Vamos parar o país dia 30 de agosto

    Quando se abriu uma nova situação da luta de classes no Brasil em junho, os governos ficaram na mais completa defensiva. O clamor das grandes passeatas acuou os governos federal, estaduais e municipais. Todos foram obrigados a fazer pequenas concessões, como o recuo no aumento dos transportes. 
    Depois veio o dia 11 de julho, uma das maiores greves já vistas no país. Houve muito questionamento por um setor da vanguarda sobre a presença da CUT e da Força Sindical nessa mobilização. Mas ela foi um passo adiante, com a entrada em cena da classe operária. A CUT não conseguiu evitar que a greve ocorresse, e nem mesmo que tivesse um conteúdo de enfrentamento com parte da política econômica do governo. A Força Sindical, que está saindo da base governista, foi parte da greve, apesar da característica burocrática de sua direção. 
     
    Uma conjuntura distinta
    Um processo da dimensão do brasileiro não tem apenas momentos de grandes mobilizações. Existem também os períodos intermediários, com lutas menores. Vivemos uma conjuntura assim, em que as lutas persistem, embora menores. 
    Nenhum dos problemas sociais do país foi resolvido. Os salários continuam arrochados e o endividamento cada vez maior. Os serviços públicos (transporte, saúde e educação) seguem caóticos. A inflação deu uma parada, em parte pela própria vitória do movimento que congelou o valor das tarifas de transporte. Contudo, essa situação é provisória. Logo a inflação voltará a disparar. 
    Existem muitas mobilizações de importância. No Rio de Janeiro, a luta pelo “Fora Cabral” levou a ocupação da Assembleia Legislativa e da Câmara de Vereadores, com vários atos a cada semana. Em São Paulo, o escândalo da corrupção do metrô reforçou a campanha pelo “Fora Alckmin”. 
    A juventude, agora com a volta às aulas, vai de novo às ruas lutar pelo passe livre em mobilizações convocadas pela ANEL. Em muitas capitais, continuam ocorrendo ocupações de câmaras, como Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém, Campinas, entre outras.
    Apesar da importância, as mobilizações ainda não retomaram a massividade de antes. Mas isso pode ocorrer a qualquer momento, e poderá retomar o ritmo de junho e julho. 
    O governo Dilma, que estava acuado e enfraquecido com as mobilizações, teve uma pequena recuperação nas pesquisas. Mas está longe da popularidade que gozava antes das manifestações. Dilma tenta sair da paralisia com iniciativas como o aumento da taxa de juros (para fortalecer ainda mais os banqueiros) e ampliar as terceirizações (para defender os empresários, precarizado os trabalhadores).
     
    Preparar o dia 30 pela base
    O 30 de agosto, Dia Nacional de Paralisação, marcado pelas centrais sindicais, pode ser o próximo grande passo das mobilizações. Convocado como continuidade da paralisação de 11 de julho, a data poderá ter mais e maiores greves. Pode também abrir uma série de lutas nas campanhas salariais que acontecem neste segundo semestre. O dia 30 de agosto pode ser uma data marcada por uma grande paralisação nacional que faça o movimento de massas retomar a ofensiva de junho. Mas isso não será fácil. 
    Como o Brasil não tem tradição de greve geral, será preciso explicar os objetivos da greve e seu programa para as bases. As principais bandeiras da paralisação são as reivindicações mais sentidas pelos trabalhadores como os 10% do PIB para educação, 10% do orçamento para a saúde, fim dos leilões do petróleo e do fator previdenciário. 
    Por outro lado, não está garantido que as centrais governistas sigam convocando a mobilização até o final. Como são direções sindicais burocráticas, podem ser atraídas por alguma proposta de negociação do governo e suspender a greve. Por isso, é necessário preparar essa greve na base das categorias. Se as centrais governistas recuarem, será possível manter a greve em vários setores.
    Também é fundamental que o movimento sindical prepare o dia 30 junto com o movimento estudantil e popular. As plenárias estaduais, convocadas pela CSP-Conlutas, Feraesp, A CUT Pode Mais, e o setor majoritário da Condsef, devem abranger esses setores. 
    É preciso que os novos organismos surgidos das mobilizações de junho, como o Fórum de Lutas do Rio, a Assembleia Horizontal  (Belo Horizonte), o Bloco de Luta (Porto Alegre), o Mais Pão, Menos Circo (Fortaleza), entre outros, discutam e se incorporem na preparação concreta do dia 30.
    É muito importante que as mulheres, metade da classe trabalhadora, participem desse dia, que saíam às ruas e que se mobilizem por seus direitos. Não podemos admitir que, no governo da primeira mulher presidente, os salários entre homens e mulheres continuem tão diferentes. 
    Por fim, essa iniciativa conjunta deve ser levada aos bairros populares onde podem ser realizadas reuniões que unifiquem trabalhadores e estudantes na preparação da greve.
     
