Venezuela: quando o discurso já não convence, o povo vai às ruas

Protestos estudantis mostram crise socialO governo de Hugo Chávez se caracteriza por ser uma verdadeira máquina de frases de efeito e fatos políticos que levam a esquerda à loucura, tal qual em uma boa jogada de futebol. Contudo, se no futebol, as jogadas brilhantes não bastam para ganhar a partida, as frases de efeito de Chávez também não alteram a realidade.

Depois de nove anos no governo a situação não se transformou substancialmente. Ninguém nega a presença das “misiones”, mas o povo é exigente e quer mais. O barril de petróleo já alcançou os 100 dólares. Por outro lado isso não significa em melhoria das condições de vida dos trabalhadores. O problema habitacional, o desemprego e os baixos salários seguem presentes no dia a dia dos venezuelanos.

O Socialismo do Século XXI, ao contrário do socialismo do século XX que é anticapitalista, nada mais significa do que um “novo” modelo, baseado na mesma exploração operária e também a mesma repressão aos trabalhadores. Assim, durante 2007, as massas estão apreendendo o que é o socialismo do século XXI e quais são suas principais características:

a) Inflação – a mais alta de América Latina, que no fim do ano superou 18% e os alimentos que individualmente chegaram a uma alta de 25%. Por outro lado, entretanto, o salário mínimo é de 614.790 mil bolívares e um litro leite em pó (isso quando se consegue achá-lo), custa 30 mil, ou seja, um dia e meio de salário. O Instituto Nacional de Estatística (INE), afirma que em 2007 o custo de vida aumentou 21% .

b) Escassez de vários alimentos – carne, frango, leite, ovos, óleo de cozinha e pão, todos desapareceram dos mercados. Quando se consegue algo, é apenas no mercado informal a preços impagáveis.

c) O Governo Chávez é um péssimo patrão – Os trabalhadores públicos já estão há 4 anos negociando seus salários e até agora nada. Os trabalhadores do Conselho Nacional Eleitoral estão há 16 anos sem contrato. Os trabalhadores petroleiros tiveram que realizar várias mobilizações e se enfrentaram com uma brutal repressão com direito à bala e tudo. Igual ao melhor modelo de repressão praticado pelos governos neoliberais. Tudo para poder conseguir a assinatura do contrato coletivo, que há um ano está vencido. Mesmo assim, as conquistas econômicas conquistadas não repõem as perdas inflacionárias.

2007: os trabalhadores não dão trégua
Se nos anos anteriores a política venezuelana esteve marcada pela resposta às tentativas de golpes de Estado e pela luta contra as políticas de Bush, este ano foi marcado por lutas operárias. Marchas, greves, paralisações em cidades industriais e paralisações provinciais. Sidor, Sanitários Maracay, trabalhadores petroleiros, Toyota, Mitsubishi, são alguns exemplos de lutas operárias. Cidades como Puerto Ordaz, Maracay e Barcelona viveram a experiência de paralisações, nas quais se combinou mobilizações de setores populares com os operários.

O movimento estudantil ganha às ruas
Nas últimas semanas assistimos protestos estudantis em sete dos 23 estados. Os principais Estados do país estiveram envolvidos nesta luta, algo que mostra sua extensão. Mobilizações massivas e com muita radicalidade, sendo que em Cumaná houve um princípio de saque ao comércio. Em Tigre, importante região petroleira do sul do estado Anzoátegui, houve revoltas estudantis contra a alta das passagens. O protesto incluiu queima de ônibus e enfrentamentos com a polícia chavista. O pano de fundo é um profundo questionamento ao aumento do custo de vida, dos alimentos de primeira necessidade, falhas nos serviços de eletricidade, água, educação, saúde etc.

O movimento estudantil e sua direção
O movimento estudantil é dirigido por dois grupos. De um lado, estão os grupos afeitos a oposição de direita e pela Bandera Roja, que durante anos dirigiram o movimento estudantil com seus métodos stalinistas usando e abusando da violência física e militar contra os ativistas honestos. Estiveram por detrás dos golpes de Estado, mas o chavismo nunca “les cerró el paso”, ou seja, os combateu de maneira conseqüente.

Por outro lado encontramos as direções estudantis que são chavistas. Estas aplicam os mesmos métodos autoritários de Bandera Roja e cia. Os principais grupos são os conhecidos Alexis Vive e Tupamaros.

