Valério Arcary ao Diário Liberdade: ‘Deve haver uma delimitação clara entre a esquerda e o próximo governo’

Valério Arcary
Diário Liberdade

Site da Galiza entrevista dirigente do PSTU sobre o resultado das eleições no BrasilEm Lisboa com Valério Arcary: ‘Deve haver uma delimitação clara entre a esquerda e o próximo governo’

Diário Liberdade – As circunstâncias levaram a que um companheiro galego do Diário Liberdade entrevistasse um destacado dirigente da esquerda revolucionária brasileira na capital de Portugal neste mesmo sábado.

Valério Arcary, reconhecido intelectual brasileiro, docente universitário em São Paulo e historiador especialista no papel das revoluções na História Contemporânea mundial, passou boa parte da sua juventude em Lisboa, onde viveu diretamente a Revolução dos Cravos e os anos que se seguiram ao 25 de abril de 1974.

Conhecedor e apoiante da luta independentista e revolucionária galega, o conhecido dirigente do PSTU do Brasil é colaborador habitual do Diário Liberdade, onde periodicamente publica artigos analíticos sobre a realidade brasileira com uma perspectiva marxista. Nesta ocasião, concedeu-nos uma entrevista na qual analisa os resultados das recentes eleições brasileiras e as perspectivas que se abrem para o Brasil, para a América Latina e também para a Europa, no quadro de uma profunda crise sistémica capitalista.

O lugar do encontro foi a bela Lisboa, aproveitando uma visita de Valério Arcary à Europa. No Jardim do Príncipe Real, perto do Bairro Alto da capital portuguesa, desenvolveu-se a nossa conversa, cujo conteúdo reproduzimos a seguir para as nossas leitoras e os nossos leitores:

Diário Liberdade – Começamos, Valério, por pedir que nos faça uma breve avaliação sobre os resultados do primeiro turno das eleições brasileiras.
Valério Arcary –
A primeira coisa que há que dizer sobre estas eleições é que, seja qual for o resultado do segundo turno, e o mais provável é a vitória de Dilma, pois as pesquisas de hoje (dia 16) já indicam que ela tem uma vantagem em torno de dez milhões de votos em relação a Serra, 54% contra 46%… mas, como digo, seja qual for o resultado, não haverá surpresas nestas eleições: ‘business as usual’, ou seja, está tudo numa grande tranquilidade para os grandes monopólios, para os credores da dívida, para o sistema financeiro… está tudo dominado.

Porém, sim houve uma surpresa no primeiro turno, como foi a votação da Marina Silva, que obteve 20%.

DL – Como se explica o fenômeno Marina Silva?
Valério Arcary –
Ela ocupou um espaço que demonstra a existência de um desgaste no período do governo Lula, que se manifesta através de uma candidata que faz um discurso com uma visibilidade como sendo de esquerda. É um discurso de regulação ambiental, que exige uma modernização do país, que aposta num Estado mais fiscalizador, que estabeleça limites para a ação das empresas. Assim, ela atraiu uma parte do eleitorado urbano jovem descontente com “a grande política”, ou seja, PT e PSDB, o campo do centro-esquerda e centro-direita.

Marina atraiu uma parte desse eleitorado e, na reta final, ela deu um pulo de uma expectativa de 13 ou 14% para 20%, atraindo setores que podemos chamar de subproletariado, de fortes convicções evangélicas, que têm referências culturais inspiradas no pensamento mágico, na religiosidade popular ou “cristianismo de autoajuda”, a partir da diabolização da questão do aborto.

Houve uma despolitização na reta final da campanha, “acusando” a candidata Dilma Rousseff de ser a favor da legalização do aborto. Este é, no Brasil, um tema muito pouco discutido, que nunca foi debatido nos meios de comunicação, nem as posições feministas tiveram acesso à televisão para poderem argumentar a favor da legalização do aborto como uma questão de saúde pública. Isso conseguiu desviar uma parte da votação para Marina Silva.

A oposição burguesa de direita que se apresentou através de Serra teve um triunfo parcial, que foi conseguir o segundo turno. O prestígio do governo e a força da máquina pública durante a campanha sugeriam, duas ou três semanas antes do primeiro turno, que Dilma Rousseff poderia vencer no primeiro turno, como já tinha conseguido a direita nos anos 90.

