Zé Maria: “A Frente é uma necessidade dos trabalhadores”

Opinião Socialista – Qual é a importância desta Frente de Esquerda nas eleições?
Zé Maria –
A existência da frente permite à classe trabalhadora e aos setores de esquerda criar condições para desbloquear a falsa polarização entre Lula e Alckmin, PT e PSDB, afirmando um projeto alternativo que represente os interesses da classe trabalhadora brasileira. Os trabalhadores estão colocados diante de uma falsa polêmica, alimentada pelo governo e pela mídia, de que é preciso escolher entre votar em Lula ou em Alckmin.

Lula não é uma opção para os trabalhadores, e é preciso discutir isso, porque a maioria deles está sendo enganada. É um governo que traiu as expectativas do povo, que pratica uma política que premia os banqueiros e as grandes empresas.
O Brasil paga cerca de R$ 170 bilhões para banqueiros e grandes empresários, detentores da dívida pública, a cada ano. Evidentemente, essa é uma política econômica que segue o que FHC fazia, premiando os sempre privilegiados, como os bancos, que estão batendo recordes de lucratividade. A rentabilidade dos bancos cresceu 61% nos cinco primeiros meses deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado.

E sacrifica os mesmos de sempre. É o trabalhador, que segue com taxas de desemprego enormes. É a miséria, que continua crescendo no país – algo que o governo tenta “compensar” ou mascarar com as políticas tipo Bolsa Família, que, na verdade, são políticas que só perpetuam a pobreza.

Lula também pratica, no governo, a mesma corrupção de FHC e dos governos do PSDB. Não há diferença entre a política de compra de votos para aprovar a reeleição de FHC e a picaretagem feita com os mensaleiros.

O Alckmin representa a tentativa da velha direita, que já esteve no poder, representada por FHC, Collor. A direita sempre governou este país em nome dos interesses das grandes empresas, dos banqueiros, do latifúndio, sempre massacrou os trabalhadores e praticou uma corrupção deslavada e desenfreada quando governou o Brasil. Não só os exemplos do governo FHC estão aí para demonstrar isso, como o do próprio governo Alckmin aqui em São Paulo que, tão logo saiu do governo, surgiu um mar de denúncias e corrupção.

Eles são inimigos da classe trabalhadora. Governam para a burguesia, para os banqueiros e as grandes empresas, contra os trabalhadores. Esta é a razão pela qual a constituição da frente é uma necessidade dos trabalhadores. É preciso apresentar uma alternativa que possa representar, diferente destas duas, os interesses da classe trabalhadora.

Então, desbloquear esta falsa polarização é uma tarefa importante e ajuda a fazer avançar a discussão sobre uma alternativa de esquerda e socialista para o país.
É evidente que cada um dos partidos da esquerda socialista tem diferenças, mas o fato de termos chegado a uma base programática que permitisse a constituição de uma frente é extremamente positivo.

OS – Foi correto abrir mão de sua pré-candidatura a vice-Presidência para o acordo com PSOL e PCB?
Zé Maria –
Sim, foi. O PSTU tinha todo o direito de ter o candidato a vice, pelo peso que temos. O PSOL teve uma atitude hegemonista e burocrática de indicar a vice, quando já tinha a candidatura à Presidência. Mesmo assim, o PSTU nunca colocou a exigência da vice como uma condição para a constituição da frente. O que defendemos foi a necessidade de um programa comum, a ausência de partidos burgueses como o PDT , e o respeito aos partidos na definição das candidaturas. Foi feito um programa comum, que apontou para a ruptura com o imperialismo e não se manteve a visão do PSOL de “revolução democrática”. Não houve aliança com o PDT, nem nacionalmente, nem nos estados. Em relação à definição das candidaturas, aceitamos um acordo com o recuo do PSOL das candidaturas ao Senado no Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul, além da candidatura ao governo de Minas, para viabilizar a frente. Isso nos assegura o mínimo de visibilidade para o partido no marco desta frente. E, para nós, mais que uma candidatura a vice, estava a necessidade desta Frente de Esquerda, pela importância política que tem.

OS – Quais são os pontos programáticos mínimos que você considera necessário para fazer da frente uma alternativa?
Zé Maria –
Deve, em primeiro lugar, estabelecer uma delimitação que seja anticapitalista, antiimperialista. O programa tem que defender a libertação de nosso país do jugo do imperialismo. Tem que defender o não-pagamento da dívida, a ruptura com as políticas do Fundo Monetário Internacional, o rechaço à Alca. Avançando, a partir daí, para medidas no interior do país, que apontem para uma reorganização da economia brasileira e uma aplicação dos recursos na solução dos problemas que afligem o povo. Por exemplo: é necessário parar o processo de privatização das empresas e dos recursos públicos – como ocorre hoje com as reservas de petróleo da Petrobras – e reestatizar as empresas que foram privatizadas, como a Vale do Rio Doce, o sistema elétrico, o sistema de telecomunicações, as siderúrgicas; é preciso estatizar o sistema financeiro e colocá-lo a serviço do financiamento da moradia popular, das obras de saneamento, da agricultura, do pequeno produtor rural, da produção de alimentos. É preciso reverter esta situação em que o povo brasileiro trabalha para enriquecer banqueiros e colocar o sistema financeiro para ajudar a financiar as políticas públicas, uma necessidade para resolver nossos problemas. E, a partir desse reordenamento da economia, devemos apontar para o atendimento das reivindicações básicas da população e da classe trabalhadora: reforma agrária, construção de moradias, saneamento, investimento na saúde e na educação, geração de empregos, valorização do salário mínimo, combate à opressão dos setores marginalizados e discriminados. Ou seja, um programa que aponte para a ruptura com o imperialismo. Um programa anticapitalista que aponte para medidas concretas que possam responder positivamente às demandas dos trabalhadores. Por outro lado, o programa deve indicar uma saída de classe para o nosso país. Este também é um ponto programático, que tem a ver com o caráter da campanha, não é secundário. Não se constrói uma alternativa de esquerda, socialista, sem estabelecer um limite forte com a conciliação de classe. Parte fundamental do processo que degenerou o PT foi a busca desenfreada por alianças com setores empresariais e representações políticas do empresariado, com o argumento de que era preciso ter mais votos para chegar ao poder mais rápido. Esse tipo de coisa levou ao sacrifício das bandeiras históricas do PT, que apontavam para a transformação do status quo. Então, uma campanha que se paute pela independência de classe, pela busca da afirmação da classe trabalhadora contra todos os projetos da burguesia, sejam eles da situação ou da oposição, é um aspecto fundamental que a campanha deve ter.

OS – Qual é a relação que a frente deve ter com as lutas concretas dos trabalhadores e dos demais setores da sociedade?
Zé Maria –
Coerente com que eu disse anteriormente, sobre o caráter de classe da frente, ela não só deve apoiar como tem que estar a serviço das lutas sociais do país. Só vai haver uma transformação significativa, que possa melhorar a vida dos trabalhadores, com um processo de mobilização forte para esta mudança.
Neste sentido, a campanha da Frente de Esquerda tem que estar a serviço das lutas. Os programas de televisão, por exemplo, têm que ser utilizados para divulgar as greves, as mobilizações, as lutas do sem-terra, sem-teto etc. Porque dessa forma a frente poderá contribuir para servir como um instrumento de mudança para o país, ajudando a facilitar os mecanismos pelos os quais nós podemos de fato produzir estas mudanças, pela mobilização social.
Post author Por Wilson H. Silva, da redação
Publication Date