    A outra ameaça ao movimento
    Existe outro perigo para o movimento. As organizações identificadas com o governo vão buscar desviá-lo para que não se choque com Dilma e os governos estaduais e municipais do PT. Já tentaram com a CUT na greve de 11 de julho e não conseguiram.
    O MST promoveu uma Plenária Nacional dos Movimentos Sociais cujo objetivo é ganhar o movimento para a proposta do governo de fazer um plebiscito popular sobre a convocação de uma Constituinte para uma reforma política. Isso é desviar o ascenso das ruas para uma reforma política que não solucionará os problemas sociais do povo (veja p.8). O MST, ao lado da CUT, vai querer dar esse caráter ao dia 30. 
    Algo semelhante tentam em São Paulo. No dia 14, ocorre um ato pelo “Fora Alckmin”. O PT tenta evitar que esse mesmo movimento se choque também com Dilma, ou assuma a luta pelo passe livre e se enfrente com o prefeito Fernando Haddad (PT). Quer também conduzir o movimento a apostar numa CPI para investigar os escândalos do metrô na Assembleia Legislativa, controlada pelo PSDB. 
    Infelizmente, o PSOL, que não é governista, também assumiu a mesma política de desviar as lutas para o parlamento. Por isso, o eixo do PSOL no Rio de Janeiro foi buscar apoio na ocupação da Câmara de Vereadores para um objetivo rebaixado: sua candidatura à presidência da CPI que vai investigar o transporte público. A Câmara, como todos sabem, tem maioria governista e a CPI vai acabar em pizza. 
    Não somos contra as CPIs para investigar a corrupção dos governos. Mas é errado desviar o foco de luta das ruas para a via morta dos parlamentos nesse momento. As CPIs não vão dar em nada, ainda mais com maioria governista nesses parlamentos. Isso pode levar o movimento à derrota.
     
    Plenárias para unificar os ativistas e preparar a greve
    Em Fortaleza foi realizada, no último dia 10, uma grande plenária de preparação da greve. Além da CSP-Conlutas e diversas entidades sindicais filiadas, a ANEL teve boa presença e o Movimento Mais Pão Menos Circo, surgido no calor das mobilizações de junho, também teve uma participação destacada. Participaram ainda os movimentos populares, partidos políticos (PSTU e PCB) e entidades filiadas à CUT e independentes, num total de 38 entidades.
    Todas as entidades vão realizar assembleias nos locais de trabalho para construir a paralisação. Serão encaminhadas reuniões de preparação da greve e uma plenária de avaliação após o dia 30. Ficou ainda decidido que plenárias como a realizada em Fortaleza serão reproduzidas nas regiões do estado. No dia 23 de agosto acontece a plenária de Juazeiro do Norte.
    Em São Paulo, capital, no Centro Transmontano, também no dia 10, ocorreu uma plenária estadual, com boa presença de entidades da capital e do Vale do Paraíba. Participaram sindicatos importantes como os metroviários de São Paulo, metalúrgicos e trabalhadores da alimentação de São José dos Campos, servidores públicos, além de representações de coletivos de arte, DCEs da USP e Unifesp, ANEL, movimentos populares, Movimento Mulheres em Luta e o Quilombo Raça e Classe.
    A plenária serviu também para preparar a intervenção desse bloco no 14 de agosto que, entre outras bandeiras, vai denunciar o escândalo dos desvios de verbas pelo PSDB nas obras do metrô e a repressão do governo Alckmin.
    Também foi feita a distribuição de parte dos 200 mil jornais de divulgação do dia 30 em São Paulo.

    Post author
    Publication Date