Zé Maria critica veto a sua participação em debate da CNBB

Manifestantes fazem debate paralelo contra veto da CNBB
Ag.Brasil

O candidato à Presidência pelo PSTU, Zé Maria, divulgou uma carta aberta à CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, criticando os critérios utilizados pela entidade para a realização do debate entre os presidenciáveis nesse dia 23.

Apesar de ser uma entidade com atuação no movimento dos trabalhadores, a CNBB adotou critérios para a participação dos candidatos similares aos adotados pelos grandes veículos de comunicação. Ou seja, repetindo o que fizeram grandes redes de TV, como a Band, e veículos como a Folha, a CNBB abriu a participação somente às candidaturas com representação parlamentar.

Ficaram de fora as candidaturas de esquerda que, em momentos recentes, atuaram lado a lado com a CNBB em lutas importantes, como a campanha contra a Alca.

Do lado de fora do debate, os candidatos dos partidos excluídos realizaram uma manifestação contra o veto da entidade.

Leia abaixo a carta aberta de Zé Maria à CNBB:

Carta aberta à Comissão Brasileira de Justiça e Paz e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Perde-se a oportunidade de realização de um debate democrático com os presidenciáveis

Há cerca de um mês soubemos pela imprensa do debate que hoje se realiza com quatro dos presidenciáveis, por iniciativa da Comissão de Justiça e Paz da CNBB. Imediatamente, naquela ocasião, fizemos contato com os organizadores. Por óbvio, nada tínhamos contra o convite feito àqueles candidatos. Nossa ponderação foi: porque não os demais?

O sistema eleitoral brasileiro está repleto de vícios que comprometem a democracia das eleições. Alem do sistema privado de financiamento das campanhas que gera desigualdades imensas entre as candidaturas, a exposição dos candidatos na TV revela-se outro problema de enorme gravidade. O horário eleitoral gratuito já é distribuído de forma desigual. Enquanto uma candidata tem 10 minutos, outro candidato 7 minutos, eu tenho apenas 55 segundos para expor ao país as minhas propostas de governo. Alem diss o as empresas privadas que controlam as redes de TV abertas do país decidiram apresentar aos eleitores brasileiros apenas três candidaturas. É isso que vemos nos noticiários destas TVs, nos debates e entrevistas.

Se somarmos a isso a informação publicada na Folha de São Paulo, de pesquisa indicando que 88% das pessoas buscam na televisão informações para definir o seu voto, temos uma manipulação óbvia de todo o processo. O povo é levado a crer que apenas estas três alternativas existem, excluindo todas as demais, afetando de forma evidente o resultado das eleições. Registre-se que esta decisão das redes de TV não se deve a determinação legal, como alegam algumas emissoras. A lei é clara: determina a participação dos candidatos de partido que tem representação parlamentar e FACULTA aos demais a participação, ou seja, permite. São as redes de TV – empresas privadas, portanto – que decidem quais candidatos mostram e quais não mostram. Isso atinge tanto o direito dos candidatos como o direito da população a ter uma informação adequada e isenta.

Que as redes de TV façam isso nós entendemos, apesar de não aceitarmos: trata-se de empresas que agem em função de seus interesses econômicos. Nunca tiveram, e demonstram mais uma vez não ter, nenhum compromisso com valores democráticos. Que a justiça brasileira permita uma barbaridade destas, também não nos surpreende, trata-se de uma regra em nosso país – as empresas, o poder econômico é que toma as decisões, e as autoridades apenas obedecem.

Mas, ponderamos naquela oportunidade, não entendíamos a razão pela qual a CBJP da CNBB adotava o mesmo critério – sabidamente antidemocrático – das emissoras de TV para organizar o seu debate. E pedimos reconsideração, na medida em que é grande o respeito que temos por esta instituição. Pensamos diferente sobre vários aspectos, da vida e da política no nosso país, mas é inegável a contribuição da CNBB à luta por liberdades democráticas e pela cidadania no Brasil.

Infelizmente, não houve reconsideração. Estamos excluídos, juntamente com as demais candidaturas, do debate que acontece hoje sob o patrocínio da CBJP da CNBB. Não tenho procuração para defender os demais candidatos, mas minha candidatura tem lastro nos movimentos sociais do nosso país. Minoritária, sim, mas tem representação social significativa. Aliás, já fomos parceiros na jornada de lutas contra a Alca, contra o pagamento das dívidas externa e interna, no recente Plebiscito pela Delimitação do Tamanho da Propriedade da Terra e tantos outros movimentos de interesse do povo brasileiro. Não há justificativa plausível para esta exclusão.

O respeito que tenho pelas instituições que organizam o debate é justamente o que me obriga a registrar minha discordância com os critérios adotados para o debate. Simplesmente não é democrático. Acredito que a CBJP e a CNBB perdem uma grande oportunidade de agir diferente da grande mídia, de dar um exemplo ao país. Pelo contrário, reproduzem o critério antidemocrático que estas empresas aplicam, emprestando a ele uma legitimidade que não têm. É lamentável

Registro esta crítica por dever de franqueza que, acredito, devem nortear as relações entre as nossas organizações. E espero que a crítica leve a reflexões que nos ajudem, a todos, a avançar. Mas, ao mesmo tempo quero reafirmar também que o PSTU, como sempre esteve, continuará lado a lado com a CBJP e a CNBB em todas as lutas que se colocarem para defender os interesses dos trabalhadores e do povo brasileiro. É a defesa da nossa classe e do nosso país que nos move. É isso que estamos fazendo no processo eleitoral, apesar dos imensos obstáculos que enfrentamos com a discriminação da mídia.

Saudações socialistas,
São Paulo, 23 de setembro de 2010

Zé Maria
Candidato a presidente da república pelo PSTU