Vida e obra de dois Gonzagão

Gonzagão: uma vida próxima aos poderosos e uma obra que esteve junto ao povo

Em 2012 no Brasil tem realizado homenagem a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Nasceu nos primeiros anos do século XX.

Na época no país vivíamos a política do café com leite, o revezamento dos poderes entre São Paulo e Minas Gerais.

O nordeste era a região dominada por coronéis, que surrava e humilhavam os miseráveis do sertão.

Um nordeste que vivia assolado pela seca, que colocava na ceia, a mais cruel das maldades da face da terra, a fome.

Aqui o seu povo viviam no flagelo, sem terra, sem comida, como dizia o poeta, um morto vivo.

Açoitado pelas diferenças sociais, uns fugiram de sua terra e foram buscar guarida por outras bandas, outros insistiram na terra prometida.

Transformando-se em trabalhadores sem terra, em jagunços,vaqueiros, cangaceiros.

No cangaço muitos sertanejos mergulharam até a morte.

Um momento de guerras de chumbo grosso, das pelejas resolvidas na ponta do punhal, do salve-se quem puder.

Foi nessa realidade que nasceu Luis Gonzaga, mais um menino, que nasceu nas entranhas das caatingas, como tantos outros filhos de sertanejos.

Uma origem humilde, e como todo aquele que nasceu em berço cercado de escassez, sofreu e muito, carregou como um burro, muita cangaia.

Alimentando uma paixão por uma linda cabocla, só que filha de um coronel. Como pobre e negro jamais seria do agrado do manda chuva daquela região. Foi enxotado daquelas terras.

Foi para o Exercito, na época um meio de ascensão para o filho do pobre, não fez carreira.

Mas foi na música que o Gonzagão deslanchou e partiu para o Brasil e o mundo.

A sua vida tomou um percurso distinto de sua obra.

Na vida andou muito próximo aos poderosos, pelo sertão afora cantou muito animando o pão e circo dos coronéis, fazendo os seus gingos de campanhas para os dominantes, durante a ditadura militar, bateu muita continência para oficiais que sujaram as mãos de sangue, oprimindo o povo brasileiro.

Já sua obra ganhou outra dimensão.

O seu trabalho artístico teve outro rumo, se apoiou na vida daqueles que habitaram o universo do povo sofrido e retirante do nordeste brasileiro.

Cantou a dor do sertanejo, que sofria com a falta de terra, de água, que eram expulsos de sua região e vagavam em direção a outras regiões longínquas.

Sua música, seja o forró,o baião,fazia denuncias contra a miserabilidade do povo do sertão nordestino, como também apunhalava as classes dominantes e suas práticas.

Como na canção Vozes da Seca, que traz a poesia matuta, como uma expressão de insatisfação contra a falta de políticas públicas para solucionar a problemática da seca.

“Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão”

Na “Poesia de Patativa do Assaré” canta o sofrimento dos retirantes fugindo da seca.

.. Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer…

… Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar…

… E vende seu burro
.. Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem…

.. A seca terrível
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal…

.. Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul…

Na sua voz entoada chegava-se aos quatro contos do mundo o clamor de um povo barbaramente excluído dos direitos sociais e políticos, A seca longe de ser uma descarga divina, era o retrato do abandono das classes dominantes e seus políticos para com a população carente de tudo.

Na canção “Xote ecológico” denuncia a destruição da natureza e o assassinato de Chico Mendes.

“Não posso respirar, não posso mais nadar
A terra está morrendo, não dá mais pra plantar
Se planta não nasce se nasce não dá
Até pinga da boa é difícil de encontrar
Cadê a flor que estava aqui?
Poluição comeu.
E o peixe que é do mar?
Poluição comeu
E o verde onde que está ?
Poluição comeu
Nem o Chico Mendes sobreviveu”

Nesse centenário celebramos a obra de Luis Gonzaga, não esquecendo que contraditoriamente, as suas relações políticas sempre foram muito conservadoras, o lado fraco de um homem que procurou trilhar dois caminhos distintos, revelando sua grande contradição. O verso de Cacá Lopes retrata bem esse momento:

Luiz cantou em campanhas
De políticos governistas,
Criou jingles, trabalhou
Para nacionalistas,
Enquanto o filho assumia
Posição com esquerdistas.

Lua apoiou Jânio Quadros,
Lucas Nogueira Garcês,
Por Dutra, Adhemar de Barros
Tudo quanto pôde fez.
Carlos Lacerda foi outro,
Que do Rei ficou freguês.

Nos salões dos poderes por diversos momentos o LUA emprestou sua voz, para se confraternizar com os algozes do seu povo tão lembrado nas letras de suas canções.

E apesar dessas relações intimas com o poder, na época da ditadura teve canções suas censuradas.

Sabendo dessa limitação na trajetória de Gonzagão não podemos negar o seu trabalho artístico que conseguiu encantar os corações e mentes com suas composições e interpretações que realçavam o cotidiano do povo trabalhador desse imenso país.