DL – E os resultados da esquerda revolucionária, como os avalia?
Valério Arcary –
Surgiu uma oposição de esquerda no Brasil, através de um processo de reorganização que se expressa no plano sindical, popular, camponês, feminino, estudantil… e também política. O processo de fortalecimento social está sendo mais acelerado do que o fortalecimento da oposição de esquerda, mas ela existe e em 2006 conseguiu uns 7% através da candidatura de Heloísa Helena.

Ocorre que nestas eleições não foi possível unificar a oposição de esquerda e surgiram quatro candidaturas (PSOL, PSTU, PCB e PCO). A Frente de esquerda atingiu em 2006 um resultado minoritário, mas não marginal. Aquela influência eleitoral de massas era em grande medida dependente da personalidade da candidata Heloísa Helena, que era senadora eleita pelo PT, com mandato de oito anos, o que lhe tinha dado uma presença nacional a partir do senado, que no Brasil é uma verdadeira “Câmara de Horrores”, com escândalos de corrupção uns atrás dos outros.

Heloísa Helena conquistou assim uma visibilidade merecida em aquele ambiente, com um discurso democrático radical.

Porém, a apresentação de Marina provocou um giro na direção do PSOL e em Heloísa Helena, decidindo apoiar essa candidatura, que na verdade, apesar do seu discurso ambientalista, não é um partido verde como são os partidos verdes na Europa. Foi uma candidatura com o apoio de uma fração burguesa: o vice de Marina Silva foi um grande empresário da área dos cosméticos, dono do Grupo Natura. Ele financiou a campanha com alguns milhões de dólares e isso garantiu a Marina uma disputa menos desigual com as candidaturas de Dilma e de Serra.

Por outro lado, há que ter em conta que os meios de comunicação no Brasil são privados e controlados por umas poucas famílias desde há mais de 80 anos, carecendo de qualquer controlo e democratização apesar dos 25 anos passados desde o fim da ditadura. O Grupo Frias na Folha de São Paulo, o Grupo Mesquita no Estado de São Paulo, a família Marinho na TV Globo, o Grupo Sílvio Santos no SBT… é sempre assim e, a escala regional, em cada um dos estados, temos canais de televisão controlados da mesma maneira: a família Sarney (que controla o governo do Estado) no Maranhão, a família Collor (que já foi governador e presidente da República) em Alagoas… e o mesmo acontece na Bahía, no Rio Grande do Sul, no Paraná… pelo país todo afora.

Então, os meios de comunicação decidiram dar corda à candidatura de Marina Silva, o que significou presença diária no principal jornal da TV Globo, com audiência de 70%. Os outros candidatos foram ignorados, a não ser uma entrevista ao Plínio e um debate ao qual o PSOL foi convidado.

A esquerda não se unificou porque o PSOL manteve o apoio a Marina até que o PV de Marina recusou publicamente uma proposta de acordo, optando por uma coalizão no Rio de Janeiro entre o candidato do PV, Fernando Gabeira, ele sim histórico do Partido Verde, diferentemente da Marina, que vem da esqueda católica do Acre no interior do PT, com todos os candidatos da direita contra Sérgio Cabral, presidente estadual pelo PMDB (uma espécie de ‘fraternidade de salafrários’, o partido mais corrupto, formado por oligarcas e caciques regionais).

Isto pode parecer, para um leitor não brasileiro, um manicômio político, mas esta complexa arquitectura gera situações pitorescas como esta: um partido de esquerda socialista querendo apoiar uma candidata que veio da esquerda católica, que é antiabortista, através de um Partido Verde, que na Europa são predominantemente partidos urbanos associados a causas ambientalistas, mas que também defendem medidas de reforma dos códigos civis arcaicos como a legalização do aborto. Porém, Marina Silva é uma arqui-inimiga da pesquisa em células tronco, da legalização do aborto e defende posições abertamente reacionárias no plano dos costumes.

O apoio do PSOL a esse partido obrigou o PSTU a apresentar a pré-candidatura do operário metalúrgico e líder da Conlutas José Maria de Almeida. Levou também o PCB a apresentar a pré-candidatura de Ivan Pinheiro, ex-líder bancário e dirigente histórico do Partido Comunista.

