A América Latina na ponta do fuzil

A recolonização do continente latino-americano pelos EUA tem duas pontas: uma econômica e outra militarSe a criação da Alca é uma das estratégias do imperialismo americano para controlar economicamente a América Latina, o avanço da militarização do continente é a outra face dessa moeda.

Os planos de militarização visam a fortalecer a principal coluna vertebral do Estado, as Forças Armadas. Para isso, é necessário modernizar e profissionalizar a instituição e os organismos repressivos e de inteligência, com o reaparelhamento da tropa, a qualificação e o treinamento dos soldados.
Mas os planos não param por aí. Mesmo modernizadas e equipadas, as Forças Armadas latino-americanas não contam com a confiança cega por parte do imperialismo. Por isso, a militarização tem outra face muito mais invasiva, como a instalação de bases militares em pontos estratégicos do continente.

Os “rambos” estão nos cercando

Os Estados Unidos já têm 20 guarnições na América do Sul. Na América Central, contam com a base de Guantánamo, em Cuba, 3 mil soldados no Panamá, homens do Departamento de Estado em Porto Rico e a base de Soto Cano em Honduras.

No norte da América do Sul, foi criado um cordão sanitário na região amazônica. Sua logística fundamental são três bases aéreas: Manta (Equador), Rainha Beatrix (Aruba) e Hato (Curaçao). No Peru, mantêm especialistas em combates fluviais na base de treinamento naval Riverine em Iquitos e guarnições em Inapari e Puerto Esperanza.

Na Colômbia, os contingentes norte-americanos concentram-se na base de Tolemaida (Tolima) e na sede do Comando Especial do Oriente, em Três Esquinas (Caquetá). São soldados, instrutores militares e civis das Forças Especiais, da DEA (Agência americana de combate às drogas) e da CIA, que treinam e apóiam operações com informação em tempo real por meio de sinais de rádio e desenhos de operações fornecidos pelos aviões-espiões.

O sistema amazônico seria coordenado pelo Plano Nacional de Radarização, estabelecido na Argentina, e o Projeto Sivan, desenvolvido no Brasil.

No Cone Sul, foram construídas pistas de pouso em Chacao (Paraguai) e Cobija (Bolívia), e está prevista a instalação de uma base de estudos nucleares norte-americana na Terra do Fogo.

A Agência Central de Inteligência (CIA) e o Mossad (Central de Inteligência de Israel) já têm presença em Ciudad del Este, na Tríplice Fronteira, alegando a presença de terroristas árabes. A CIA mantém publicamente uma estação de rastreamento eletrônico em Assunção, capital do Paraguai.

O processo de militarização vem acompanhado por uma maior atribuição do imperialismo aos governos latino-americanos para usar suas tropas para controlar a região. O envio de soldados ao Haiti, pelo governo Lula, é uma ponta de lança para a militarização desse país.

Lutadores são tratados como criminosos

Outro efeito disso é o avanço da criminalização e penalização dos movimentos sociais. Não é coincidência que, quando Fernando Henrique começou a negociar a Alca em 1995, houve o massacre de Eldorado dos Carajás em 1996. No fim de seu mandato, os assassinatos em conflitos agrários passaram de 21, no ano 2000, para 43 em 2002. Para conter a ação dos movimentos sociais, FHC baixou Medidas Provisórias que criminalizaram quem realizasse ocupações de terras ou prédios públicos.

Lula seguiu o mesmo caminho. Em seu primeiro ano de governo, foram assassinadas 73 pessoas em conflitos agrários, o número de presos chegou a 223 em agosto, 43% a mais que no ano anterior, e 35.292 famílias foram despejadas por ordem judicial, o maior número desde 1985.

Mas não só os sem-terra foram criminalizados. Assassinatos, prisões e despejos nas lutas urbanas passaram a ser uma constante. Seja em ocupações, lutas de perueiros, combeiros e camelôs, o que existe é uma verdadeira guerra contra os movimentos populares no Brasil.

A criminalização não é uma política somente do governo brasileiro, mas do conjunto da América Latina. Na Colômbia, o governo Uribe tenta passar a mentira de que os guerrilheiros são narcoguerrilheiros para intensicar a repressão e, na Bolívia, o governo Mesa continua implementando o Plan Dignidad, destinado a exterminar o cultivo de coca, tentando passar a imagem de que os lutadores cocaleros são traficantes de drogas.
Post author Américo Gomes, da Direção Nacional do PSTU
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