“A gente está mais unida que nunca”

Visitamos a família de Jailma da Conceição para ver como está a sua vida, um ano depois da desocupação. Encontramos a dona de casa com a filha Rafaela. Mas o que encontramos não foram pessoas destruídas ou derrotadas. A tragédia se transformou em força.

“Eles não tiraram só as casas da gente, eles tiraram a dignidade, a gente foi muito humilhada”, disse Jailma, que vive num cômodo com o marido e três filhos. O banheiro foi improvisado com tapumes. Um armário divide a casa em quarto e cozinha. Na hora de dormir, colchões são espalhados pelo cômodo. Por esse desconforto, a família paga R$ 500, valor do bolsa-aluguel do governo do Estado.

No Pinheirinho, Jailma construiu a própria casa. “Tinha o meu quarto, a sala, a cozinha, o quarto das crianças e outro quartinho que a gente estava fazendo”, lembra. O marido de Jailma não conseguiu mais emprego na região. Hoje, trabalha em São Paulo e é obrigado a passar dias fora de casa.

“Lá [no Pinheirinho] meus filhos tinham de tudo, a minha geladeira era cheia. Hoje não tem”, conta. “Ele [filho] fica mais ali na pracinha, porque se ele fica dentro de casa, ele quer comer uma coisa diferente e não tem. Eu vou fazer o quê? Vou matar? Não vou. Lá eles tinham as coisas deles.”

Na parede, Rafaela exibe as medalhas que ela e o irmão conquistaram em campeonatos de judô. Eles foram obrigados a abandonar o esporte depois do despejo.
Enquanto conversávamos, a irmã de Jailma, Aldenora, e a mãe, Francisca, chegaram. “A minha casa era enorme, dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros”, diz Aldenora. Hoje, cinco pessoas dividem quatro cômodos pequenos. Para Aldenora, não foi só a casa que mudou: “Eu tenho depressão, tomando remédio, estou cheia de problemas de saúde. Os meus dois rins, se eu não tomar remédio, eu não faço xixi”. Hoje ela toma seis medicamentos diferentes por dia. “Depois que eu saí do Pinheirinho, veio um monte de coisas à tona. Minha pressão não cede mais.”

Quando perguntamos sobre as casas novas, Jailma diz que só acredita vendo. Mas esta não é uma expressão de desesperança. Pelo contrário, ela aprendeu que nenhuma conquista vem sem luta: “Ele quis quebrar a espinha do Pinheirinho, o prefeito, mas não conseguiu. A gente está mais unida que nunca. E eu vou ter a minha casa”.

Perguntada se vai ao ato do dia 22, Aldenora respondeu: “Eu vou ser uma das primeiras, já convidei minhas amigas tudinho. E quando eu estiver lá, eu vou dizer ‘Olha aí, Eduardo Cury, tá achando que a gente desistiu?’ Desistiu nada! Agora é que nós estamos mais fortes!”.

Post author Luciana Candido e Raíza Rocha, enviadas a São José dos Campos (SP)
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