A candidatura de Marina conseguiu ganhar uma parte do voto jovem urbano e parte do voto proletariado industrial contra a direita e também parte do voto do sub-proletariado.

DL – No segundo turno, as candidaturas de esquerda têm posições diferentes: o PCB e o PSOL pedem o voto contra Serra e o PSTU e o PCO chamam ao voto nulo. Que perspectivas se apresentam para uma eventual confluência das forças da esquerda?
Valério Arcary –
Um grande partido de esquerda sem um acordo programático sobre o que significa a luta contra o capitalismo, inevitalvemente será um partido eleitoral. Não vejo porque nós estaríamos imunes às pressões oportunistas que levaram à degeneração do PT, nos convertendo em uma força eleitoral que funcione como esquerda do regime, da qual precisa o sistema democrático-liberal presidencialista que temos no Brasil, e não creio que na Europa seja diferente. O PT, que quando nasceu não era a esquerda do regime, foi se transformando nisso, a esquerda do “sim, senhor”, a esquerda parlamentar, que quando não está no governo declara oposição, mas que deixa o governo governar.

Nós no PSTU não queremos um partido que seja de oposição nas palavras e de apoio à ordem nos atos. Portanto, não acreditamos que seja possível construir um partido comum com o PSOL e com o PCB. O fato de o próprio PCB chamar a votar em Dilma -e lembremos que o PCB chegou a participar no governo Lula no primeiro mandato, durante alguns anos- e o fato de o PSOL liberar o voto contra Serra, admitindo o voto em Dilma, demonstra que, do ponto de vista desses partidos, não há uma clareza estratégica de que o governo Dilma não merece a nossa confiança como o governo Lula não merecia nossa confiança.

Nós somos a favor de construir um bloco para a ação através dos instrumentos de luta que a classe trabalhadora já construiu no Brasil, que são os movimentos sociais e os sindicatos. E mais: estamos engajados para que a experiência da CSP-Conlutas, de unificação com os sindicatos independentes do governo, permita construir uma central sindical superior. A Central Sindical Popular, herdeira da Conlutas, que não foi possível fundar no Congresso de Santos, em junho de 2010, é, em nossa opinião, a prioridade da agenda da esquerda. É no interior dos sindicatos, dos movimentos sociais, dos movimentos da juventude, no movimento estudantil, no movimento de mulheres, que nós temos que agir juntos, apoiados na experiência dos próprios trabalhadores, como agora acontece na greve dos bancários.

No terreno político, deve haver uma delimitação clara com o governo, seja ele qual for o eleito no segundo turno, embora muito provavelmente será o governo Dilma. Nós lamentamos que a Frente de Esquerda não tenha sido construída, evidentemente. A esquerda teve um resultado insatisfatório, menor que 1%. Nós fomos devorados pela pressão do voto útil na classe trabalhadora e do voto em Marina nos setores mais instruídos, que poderiam encontrar na esquerda socialista um ponto de apoio para as suas aspirações democrático-radicais.

DL – Pode haver avanços nessa via na confluência dessa esquerda socialista nos movimentos sociais depois da experiência de Santos?
Valério Arcary –
Nós estamos convencidos de que sim, de que isso é possível chegarmos a um acordo para a unificação, tendo em conta que as lições de Santos são amargas. Todos cometemos erros: uns mais, outros menos, e o balanço pode não ser comum, mas a esquerda tem que olhar para a frente e não para trás. Não deve impor-se condição um acordo sobre o balanço dos erros e acertos no passado.

Diante do governo Dilma, que seguramente vai, no primeiro ano, tomar medidas duras de ajuste no orçamento, de corte nos gastos e políticas públicas, vai ser preciso a esquerda socialista ter a lucidez e a valentia de ser o ponto de apoio e ajudar os trabalhadores a enfrentar seus inimigos.

DL – No plano internacional, há consenso sobre o papel de vanguarda que está jogando a América Latina nas lutas dos povos contra o imperialismo e o capitalismo a nível mundial. Aí o papel do Brasil deverá ser fundamental para o triunfo revolucionário. É possível avançar para a via da revolução brasileira?
Valério Arcary –
Nós pensamos que as ilusões e esperanças no governo Lula e no PT estão sendo desgastadas. O voto no PT já não é mais o que foi no passado. O PT, o Lula e a própria candidatura de Dilma ainda mantém uma enorme influência na classe trabalhadora, mas não há mais a mesma confiança.

