A 44 dias do golpe de Estado: uma reportagem da resistência

Honduras, aguenta que o povo se levantaOs companheiros John Vega do MAS (Movimento ao Socialismo) da Costa Rica e Manuel Flores do MSTC (Movimento Socialista dos Trabalhadores e Camponeses) de El Salvador estão em Honduras. Eles foram enviados para levar a solidariedade e o apoio de suas organizações nacionais e da LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional) com a luta do povo hondurenho contra o golpe. Eles estão participando das diversas atividades da resistência em Tegucigalpa e outros lugares do país. A seguir, reproduzimos a primeira das reportagens que eles nos enviaram de Honduras.

A resistência continua
Permanentemente, o povo hondurenho se mantém nas ruas, mobilizado contra o golpe de Estado. Nem a repressão dos golpistas, nem as negociações de São José conseguiram desmoralizar a luta popular. Nestes 44 dias, de forma permanente, ocorreram manifestações que com maior ou menor intensidade têm garantido a permanência do movimento popular nas ruas.

As mobilizações encabeçadas pela Frente Nacional de Resistência (FNR) contra o Golpe de Estado percorrem todo o país. Fazem parte das manifestações de resistência: a greve do Magistério Nacional, do sindicato do Instituto Nacional Agrário, dos trabalhadores da Empresa de Nacional de Energia Elétrica, do serviço meteorológico nacional e de sem número de servidores públicos e organizações populares.

A FNR converteu-se na principal expressão organizativa e na condução política das mobilizações contra o golpe. A Frente continua levantando as bandeiras do retorno incondicional do Presidente Zelaya, da Assembleia Constituinte e da punição aos golpistas, as quais se converteram nas principais consignas da resistência.

Na última semana ocorreram mobilizações em todo o país, inclusive confrontos entre os estudantes da Universidade Nacional Autônoma e as forças repressivas quando estas entraram pela força na universidade.

Mobilizações de massa são preparadas
Por enquanto, há uma grande expectativa pela convocação a duas concentrações em massa em Tegucigalpa e São Pedro Sula, previstas para a segunda-feira, 10, e terça-feira, 11 de agosto. Espera-se que para a terça-feira cheguem caravanas provenientes de diferentes departamentos e regiões do país.

Diante da possibilidade de um novo ascenso na mobilização os golpistas ameaçam com mais repressão. Foram convocados os reservistas das Forças Armadas, contingentes de militares deslocaram-se às duas principais cidades do país e as zonas próximas do Parlamento e de Casa Presidencial continuam fortemente militarizadas.

Para essa mesma terça-feira, os golpistas anunciaram a visita de uma missão da OEA, que tinha sido cancelada no domingo passado pela manhã argumentando a suposta assistência de José Miguel Insulza [1] dentro da comitiva. No fundo, provavelmente, estão prevendo mobilizações em massa e preparando o palco para nova repressão.

O governo golpista não consegue se normalizar
Os principais meios de comunicação hondurenhos tentam difundir uma normalização do país e apresentar as mobilizações como fatos isolados e de vandalismo sem maior importância. O governo golpista se sustenta com o apoio das forças armadas e não consegue conduzir o país de forma normal, o que é evidente em vários dos setores do funcionalismo público.

Diante da convocação do Tribunal Supremo Eleitoral para realizar eleições em novembro começa a crescer um sentimento de rejeição aos candidatos dos partidos liberal e nacional, Elvin Santos e Pepe Lobo, quem têm encontrado dificuldades para apresentar-se em público uma vez que silenciam frente ao golpe e não reconhecem seu evidente respaldo aos golpistas.

A embaixada norte-americana e o Plano Arias
Na tentativa de normalização, a embaixada dos Estados Unidos assume um papel protagonista, buscando garantir uma saída negociada por fora baseada no Acordo de San José. No fim da semana passada, o Embaixador Hugo Llorens solicitou uma reunião com a Frente Nacional de Resistência com a clara intenção de conhecer em primeira mão a posição da Frente sobre o Acordo de San José; o próprio embaixador manifestou que a única alternativa viável para a embaixada norteamericana é em base ao estritamente proposto no Plano Arias, o qual deve ser assinado na própria cidade de San José.

A principal dificuldade que enfrenta o Plano Arias é a rejeição da Frente Nacional, que manifestou até o momento que o único ponto que aceitam é o do retorno do Presidente Zelaya, e que a renúncia à Constituinte ou a anistia proposta no Plano são inaceitáveis.

A cada dia fica mais evidente que o Plano Arias é o dispositivo, promovido pela embaixada norteamericana e os golpistas, para condicionar o retorno de Zelaya à custa das principais consignas do movimento popular. A aceitação de Zelaya ao dito plano significa uma ruptura de fato e um reconhecimento da principal política do imperialismo.

Zelaya, o Plano Arias e a Constituinte
A principal preocupação do imperialismo e dos golpistas é a forma e as condições na qual o Presidente Zelaya retorne ao país, advogando por um retorno onde o movimento popular não tenha condições de sustentar a consigna da Constituinte. A intenção é que o retorno de Zelaya seja sobre os ombros do Plano Arias e não sobre os do movimento popular; para assinar o Acordo de San José os golpistas precisam se assegurar que as mobilizações não continuarão e que o chamado a uma Constituinte se dissipará, pelo menos até as próximas eleições que legitimem o novo governo liberal ou nacional.

Para que o Plano Arias se torne viável precisam do reconhecimento da Frente ou de ao menos alguns de seus dirigentes, daí o lobby da embaixada norteamericana que provavelmente se aprofundará nos próximos dias. Não basta com o já explicitado reconhecimento de Zelaya ao acordo, precisam de um acordo com quem hoje dá sustentação à resistência em Honduras.

As mobilizações desta semana são muito importantes porque podem significar um avanço para a consolidação da greve nacional e para aprofundar a luta popular nas ruas. O destino de Honduras de decide hoje nas ruas e sob a condução da Frente Nacional, só a mobilização popular dará a última palavra.

NOTA:
1.
José Miguel Insulza é o secretário geral da OEA (Organização dos Estados Americanos)