Vinte anos da Batalha de Piraporinha

Foi em 5 de maio de 1989. A polícia teve de se render aos operários de Diadema, cidade do ABC paulista, armados apenas com pedras e uma disposição para resistir incrível. Antes, porém, deixou cinco feridos a bala.

A greve havia começado dias antes, em 19 de abril. O Plano Verão, instituído pelo governo Sarney em janeiro daquele ano, devorava o salário dos trabalhadores. Chamado de Plano Ladrão pelos trabalhadores, a medida do governo federal congelou os preços e os salários e criou o Cruzado Novo, uma nova moeda.

O plano gerou perdas nas cadernetas de poupança de mais de 20%. Os operários do ABC, que acumulavam perdas salariais que variavam entre 41% e 49%, resolveram parar a produção no que ficou conhecida como a “greve cachorro louco”. “Por que parou? Parou por quê? Porque o salário não está dando pra viver” e “Parou por quê? Por que parou? Porque o patrão quer matar o trabalhador” eram as palavras-de-ordem.

No dia 5 de maio, uma assembleia decidiu manter a greve que já durava quase vinte dias. Os operários que estavam na assembleia foram aos piquetes para parar as fábricas que ainda mantinham parte da produção funcionando no bairro de Piraporinha no município paulista de Diadema. A polícia partiu para um massacre. Mas os trabalhadores reagiram.

Emmanuel Oliveira, dirigente do PSTU, estava lá e foi um dos protagonistas dessa história. Em depoimento ao Portal do PSTU, ele conta o que viveu naquele dia. Confira abaixo.

Às 19h do dia 4 de maio de 1989, Tarcisio, membro da executiva do Sindicato dos Metalúrgicos dos ABC, dava início à reunião do comando de mobilização, na sede da entidade, em São Bernardo do Campo. Mais de 120 mil operários estavam em greve na região.

Nessa época, as reuniões do comando eram, como se costuma dizer, de casa cheia. Participavam, em média, 300 a 400 ativistas de todas as empresas da categoria.

As reuniões do comando antecediam as assembleias de massas. No dia 5, haveria uma assembleia que decidiria se a greve continuava ou não. Já havia uma proposta de acordo construída entre o Tribunal Regional do Trabalho e a direção do sindicato: 45% de reajuste enquanto os trabalhadores reivindicavam 84,18%.

O Brasil vivia uma situação política muito intensa. Uma onda de greves assolava o país. Os trabalhadores estavam na ofensiva. O governo do então presidente José Sarney estava na corda-bamba, e a candidatura de Lula para presidente da República era a grande sensação.

O clima da reunião foi tenso. O núcleo dirigente do sindicato já havia decidido: defenderia a proposta na assembleia. Mas antes teria de passar pelo comando.

Tarcisio apresentou a proposta e abriu a palavra para quem quisesse falar. Os trabalhadores da oposição, a maioria militantes da Convergência Socialista, corrente interna do PT que deu origem ao PSTU, tomaram a palavra contra a aceitação da proposta.

Alguns membros da Comissão de Fábrica da Ford e da Volks se dividiram. Na época, os trabalhadores da Ford eram os mais mobilizados e gozavam de um grande respeito por todos. Os ativistas das empresas médias e das autopeças tomaram a palavra e também rejeitaram a proposta. A direção do sindicato, percebendo que a proposta estava em perigo, colocou o presidente da entidade para falar. Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, defendeu novamente a proposta.

Por maioria apertada, a reunião decidiu que o comando defenderia o reajuste de 45% na assembleia. Adi, membro da Comissão de Fábrica da Mercedes, ficou responsável por falar em nome do comando, e Giba, junto com Vicentinho, pelo sindicato.

Os membros da oposição exigiram o direito à palavra na assembleia, já que no comando houve duas proposta. A oposição achava que era justo que os trabalhadores apreciassem as duas.

A direção do sindicato, junto com os membros das comissões de fábrica, decidiu que a oposição não falaria. No mesmo dia, à noite, os metalúrgicos militantes da Convergência Socialista se reuniram. Eles decidiram fazer um panfletinho de meia página, chamando os trabalhadores a rejeitar a proposta e manter a greve. Na fria madrugada, às 4h da manhã do dia 5 de maio, o panfletinho já estava nas mãos dos operários das grandes empresas.

Os trabalhadores da Volks saíram em passeata pela via Anchieta rumo ao Paço Municipal, local da assembleia. O mesmo fizeram os trabalhadores da Ford, Mercedes, Scania… e várias passeatas vindas dos bairros e da cidade Diadema.

