A estranha ameaça de “atentado terrorista”

Atentado frustrado no Riocentro, forjado por militares para impedir abertura política

Ameaça de atentado anunciada pela Polícia Federal guarda semelhança com atentados forjados por militares durante a ditadura

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo e diversos outros órgãos de imprensa, a Polícia Federal investiga uma ameaça de atentado terrorista na posse de Jair Bolsonaro, marcada para o dia 1º de janeiro.

Segundo a Polícia, o autor da suposta ameaça é um grupo que se define como terrorista, diz se chamar “Maldição Ancestral” e reivindica ter colocado uma bomba na madrugada de Natal em uma igreja em Brazlândia, região administrativa do Distrito Federal.

No site do grupo, há um texto considerado pela Polícia como uma ameaça a Bolsonaro. “Se a facada não foi suficiente para matar Bolsonaro, talvez ele venha a ter mais surpresas em algum outro momento, já que não somos os únicos a querer a sua cabeça”. Em outro trecho diz: “Dia 01 de Janeiro de 2019 haverá aqui em Brasília a posse presidencial, e estamos em Brasília e temos armas e mais explosivos estocados…”.  O mesmo grupo promete também novos atentados no dia 31 na mesma Brazlândia, o que a PF considera poder ser uma maneira de tirar o foco da atenção sobre a posse, conforme noticia o Correio Braziliense.

Essa ameaça é estranha. Primeiro, porque até o momento não existia ou ninguém nunca ouviu nem falar da existência de algum grupo que pratique “atentados terroristas” no Brasil e nem desse tal “Maldição Ancestral”. Além do mais, nenhum grupo terrorista, dos muitos existentes no planeta, anuncia seus ataques antes que ocorram. Tratam de capitalizar depois.

Segundo, que se essa suposta ameaça for verdadeira e de tal organização, ela seria mais um obstáculo e um pretexto que pode ser usado pelo Estado e pelos capitalistas contra a organização e mobilização dos trabalhadores. Pois o método do terrorismo individual sempre acaba por facilitar a repressão contra as lutas e as organizações dos trabalhadores. Acaba por cumprir sempre um papel de desorganização da classe trabalhadora e da luta por uma sociedade socialista.

Terceiro, além de estranha, essa notícia é ainda mais preocupante na medida em que estamos perante um governo que defende a tortura, o “fim de todo ativismo” e reivindica a ditadura militar, que acobertava organizações paramilitares de extrema-direita que produziam atentados. E, inclusive, tinha como prática forjar “atentados terroristas” para fins de perseguição política contra seus opositores.

Só no ano passado, quase meio século depois da ditadura, veio à tona, por exemplo, a verdade sobre os inúmeros atentados à bomba que precederam e foram usados como justificativa para o AI5, que alongou e recrudesceu a ditadura militar, impondo os “anos de chumbo”, levando à tortura e ao assassinato de milhares de opositores.

Os arquivos do Superior Tribunal Militar revelaram que os atentados em série que ocorreram no país entre 1967 e 1968, foram de setores paramilitares de extrema-direita. Conforme revelou a Folha de S. Paulo em outubro deste ano, chefiava o grupo terrorista Aladino Félix, que serviu como militar na Segunda Guerra e era reconhecido por relevantes serviços prestados ao golpe militar de 1964. Participavam do grupo 14 militares da então Força Pública, atual Polícia Militar, que realizaram 14 atentados a bomba.

Aladino Félix acabou preso. A Folha de S. Paulo relata que, abandonado pelo governo, ele escreveu em um manuscrito de 25 páginas as suas ações e as motivações das mesmas. Segundo ele, a motivação era levar o regime a assumir medidas ditatoriais agudas e afirma que recebia ordens da Casa Militar do Palácio do Planalto e de fontes do Ministério da Justiça, através da Polícia Federal.

Relata a Folha ainda que a onda de atentados era de pleno conhecimento do governo, que, segundo Aladino Félix, tinha consciência de que o regime estava em meio a uma forte crise, quatro anos depois do golpe. “Brasília queria que nossas ações continuassem até dezembro de 1968 ou janeiro de 1969”, escreve no manuscrito. Ainda segundo Félix, “o terrorismo foi então uma saída de emergência para o governo federal”.

Outro episódio que não podemos esquecer é o do Riocentro em 1981 no Rio de Janeiro, quando uma ação terrorista visava promover uma chacina. Iam explodir uma bomba em um show com cerca de 20 mil pessoas. Se tivesse dado certo o atentado e forjados falsos culpados, poderia  ter causado uma comoção e fazer retroceder a abertura política, arrancada pelo movimento crescente por liberdades democráticas e pelo fim da ditadura.

A ação foi frustrada porque a bomba explodiu ainda no estacionamento, dentro do carro e no colo de um dos dois terroristas que a portavam. No caso, dois militares do Exército, o que acabou por debilitar ainda mais a ditadura militar.

Essa notícia atual de ameaça de atentado terrorista por um suposto grupo que parece ter surgido do nada, é estranha e preocupante.

Ainda mais ao aparecer sob um governo que defende a tortura, reivindica a ditadura militar, faz apologia da repressão, diz querer acabar com “todo o ativismo” e aprofundar a lei “antiterrorismo”  para enquadrar como “terroristas” indígenas, quilombolas e movimentos sociais do campo e das cidades.