Os tiroteios [que recentemente foram noticiados em todos os jornais do mundo] são métodos de gângsteres praticados por ambos os bandos e onde os estudantes que desejam lutar, não podem porque eles não deixam. Mas como deveria ser? Com métodos de assembléias, de discussões abertas, de congressos, ou seja, métodos da chamada democracia operária.

A Universidade pública a serviço dos ricos….
Parte do descontento dos estudantes tem a ver com o problema do ingresso nas universidades públicas. Por seu sistema de seleção, elas acabam favorecendo o ingresso os filhos da classe média alta e da pequena burguesia. Há muitos anos, na Universidade Central da Venezuela, foi realizada uma pesquisa sobre as principais demandas dos estudantes. A pesquisa mostrou que a principal demanda estava relacionada com os restaurantes universitários. Em 2006 novamente se realizou a pesquisa e para surpresa de todos a principal demanda foi a falta de espaço para estacionar os veículos.

…..a universidade privada e as ‘misiones’ a serviço dos mais pobres!
Como o modelo de ingresso não favorece aos mais pobres, o que lhe sobra são as “misiones” ou as escolas privadas. Vemos que nas “misiones” se aplica o modelo cubano, baseado em aulas improvisadas, os monitores que substitui professores, que inclusive não têm garantias trabalhistas.

As universidades privadas, com financiamento estatal, cobram um preço exorbitante e atuam como supermercado de ensino, onde a educação é uma mercadoria, cujo acesso só pode ter aqueles que têm dinheiro para pagar.

A luta dos estudantes é reflexo do descontento social
O atual ciclo de lutas estudantis é reflexo da situação que vive a população e está baseado na inflação e desemprego. Agregue- se a isto, um modelo de ensino onde os que mais ricos tem ingresso assegurado nas universidades públicas e aos pobres só resta as “misiones” ou o ensino privado. Todos estes elementos determinam a cabeça da juventude. A paixão pelo chavismo está em queda e têm se transformado em profundos desgastes, o que poderá apontar até uma ruptura com o governo.

A Reforma Constitucional e o voto pelo NÃO:
A reforma constitucional impulsionada por Chávez contêm vários elementos que do ponto de vista democrático está provocando muitas reações contrárias. Para além de nosso ponto de vista – opinamos que a proposta de Constituição tem diversos elementos que servem para avançar a recolonização da Venezuela, contrastando com o discurso antiimperialista – , a reforma constitucional aprofunda os elementos bonapartistas do governo, tais como extensão do mandato para 7 anos, eleição indefinida do presidente e a possibilidade das Forças Armadas de atuarem nos conflitos sociais.

Por este motivo, nós da Unidade Socialista dos Trabalhadores, chamamos a votar pelo NÃO. Os estudantes também pensam desta maneira, e sem dúvida, uma parcela importante dos trabalhadores votará pelo NÃO.

É necessário apoiar as lutas e disputar sua direção
Na vanguarda há uma discussão imposta pelos chavistas, que todo aquele que discorde do governo é um traidor a serviço do imperialismo. Esta é uma hábil e nefasta política.

Por essa análise, o movimento estudantil é traidor pois são dirigidos por Bandera Roja ou pela direita. Nós não confundimos o movimento com sua direção. Devemos analisar o movimento e dentro dele sua direção. Metodologicamente é a melhor maneira de se fazer a discussão.

Se formos coerentes com nossa análise, de que está se gestando uma crise no interior do chavismo, de que cai a paixão pelo governo, de que há demandas e insatisfação, de que a inflação e a escassez tencionam tudo, então devemos também ter que ser conseqüentes e concluir que o movimento estudantil, os trabalhadores petroleiros, os professores, são parte da luta pelas transformações de que o país necessita.

A enorme presença de estudantes nas ruas de sete Estados e a radicalidade de seus enfrentamentos são elementos que fazem parte da crise social. Compete-nos, primeiro, concluir que existe uma insatisfação e que ela é justa; segundo, que estes anos de paixão chavista, de capitulação por parte da esquerda, deixaram os estudantes sem uma alternativa de esquerda.

Por isso, nossa principal tarefa é disputar a direção destas mobilizações contra as organizações de direita.

Se analisarmos a esquerda venezuelana, vemos que existem grupos como os ex-trotskistas de Marea Socialista y Clasista que chamam a “cerrar fileiras junto a Chávez e a revolução” e grupos propagandistas que apenas dizem que as mobilizações são dirigidas pela direita e que nada se pode fazer. Desta maneira terminam por capitular a direita por se recusar a disputar a direção, mas também fazem coro ao chavismo, quando dizem que são mobilizações da direita.