A crise grega e a União Europeia

Falência da Grécia mostra o caráter imperialista da União Europeia, dominada pela França e a AlemanhaO rebaixamento da nota de qualificação internacional da dívida pública grega em dezembro passado foi o sinal para desencadear uma grande onda especulativa, que deixou a Grécia em estado de choque e desatou o pânico no seio da União Europeia (UE). O problema é que a Grécia devia refinanciar 53 bilhões de euros da dívida em 2010, mas já não podia fazê-lo e ia entrar em falência. No início de 2009, foi a Irlanda quem esteve a ponto de entrar em “default”, ainda que a burguesia tenha conseguido finalmente evitá-lo. Agora chegou a vez da Grécia, mas não puderam conter a crise e o “resgate” se fez inevitável. A Grécia abriu assim, 11 anos após a implantação do euro, a primeira grande crise da zona do euro e se converteu na ponta do iceberg da profunda crise que perturba a UE.

A Grécia vive o final repentino de uma etapa de crescimento apoiada em um enorme endividamento público e privado e nas subvenções europeias. Uma etapa na qual os grandes beneficiários têm sido os bancos alemães, franceses e britânicos, que financiaram o endividamento, e as grandes multinacionais alemãs (e francesas) que se apossaram do mercado grego, à custa de criar um enorme déficit comercial (superior aos 10% de seu PIB). Foram estas empresas as que enriqueceram com o desenvolvimento da rede telefônica e energética do país e monopolizaram a renovação das frotas de táxis e trens gregos, recorrendo a subornos generalizados, como no caso da alemã Siemens. Neste período, a economia grega foi fortemente desnacionalizada, com a companhia telefônica OTE controlada pela Deutsche Telecom, as linhas aéreas nacionais privatizadas e até os portos vendidos à empresa chinesa Cosco. Os bancos e os grandes empresários gregos uniram-se, com entusiasmo, a uma festa que agravou a desigualdade social em um dos países europeus onde esta era mais acentuada (80 grandes empresários da navegação possuem um patrimônio equivalente a todo o PIB grego).

Mas, com a explosão da crise financeira mundial, tudo veio abaixo, deixando o país desarmado diante do capital financeiro europeu, enquanto os pilares da economia grega, o turismo, a indústria naval e a construção civil, entravam em uma profunda queda. Os bancos gregos (cuja dívida foi rebaixada pelas agências de qualificação à categoria de “bônus lixo” – dinheiro podre) apareciam, além disso, envolvidos em negócios escusos nos países do Leste, a ponto da bancarrota.

A Grécia encontra-se afundada em uma profunda recessão. Em 2009, o PIB retrocedeu um 2% e o déficit público chegou a 12,8%, o que elevou a dívida pública grega a 115% do PIB (para este ano preveem 125%). O pagamento de juros já representa 15% da arrecadação pública. Cerca de 60% desta dívida está em mãos dos bancos alemães, franceses e britânicos, que são credores de uma dívida total que duplica o PIB grego. O desemprego reconhecido está na casa dos 10% e avança em ritmo acelerado.

A reação da União Europeia
A crise grega colocou a UE em uma situação limite. Quando Hungria, Romênia ou Letônia (que são membros da UE, mas não da zona euro) estavam a ponto de suspender os pagamentos, a UE encarregou o “salvamento” ao Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem a União trabalha lado a lado nos “planos de ajuste” que estão levando a devastação a estes países. Mas a Grécia é um país da zona do euro e a entrega do “resgate” ao FMI representaria não só um enorme descrédito da UE, mas a intromissão dos EUA (através do FMI) no controle do Banco Central Europeu (BCE) e nas finanças públicas europeias.

O capitalismo alemão (cujos bancos são os principais ameaçados pela quebra grega) sabe que está obrigado a intervir, e que vai ter que fazê-lo burlando as normas que ele mesmo impôs. Regras que proíbem os países da UE e o BCE de “resgatar” um país membro da quebra, salvo por razão de “desastres naturais ou circunstâncias que escapem ao controle dos países”.

Mas tem imposto condições terríveis para a “ajuda”: só a concederá se a Grécia cumprir um brutal programa de ajuste imposto pela UE, e se o país lhe entregar o controle de sua economia. Chama a atenção o escândalo montado pela mídia sobre a falsificação das contas gregas (montada pelo banco norte-americano Goldman Sachs, a troco de embolsar 300 de milhões de euros), quando eram perfeitamente conhecidos os fatos e quando foram muitos os países, incluídos a Alemanha e a França, os que recorreram à “contabilidade criativa”, ou seja, falsificada, no momento do acesso ao euro.

O plano de choque grego
O governo “socialista” de Yorgos Papandreu, que há dois meses prometia subir o salário dos empregados públicos que ganhavam menos, se converteu agora no “vice-rei” do capitalismo alemão e francês. O plano de choque imposto pela UE e assumido como seu pelo governo grego representa um empobrecimento brutal do país e vai provocar uma profunda depressão na economia grega.

A chave do plano é o corte de quatro pontos no déficit público grego em 2010, para chegar a “apenas” 2,8% em 2012. Para consegui-lo, propõe-se reduzir os salários dos empregados públicos entre 5% e 20%, mais ainda no caso dos professores do ensino fundamental e universitário. Ao que se soma uma redução da folha de pagamento, através da substituição de somente dois empregados públicos a cada dez que se aposentarem. Para se ter a dimensão da medida, é preciso levar em conta que os servidores públicos representam 20% da população assalariada grega.