Segundo a imprensa, o número de trabalhadores no paço era de mais de 50 mil. Naqueles tempos, só a Volkswagen tinha 30 mil operários. Embora estivesse frio, fazia um lindo dia de sol. O carro de som, chamado de Gabriela, estava cercado por milhares de trabalhadores em greve.

Quando Vicentinho abriu a assembleia criticando o panfleto da oposição, sentiu que não fez muito sucesso com os trabalhadores. Esses ouviram em silêncio, mas não houve reação a princípio.

O primeiro a fazer uso da palavra foi o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, João Avamileno, que tinha aprovado a proposta dos 45% no dia anterior. Ele recebeu uma vaia enorme. O mesmo aconteceu com Adi. Esse não conseguiu terminar a fala. Por último, Vicentinho teve o mesmo destino dos outro dois oradores. Foi vaiado, mas com um agravante: os trabalhadores passaram a jogar moedas e notas de dinheiro, chamando de vendido.

No fim, Vicentinho colocou a proposta em votação: 90% rejeitaram. Aí ele sentiu o golpe. Teve de dizer: “foi aprovado, sem nenhuma dúvida, que a greve vai continuar a pesar de tudo”.

Foi uma explosão de alegria enquanto a diretoria brigava entre si. No mesmo momento, um grupo de trabalhadores começou a gritar que tinha algumas fábricas trabalhando. O Vicentinho começou a falar: “estou pensando em fazer um piquete nessa semana para parar essas empresas…”. Mas uma vez foi atropelado pelos trabalhadores, que gritavam “vamos fazer o piquete agora!”. A direção teve de fazer o “piquete-monstro”, pois saíram em passeata mais de 30 mil trabalhadores, entrando em todas as fábricas no sentido de Piraporinha, bairro de Diadema.

De cada empresa que os trabalhadores saíam, eram saudados com palmas. Chegando à Toyota, que ficava numa rua sem saída, os trabalhadores fizeram um corredor polonês e começaram a dar uns tapinhas “carinhosos” nas costas e nas cabeças dos fura-greve. Nada para machucar, era só gozação.

Chegou uma notícia de que a empresa Arteb estava funcionando e que o seu dono, o presidente do sindicato das empresas de autopeças, disse que a sua empresa ia trabalhar. A essa altura, na portaria da Arteb, tinha umas vinte viaturas da polícia, canhões com jatos de água. A polícia começou a jogar bomba de gás lacrimogêneo nos metalúrgicos. Eram alguns ativistas que estavam fechando a rua. O que a polícia não sabia era que o piquete estava na Toyota. Em frente à Toyota, tinha uma montanha dessas pedras quadradinhas que eram para reformar a calçada. Aí, o bicho pegou…

Muitos trabalhadores mais antigos e experientes em enfretamentos com a polícia, diziam aos mais novos que molhassem a camisa, pois, fazendo isso, o gás não surtia efeito. E fomos a enfrentar a polícia e, como ponto de honra, fomos para a Arteb.

A polícia viu que os trabalhadores não recuaram com as bombas. Começaram a atirar. Essa atitude enfureceu ainda mais os operários. Aos milhares, começaram a jogar pedras na policia. Em dez minutos, destruíram todos os carros da polícia. Essa, por sua vez, fez uma linha de tiro a disparar contra os trabalhadores que começaram a cair. Foram cinco baleados gravemente. Foram carregados pelos trabalhadores para o hospital.

Mas quem achou que os operários parariam de jogar pedra errou. Os policiais se rederam. Alguns deles gritavam: “comandante, perdemos, vamos sair”. Um deles jogou o cinto no chão, junto com o cassetete e o capacete. Um dos operários pegou e ergueu para cima: era a demonstração que tinham ganhado o conflito.

Nesse momento, a direção do sindicato, sem reação, só dizia para os trabalhadores pararem de jogar pedra na polícia. Vicentinho subiu em cima do carro de polícia com os braços abertos, dizendo “parem, pelo amor deus!”.

Os trabalhadores só pararam de jogar pedra quando chegou a notícia de que todos os trabalhadores da Arteb sairiam da fábrica e iriam para casa. A essa altura já era tarde e os trabalhadores não arredaram o pé das duas vias da avenida. Só saíram quando o prefeito da cidade, que tinha sido advogado do sindicato, subiu no carro de som e falou a favor dos trabalhadores.

Os trabalhadores mantiveram a greve por mais uma semana. A direção do sindicato, para acabar com a greve, fez votar a proposta por fábrica e não mais em assembleia unitária. Com a direção do sindicato jogando contra e dividindo os trabalhadores, não tivemos outro caminho que não fosse aceitar a proposta.