de vanguarda mundial. Uma classe operária concentrada e ampliada por décadas de crescimento industrial se colocou em movimento. Uma das expressões deste fabuloso ascenso foi a criação da CUT e do PT, extremamente progressiva naquele momento.

Outra das manifestações foi o surgimento de uma consciência classista nos trabalhadores, uma identidade de classe. Não estamos falando de uma consciência revolucionária, quando os trabalhadores adquirem a clareza da necessidade de acabar com a exploração capitalista, e assumem uma perspectiva socialista revolucionária.
Falamos de uma consciência inicial, mas absolutamente necessária: os trabalhadores se reconhecerem como classe, diferenciada e com interesses contrários aos da burguesia.

Como já afirmava Karl Marx, em “Luta de classes e luta política”: “A grande indústria aglomera num mesmo local uma multidão de pessoas que não se conhecem. A concorrência divide os seus interesses. Mas a manutenção do salário, este interesse comum que têm contra o seu patrão, os reúne num mesmo pensamento de resistência – coalizão. A coalizão, pois, tem sempre um duplo objetivo: fazer cessar entre elas a concorrência, para poder fazer uma concorrência geral ao capitalista (…). Nessa luta – verdadeira guerra civil –, reúnem-se e se desenvolvem todos os elementos necessários a uma batalha futura”.

Esta simples diferenciação, os trabalhadores de um lado e a burguesia de outro, tem uma enorme importância, e não foi simples de alcançar. Não por acaso, uma das principais palavras de ordem do PT no início dos anos 80 era “trabalhador vota em trabalhador”.

Retrocesso do classismo
No entanto, de lá para cá, a consciência classista retrocedeu. Hoje, a diferenciação clara entre as classes não está presente na consciência nem das grandes massas trabalhadoras, e nem sequer de setores majoritários dos ativistas à frente das lutas.

Um dos principais fatores que diferencia a situação de hoje com a daquela época é a ausência de um ascenso do movimento de massas, que leve a um enfrentamento mais duro entre as classes. Ao lado disso, há outros elementos muito importantes. Como subproduto da globalização, as empresas disputam a consciência dos trabalhadores com sua ideologia da parceria. A globalização, associada às conseqüências da derrocada do stalinismo do Leste Europeu, levou a uma ideologia individualista exacerbada, oposta à luta coletiva, privilegiando a elevação do nível educacional e a relação com a empresa para melhorar a vida. Com isso voltou a se ampliar a concorrência entre os trabalhadores, descrita por Marx.

Mas o principal fator, ao lado da ausência das grandes greves, é a política consciente das direções majoritárias, do PT e da CUT, progressivos no passado. Como subproduto de sua integração à democracia burguesa, por girar ao redor dos acordos eleitorais, essas direções passaram a defender as alianças com as empresas em termos sindicais, e com partidos burgueses (PDT, PMDB, PP e PTB) no terreno eleitoral. Assumiram a ideologia burguesa da “cidadania” que encara trabalhadores e patrões como “cidadãos”, abandonando a definição das classes.

Assim, os patrões e os trabalhadores teriam interesses comuns nas empresas (para concorrer com as outras empresas), e no País (os planos econômicos para beneficiar a “todos”). No entanto, apesar do PT e da CUT, as classes continuam existindo, e a luta entre elas segue determinando a realidade. Para que os salários aumentem é preciso atacar os lucros dos patrões. Um plano econômico a serviço dos trabalhadores tem que atacar de frente os interesses da grande burguesia, um plano a serviço do grande capital ataca os trabalhadores.

Por isso, o fator mais importante para a confusão e o retrocesso na consciência dos trabalhadores é o governo Lula, que surgiu do movimento operário, mas é um governo de colaboração de classes, em aliança com setores poderosos da burguesia. Uma de suas conseqüências foi a enorme confusão sobre o que é ser “dos trabalhadores”, “de esquerda”.

A ideologia de conciliação de classes só serve para que, nas empresas, os dirigentes sindicais da CUT e da Força Sindical convençam os trabalhadores de que “precisam trabalhar mais e ganhar menos”, para facilitar a vida dos patrões na concorrência capitalista. O plano econômico de Lula garantiu lucros fantásticos aos banqueiros (36% a mais em 2005), enquanto os trabalhadores seguem com os salários arrochados e o desemprego é altíssimo.

Uma tarefa essencial: recompor a consciência classista
Recompor o classismo na consciência das massas trabalhadoras é uma necessidade. Essa terá de ser uma das batalhas políticas na campanha eleitoral, para dar um sentido ao balanço dos quatro anos de governo de frente popular. E isso terá de ser uma batalha contra os dois grandes blocos burgueses dominantes, para compor uma terceira frente, dos trabalhadores, classista.

Evidentemente, nessas eleições é quase impossível recompor o classismo na consciência da maioria dos trabalhadores. A quase totalidade das instituições (partidos, sindicatos, igreja, imprensa, escolas) trabalha contra isso, e não existe um grande ascenso das lutas de massa.

Mas a importância dessa batalha não pode ser subestimada. É fundamental um terceiro bloco, dos trabalhadores, que expresse essa postura classista exatamente ao final do primeiro governo de colaboração de classes de nossa história.

Essa luta tem várias expressões. Começa contra os dois blocos burgueses dominantes. Mas o classismo é também parte da batalha pela existência da frente de esquerda nessas eleições. Existem aqueles que defendem a inclusão nessa frente do PDT, um partido burguês. Isso jogaria por terra toda a definição classista. Ou seja, mataria a luta pelo classismo desde o nascedouro.
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