2005: O ano que não termina para o governo Lula

O ano está quase terminando. Mas para o governo petista, 2005 não vai terminar, seguirá na memória dos trabalhadores como o ano em que Lula perdeu sua máscara e que o PT teve sua histórica hegemonia questionada

O governo Lula está completando três quartos de seu mandato. Já é possível hoje ter claro o significado de conjunto do primeiro governo federal do PT.

É uma experiência inédita na história brasileira, e raríssima em todo o mundo. Não é muito comum que partidos operários reformistas cheguem ao governo, mas é muito mais raro que isso ocorra através da maior liderança operária da história desse país. Assim se justificam as enormes esperanças que embalaram os sonhos dos trabalhadores brasileiros no final de 2002.

O diagnóstico desses três anos seria impensável para um petista quatro anos atrás: foi o governo mais pró-imperialista, mais pró-banqueiro, mais anti-operário desde os tempos da ditadura militar. Conseguiu ganhar dos governos do PSDB-PFL – digamos que não é fácil fazer isto – em todos estes itens.

Lula, o amigo de Bush
O governo Lula cumpriu para o imperialismo um duplo e inestimável papel, que não poderia ser feito por um governo da direita tradicional.

Manteve e aprofundou o plano neoliberal de FHC, quando este já tinha sido questionado fortemente no país. Não se deve esquecer que foi por este questionamento que Lula foi eleito.

Impôs a reforma da Previdência, que nenhum governo da direita tinha conseguido até então. Conseguiu também um tríplice coroação do neoliberalismo: um superávit primário recorde, outro recorde histórico para o pagamento dos juros (maior do que os dois governos FHC), outro para os lucros dos banqueiros.

Servilismo
Lula, que despertou grandes esperanças em todo o continente, teve um papel na América Latina de enorme serventia para Bush. Nenhum governo brasileiro desde a ditadura militar (em 1965, à República Dominicana) tinha enviado tropas para invadir um país latino americano, a serviço do imperialismo, como Lula no Haiti.

Teve também um papel de bombeiro nos grandes processos revolucionários da Bolívia e do Equador.

Não é verdade, como dizem os petistas, que Lula se posiciona contra a Alca. Aliás, o presidente fez questão de repetir, quando recebeu calorosamente a Bush, que está a favor da Alca, mas quer uma negociação para abrir os mercados norte-americanos para os produtos dos latifundiários brasileiros. Trata-se de uma posição semelhante à de FHC, sem nenhum pingo de antiimperialismo. Mais ainda, caso as negociações com os EUA na OMC avancem, como Lula e Bush negociaram, a Alca vai ser retomada.

O trunfo ameaçado
Lula capitalizou até agora em seu governo – o que continua sendo o seu maior trunfo – os reflexos no Brasil do crescimento internacional da economia capitalista. Com isso, manteve o apoio de setores importantes da burguesia, como de setores populares que tem a falsa esperança de que o crescimento vai trazer melhorias para suas condições de vida.

Mas a economia capitalista funciona por ciclos, e uma nova crise já está no horizonte. O mais provável é que a retração do PIB do terceiro trimestre (-1,2%), sinalize somente uma queda temporária, e que o crescimento volte no quarto trimestre. Mas o que está claro, é que uma nova crise econômica virá em 2006 ou logo a seguir. Lula quer desesperadamente que a crise não chegue em 2006, para manter seu trunfo eleitoral.

A mancha para o resto da vida
A crise política, ao redor das denúncias de corrupção, foi o centro da vida política nacional neste segundo semestre. Só está sendo aliviada pelo acordão entre o governo e a oposição burguesa para encaminhar todo o processo para as eleições.
É difícil definir o vencedor de qual foi o governo mais corrupto. Collor foi destituído por um impeachment, com provas muito menores dos que as já existentes contra Lula. FHC foi mais corrupto de que Collor, embora isso não tenha ficado claro para o povo: a privatização das estatais foi uma negociata que envolveu bilhões de dólares. Os esquemas de corrupção do PT, tanto de Marcos Valério como os dos fundos de pensão, vieram dos tempos de FHC. Ficará para a história o difícil dilema de saber se Zé Dirceu e Delúbio comandaram um esquema ainda maior que PC Farias e Sérgio Motta.

O que se pode afirmar é que o partido que ganhou eleições com a defesa da “ética na política”, vai terminar seu governo com uma enorme mancha de corrupção, da qual nunca mais se verá livre.

Um passo para o futuro
Os trabalhadores aprendem com suas próprias experiências. Uma expectativa com a dimensão da que existia com Lula só poderia desmanchar-se com golpes repetidos da realidade. Estão sendo necessárias seguidas demonstrações práticas e duras para demonstrar que o governo do PT, que tem a cara de operário, é um governo corrupto e a serviço dos banqueiros.

Mas isto está ocorrendo. Milhões estão terminando o ano com uma nova consciência, rompendo com o PT e buscando uma nova alternativa política. Este é o primeiro passo para o futuro. Ano novo, vida nova. Talvez nunca esta frase tenha tido um significado tão profundo.

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