O governo propõe também um aumento da idade média de aposentadoria dos atuais 60 anos para 63 anos, e da idade de aposentadoria das mulheres de 60 para 65. Soma-se a isto uma fortíssima redução dos subsídios sociais e cortes brutais nos investimentos para os hospitais públicos e, inclusive, reduz-se a despesa militar. Há um grande aumento dos impostos (moradia, gasolina, fumo, álcool, alta geral do imposto sobre a renda e do IVA[1] de 19% para 20%), enquanto são declaradas anistia fiscal e reduções de impostos aos empresários. As medidas completam-se com a privatização do que ainda restou do patrimônio público grego.

O alemão Jürgen Stark, economista-chefe do BCE, expressou-se sem rodeios: “Isto é o mínimo absoluto que tem que ser colocado em prática imediatamente e serão necessárias mais medidas à luz da deterioração significativa da situação”.

A Grécia está sofrendo um ultimato: ou aceita as condições de “resgate” ou será expulsa do euro. O “plano de ajuste” da UE significa devastar o país e sangrá-lo em benefício do capital financeiro. Sua saída do euro, no marco do reconhecimento da dívida e do capitalismo, significaria igualmente chegar à mesma ruína, só que de modo mais brusco, à maneira argentina: através de uma enorme desvalorização da moeda, o aumento da dívida pela própria desvalorização, a suspensão dos pagamentos, o empobrecimento súbito do país, um acelerado retrocesso econômico e uma grande inflação importada.

Grécia convertida em protetorado
A crise grega está mostrando cruamente que quem manda na UE é a Alemanha e a França. E também que a União é, antes de tudo, um instrumento do capital financeiro alemão e francês, e que este está convertendo a Grécia em um protetorado econômico no qual todas as medidas econômicas são impostas e controladas de fora pelas duas principais potências europeias. Esta submissão de um povo orgulhoso como o grego chegou à humilhação quando Papandreu se encontrou com o presidente francês Nicolas Sarkozy e encenou sua vassalagem[2]. Ambos anunciavam a compra pela Grécia de 20 aviões Eurofighter da Alemanha e de seis fragatas da França. Mas a submissão da Grécia não é algo casual. Longe de ser um caso isolado, abre o caminho à periferia da UE.

A crise da União Europeia
A UE tem um problema de fundo insolúvel, e é o que a diferencia dos EUA. A UE não é (nem nunca será) um país único, com um governo e orçamentos únicos e regras comuns. Ao contrário, é um bloco imperialista de países, dominado por seus dois imperialismos centrais, Alemanha e França (rivais entre si), no qual se agrupam imperialismos de segunda e terceira ordem, junto a países, como os do Leste Europeu, que são semicolônias econômicas das grandes potências europeias, em particular da Alemanha.

A criação da União Monetária Europeia não se deu sobre a base de um país unificado, mas sobre o domínio financeiro direto do capitalismo franco-alemão, através do BCE, sobre um conjunto de países tremendamente diferentes, que renunciaram a emitir moeda e a ter uma política monetária própria. Isto permitiu uma poderosa expansão e fortalecimento do capitalismo alemão e francês, que aproveitou a época das “vacas gordas” para estender e garantir seu domínio comercial e industrial sobre o mercado europeu. Mas agora, com a crise, muda o rumo. Além disso, os enormes fundos emprestados pelos bancos alemães e franceses correm perigo e desprotegem os mercados de exportação de suas multinacionais.

No entanto, o problema não é a Grécia, que representa 2,7% da economia da UE. Wolfgang Münchau, diretor associado do Finantial Times, disse em um recente artigo (“Por que me preocupa mais a Espanha do que a Grécia”): “Pode ser que a Alemanha se mostre arredia a resgatar a Grécia por todo tipo de razões, mas ela o fará. Mas não é concebível que a Alemanha possa resgatar a Espanha. Alemanha e França juntas não podem resgatar a Espanha. A Espanha é demasiado grande”. E a questão não é sequer a Espanha, porque sua quebra arrastaria Portugal, Itália, Irlanda e a própria Bélgica. O contágio significaria o colapso do euro, da zona do euro e da própria UE, além de abrir uma crise de dimensões desconhecidas.

A aguda crise dos países da periferia europeia ocorre no meio de uma onda depressiva que afeta igualmente em cheio os imperialismos centrais europeus. O retrocesso do PIB alemão em 2009 foi de 4,9% e o da França de 2,2%. Nos casos da Itália e da Grã-Bretanha, atingiu 4,8%. Para este ano, a UE prevê um crescimento raquítico (com crescente desemprego) com o perigo de uma “recaída” como consequência da suspensão de ajudas governamentais. A dívida pública da Alemanha, França e Grã-Bretanha atingirá ou superará 80% de seu PIB em 2010. Para não falar da Itália (ou Irlanda), que chegará a 120%, como a Grécia. Com o ônus cada vez mais insuportável dos juros que isso representa. As emissões da dívida pública previstas para 2010 da França, Alemanha e Itália são enormes, da ordem de 25% de seu PIB.
Post author Por Felipe Alegría, do PRT–IT (Espanha)
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