A 286, o grupo de rap paulistano, apresenta denúncia e crítica social

A 286
Reprodução

Formado em 19 de fevereiro de 1997, o grupo de rap paulistano A 286 surgiu na Zona Sul de São Paulo, especificamente em Noronha, região do Grajaú, Santo Amaro, tendo como primeira formação Moysés, Ivan e DJ Carlos. Hoje, a corrente encontra-se ainda mais resistente com a chegada de dois amigos, Reinaldo e Paulo, ambos integrantes do grupo de rap Dignos, também de SP.

A decisão de unir os dois grupos foi tomada por diversos fatores favoráveis a ambos. Primeiramente, a formação anterior – Moysés, Ivan, Isaack (em memória), DJ Carlos e André – sofreu algumas alterações após a morte de Isaack. Perdeu-se um pouco o foco do que grupo queria e alguns integrantes dispersaram-se do objetivo. Em segundo lugar, a afinidade musical entre ambos os grupos era evidente. A fortificação profissional para um mercado fonográfico que encontra-se cada vez mais concorrente e a divisão dos gastos com produções musicais, divulgação, maior qualidade dos shows, etc. também contribuíram para a união.

Por último, o importantíssimo e decisivo fator para formar um bom grupo de rap: quatro compositores em pleno poder de expansão musical. Sinceridade, nova motivação, experiência de vida dentre outros fatores que o tempo dará a precisa consistência para a consolidação de um trabalho musical em repercussão nacional e mundial.

O que quer dizer ou significa a abreviação “A 286”
Baseado no código penal de 1940, que diz respeito a incitar o crime publicamente, ou seja, quem faz “apologia ao Crime”, a síntese entre rap versus sociedade dá a entender que não só o rap nacional, mas também o segmento cultural ao qual ele pertence – o hip hop – são vistos com complexidade, deformidade, marginalidade, entre outros adjetivos preconceituosos por parte da sociedade brasileira.

O fardo dos cantores de rap – os rappers – aqui em questão é árduo, sem desapreço aos demais segmentos de nossa cultura de rua. A sociedade costuma julgar os rappers como os incentivadores do crime, da violência, da degradação do ser humano através do uso de entorpecentes. Dizem que são os causadores dessas mazelas e que incitam a juventude (público risco) através de suas composições. Porém isso não é o que acontece.

Os rappers apenas objetivam o campo a ser explorado, usando a liberdade de expressão. Se usada com conhecimento e responsabilidade, torna-se um artifício de fundamental importância para abordar questões ligadas à realidade de vida nas letras de rap, vida que se encontra inumana em grande parte do Brasil.

O A 286 aborda como temas principais a falta de perspectiva das pessoas carentes, a miséria humana espalhada por todo o país, a fome, o descaso do governo e da sociedade, a prostituição infantil, a exploração de crianças que sofrem nos canaviais, no tráfico e em grande parte escravizadas nas pedreiras, nas minas, longe da visão analítica do Brasil, lamentavelmente vendendo seus corpos para turistas que vem pra cá a procura de promiscuidade sexual.

Isso é “apologia ao crime”? A verdade é uma apologia ao crime? Dizer que o soberano presidente da Nação investe bilhões na compra de um avião sofisticado, isso é “apologia ao crime”? Mostrar que morrem mais de cem pessoas por dia por armas de fogo, a polícia mata 3.000 pessoas por ano, ostentando a marca do “órgão público que mata”, ou seja, a polícia mais violenta do mundo, é fazer “apologia ao crime”? Será que é “apologia ao crime” denunciar que o Brasil é o 70º em desenvolvimento humano e o sexto país mais desigual do mundo?

Quem faz “apologia ao crime” é quem vende pro exterior a falsa propaganda do “país do carnaval”, do futebol, vendendo seu ar afrodisíaco, seus perfumes e ambientes naturais, atração para os “gringos” gastarem seus dólares num consumismo desenfreado e promíscuo. O fato de os rappers saberem disso é uma “apologia ao crime”?