Porém, a classe trabalhadora é prudente e cautelosa nas suas escolhas políticas, e preferiu votar em Dilma, confiando na indicação de Lula, com medo do retorno do que foi o governo Fernando Henrique, representado pela candidatura de Serra.

Nós estamos convencidos de que o governo Dilma vai acelerar a experiência, vai ser muito reacionário e o processo de reorganização sindical, que já mostra como muitos trabalhadores querem os revolucionários nos sindicatos, ainda que depois não votem neles nas eleições. Essa confiança sindical que já existe pode evoluir para uma confiança política, na medida que a experiência com o PT e com Dilma for mais rápida.

Pode se abrir um espaço político maior. 1% dá uma ideia falsa do que é a esquerda socialista no Brasil. Foi um resultado dramático, muito ruim, implacável -há que chamar as derrotas pelo seu nome e não diminuí-las nem iludir-nos-. Esta foi a derrota mais importante da esquerda socialista desde o fim da ditadura, mas foi uma derrota eleitoral, não é preciso exagerar.

Há que compreender por que os trabalhadores fizeram voto útil em Dilma, porque é que a juventude urbana fez voto em Marina, e há que, ao mesmo tempo, olhar para a frente com a cabeça erguida. Nossa influência política é maior do que os votos que tivemos, desta vez os trabalhadores não nos entregaram os seus votos, mas nós estamos convencidos que nas próximas lutas encontrarão os militantes do PSTU ao seu lado e caminharemos juntos.

DL – Olhando para o mundo e para a crise do sistema capitalista, acha que vão abrir-se espaços para avanços e mesmo para vitórias revolucionárias que permitam a humanidade caminhar em direção ao socialismo?
Valério Arcary –
Nós, como marxistas, sabemos que, ao contrário do que diz a propaganda dos meios de comunicação, a crise do capitalismo tem flutuações, mas ela ainda não foi superada: não houve uma destruição de capitais suficiente que é a pré-condição para uma nova fase de expansão e de crescimento.

Isso significa que vão tentar destruir mais, como acontece na Grécia, como Sarkozy faz na França ou Zapatero no Estado espanhol e Sócrates em Portugal.

Começaram as reações: assistimos a grandes mobilizações na Grécia, a força da greve geral em França, com a adesão dos estudantes e a ameaça de um novo Maio de 68, e a força da greve geral no Estado espanhol, que foi das mais importantes dos últimos anos. O proletariado europeu colocou-se em movimento.

Ao contrário que outras correntes da esquerda mundial, nos no Brasil sempre tivemos muitas esperanças na classe trabalhadora europeia. Falo da classe operária industrial, do proletariado, dos setores médios com alta escolaridade, mas baixos salários ou estão diretamente no desemprego, falo da juventude precária… a sociedade europeia tem dentro dela forças sociais que podem ser liberadas, com uma enorme combatividade imanente, e isso é vital para o futuro da revolução mundial. Oxalá que o eixo latino-americano-europeu possa se unificar. É disso que se trata: o ataque é mundial e a resposta deve ser mundial. O que agora fazem na Europa é o que já fizeram ou tentam fazer em outras reuniões do mundo, como por exemplo na América Latina.

DL – Como bom conhecedor da realidade da Galiza, acha que as nações oprimidas têm um papel a jogar nessas lutas, no caso do continente europeu e, concretamente, no Estado espanhol?
Valério Arcary –
Sim, eu acho que sim. No caso das nações oprimidas, como é o caso da Galiza, a construção de um bloco operário e popular, ou inclusive operário, democrático e popular, é fundamental para derrotar o capitalismo do Estado espanhol e a própria burguesia galega. A classe trabalhadora deve atrair os setores populares urbanos e no programa da revolução da Galiza, além dos interesses do proletariado, estão os interesses da nação. Esse bloco a que fiz referência será tanto maior quanto os trabalhadores conseguirem atrair a maioria dos setores médios para a defesa das suas reivindicações.

Entrevista publicada em 18 de outubro de 2010, no site www.diarioliberdade.org.