‘O Ultimato Bourne´, a CIA e o espelho

Cartaz de divulgação do filme
Reprodução

Em cartaz no Brasil, O Ultimato Bourne traz a mais nova aventura do herói pós-moderno Jason Bourne, no filme que encerra o ciclo da trilogia (Identidade, Supremacia e Ultimato), pelo menos na opinião do protagonista Matt Damon (Syriana, 13 homens e um novo segredo). Paul Greengrass (Domingo Sangrento, Vôo United 93), diretor do filme, criou uma película ambígua que pode muito bem ser o fim da série, pelo menos até algum produtor ávido por sucesso convencer algum grande estúdio de que o personagem ainda tem público interessado e de que pode dar lucro, o que, aliás, não seria nenhuma novidade.

O fato é que temos em O Ultimato Bourne um mocinho um tanto diferente do habitual. Taciturno, de poucas palavras e bastante reflexivo, Jason Bourne não lembra os senhores-da-verdade-a-serviço-do-poder que costumavam caracterizar os agentes da CIA/FBI. Pelo contrário. A busca de Jason por suas raízes passadas e, conseqüentemente, pelos motivos que o levaram a perder a memória acabam por levá-lo a uma rede de intrigas e segredos que vão respingar no alto escalão.

A louvar o alto nível técnico das cenas abertas, em geral filmadas em locais públicos de grande movimento, cujo senso de movimentação e presença dos personagens lembra o estilo entrecortado a la Brian de Palma. Somadas a elas, as cenas de ação são realmente exuberantes, em uma espiral de movimentos que preza pelo realismo e plausibilidade, como na cena em que Bourne tenta alcançar um dos seus contatos, ao mesmo tempo em que foge de um matador profissional, pulando dos telhados e janelas de Tangier, no Marrocos.

Também vale mencionar a boa qualidade do roteiro, conciso e sem reviravoltas desnecessárias, num filme cuja ação linear, pontilhada por cenas “flash-back” do mocinho desmemoriado, dispensa esse tipo de artifício.

Cena do filmeO grande ponto, contudo, fica por conta da sensação de consciência do personagem-título. Bourne não hesita em tentar esclarecer todos os pontos que dizem respeito ao seu passado, mesmo sabendo que muito do que vai ser revelado depõe contra o poder constituído e contra ele próprio. Pode-se argumentar, com razão, que o que motiva o personagem não é desmascarar o governo, mas simplesmente esclarecer as questões pessoais que o atormentam há anos. Acontece que Bourne vai além nas suas questões reflexivas, chegando a perguntar textualmente para outro assassino que o persegue: “você ao menos sabe porque está me perseguindo?”.

A própria saga de Jason Bourne começa em um momento de dúvida existencial do protagonista quando, no primeiro filme (A Identidade Bourne), ele não consegue assassinar uma das suas presas porque ela está sendo defendida pelos filhos pequenos no barco onde eles se encontram, até que um segurança atira nele e o lança ao mar.

À semelhança do filme Quebra de Confiança, para citar um exemplo apenas, a CIA é mostrada como corrupta e inepta, tentando, porém, deixar margem para a “boa” equipe que supostamente existe, representada por alguns agentes que dão cobertura velada e procuram entender os motivos reais de Bourne, ao invés de eliminá-lo sumariamente como querem seus chefes, interessados que estão no acobertamento das suas operações escusas.

Vale prestar atenção a um personagem cuja grande façanha é se perguntar qual é a razão para tantas mortes.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: The Bourne Ultimatum
Gênero: Ação
Tempo de Duração: 111 minutos
Ano de Lançamento: 2007 (EUA)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns e George Nolfi, baseado em história de Tony Gilroy e em livro de Robert Ludlum
Montagem: Christopher Rouse
Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall e Paul Sandberg
Música: John Powell
Fotografia: Oliver Wood
Desenho de Produção: Peter Wenham
Direção de Arte: Grant Armstrong, Robert Cowper, Peter James, Andy Nicholson, David Swayze, Jason Knox-Johnston e Sebastian T. Krawinkel
Figurino: Shay Cunliffe
Elenco: Matt Damon (Jason Bourne), Julia Stiles (Nicky Parsons), David Strathairn (Noah Vosen), Scott Glenn (Ezra Kramer), Paddy Considine (Simon Ross), Edgar Ramirez (Paz), Albert Finney (Dr. Albert Hirsch), Joan Allen (Pamela Landy), Tom Gallop (Tom Cronin), Corey Johnson (Wills), Daniel Brühl (Martin Kreutz)

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