A ditadura de Jarbas e o papel da UNE e da Ubes

A revolta no Recife, principalmente em seus dois primeiros dias, assumiu contornos radicalizados e dezenas de ônibus foram depredados. A óbvia reação dos governantes e da imprensa foi a de exigir a repressão imediata. E ela veio.

Não era preciso motivo para apanhar ou ser preso. A ordem do coronel Meira era “Se tiver baderna a gente dá porrada. Se não tiver, a gente dá porrada para prevenir”. E assim foi. Grupos eram cercados e apanhavam sem dó. De vez em quando, só por diversão, a horda de policiais jogava seus carros a toda velocidade contra os manifestantes. Cavalos, bombas de gás lacrimogêneo e gás pimenta foram usados indiscriminadamente, contra todo grupo que estivesse reunido. Um militar aposentado, que tentou interceder contra a violência, foi agredido até cair e uma senhora que estava numa parada de ônibus levou três tiros de balas de borracha. Na Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães (Etepam), 44 estudantes, dos quais 33 menores de 18 anos, foram espancados e detidos. Eles foram atacados no pátio da escola, quando observavam o protesto na avenida em frente. Como nos tempos da ditadura militar e repetindo o que ocorreu em Florianópolis, líderes foram seguidos, fotografados e filmadoras e máquinas fotográficas eram arrancadas dos jovens.

A população ficou ao lado dos jovens e muitos se somavam aos atos. Na Conde da Boa Vista, no Centro, a polícia foi surpreendida por pedras, vasos de plantas e até garrafões cheios atirados do alto dos prédios. No final, até a imprensa conservadora teve de admitir o que ocorria nas ruas. O Diário de Pernambuco estampou na capa a manchete “PM exagera na dose” e o Jornal do Commercio trouxe na capa uma foto do coronel Meira dando uma ‘gravata’ em um estudante.

Diante de todos esses exemplos de violência, o papel desempenhado pelas entidades governistas foi, no mínimo, lamentável. Assim como setores da esquerda francesa, que atacaram o incêndio de carros pelos jovens imigrantes, os ‘representantes estudantis’ se somaram à imprensa conservadora condenando o ‘vandalismo’ nos atos e a ‘baderna’. A vice-presidente da UNE, Louise Caroline, da corrente petista Articulação, declarou ao Jornal do Commercio que “alguns militantes cometeram atitudes reprováveis no que diz respeito à destruição de bens materiais”. Dirigentes governistas também foram capazes de anunciar que iriam entregar à polícia todo estudante que fosse visto quebrando ônibus.

Por causa de seu papel nefasto, as entidades governistas estão enfrentando a ira dos estudantes e vêm tentando se relocalizar nos atos. Na quarta, no maior ato até agora, até o presidente da UNE, Gustavo Petta, apareceu por lá e tentou dirigir o ato. A política da entidade é criar ilusões nos deputados e nas negociações com a EMTU. Mas nada disso tem surtido muito efeito, seja pelo histórico de traições ou pelo fato de que os prefeitos de seus partidos, João Paulo (PT), do Recife, e Luciana Santos (PCdoB), de Olinda, não se opuseram aos aumentos. João Paulo chegou a assinar uma nota com o governador, condenando ‘a forma violenta dos protestos’.

A rejeição com a ‘juventude mensalão’ é latente. Segundo reportagem de um jornal local, um manifestante da Etepam chegou a pedir a saída de Petta e de Louise dos protestos. “Quando o Batalhão de Choque invadiu a escola, batendo e humilhando os estudantes, ninguém da UNE foi capaz nem de dar um telefonema. Hoje, chegam cheios de moral. Liderança assim a gente deve dispensar”, afirmou. Neste mesmo ato, ouviram-se milhares de vozes cantando “aumento vem, a UNE some, e não fala em nosso nome”. A luta exige novas direções, livres das amarras do governo, do regime democrático-burguês e dos vícios burocráticos das velhas organizações pelegas como a CUT e a UNE.

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