URSS, 19 de agosto de 1991: um golpe de direita, disfarcado com a bandeira vermelha

No dia 19 de agosto se completaram 20 anos do golpe de estado do autodenominado “Comitê Estatal de Emergência” (1) de 1991. Novamente foram lembrados os carros blindados pelas ruas de Moscou, o bale “O lago dos cisnes” em todos os canais (2), as manifestações contra o golpe, as barricadas, o começo da onda de greves, a prisão de Gorbachev. Ieltsin, que viria em breve a conduzir o pais a uma catástrofe total, aparecia então encima de um tanque, dirigindo o movimento contra o golpe. Os comunistas oficiais do PCFR (3) ate hoje repetem que o golpe foi a última tentativa de preservar o “estado socialista”.

Já a versão oficial expressa pelos meios de comunicação segue repetindo sempre a disjuntiva: ou socialismo com tanques nas ruas, O lago dos cisnes pela TV e a proibição de reunião de mais de duas pessoas; ou a catástrofe do Governo Ieltsin. Ha muita confusão em torno do tema, assim como em geral ha muita confusão ao redor de todo o processo de restauração capitalista na ex-URSS. Neste artigo não pretendemos analisar ate os últimos detalhes este tema tão amplo, mas de todo modo tentaremos aclarar a confusão, dando nossa opinião sobre três questões: Foi de fato a tentativa de golpe uma tentativa de defesa do socialismo contra a catástrofe a que Ieltsin conduziu o pais depois? O golpe acelerou a restauração do capitalismo? Havia afinal alguma alternativa a disjuntiva entre a junta militar ou a catástrofe de Ieltsin?

1- Foi o golpe uma tentativa de “defender o socialismo”?
Diz a versão oficial dos meios de comunicação que o golpe foi a linha divisória entre a economia planificada e a economia de mercado, entre o socialismo e o capitalismo. Essa versão é a mais disseminada, ate porque é repetida também pelos stalinistas que apoiaram o golpe. Porem, antes de mais nada, esta versão fecha os olhos a um importante fato da realidade: que em 1991, isto é, ainda antes da desintegração da URSS e da queda do PCUS (4), o capitalismo já havia sido restaurado na URSS, e pelas mãos dos mesmos ministros que depois tomaram parte do tal “Comitê Estatal de Emergência”, pretensos defensores do socialismo. A simples análise dos fatos confirma isto:

Os pilares fundamentais da economia fundada pela Revolução de Outubro eram: a) a economia planificada centralizada (em lugar do mercado); b) o monopólio estatal do comercio exterior (que protegia o pais de ser absorvido pela economia mundial imperialista); e c) a propriedade estatal dos meios de produção. Estas medidas, compreendidas em sua totalidade, deram origem no pais ao que chamamos de estado operário, que se diferenciava qualitativamente dos estados capitalistas (estados burgueses). Estas medidas permitiram um salto colossal no desenvolvimento do país apesar da direção burocrática stalinista, que em fins dos anos 20, deslocou aos trabalhadores do poder, usurpando a direção da URSS.

A burocracia stalinista, aos poucos, foi consumindo as bases do estado operário criado pela Revolução de Outubro, realizando uma serie de recuos em direção ao capitalismo (conferir o texto “como se pavimentou o caminho a restauração capitalista”). Mesmo assim, naquele período, a restauração capitalista não estava colocada ainda na ordem do dia. A economia planificada, o monopólio estatal do comercio exterior e a propriedade estatal dos meios de produção se mantinham. Mas no marco de mais uma crise da economia soviética, finalmente a hora destas chegou, em 1985. Neste ano, Gorbachev tomou a direção da URSS, e com a palavra-de-ordem da Perestroika (5) deu inicio a restauração direta do capitalismo. Sob a clara direção das potencias ocidentais, começou então, clara e consequentemente, o desmonte das bases do estado operário.

Assim, no fim dos anos 80, já estavam presentes na URSS os elementos fundamentais de uma economia de mercado, quais sejam: a) as empresas, apesar de serem ainda estatais, já funcionavam como privadas, com sua produção orientada para o lucro (mercado no lugar do plano), escolhendo livremente seus parceiros comerciais; b) as empresas receberam o direito de negociar livremente com companhias estrangeiras (liquidação do monopólio estatal do comercio exterior); c) foram permitidas todas as formas de propriedade, incluídos os bancos privados; d) se deu inicio a formação de empresas mistas com capital estrangeiro. Tudo isso nos da os elementos necessários para afirmar que o capitalismo na ex-URSS foi restaurado ainda no final dos anos 80’, apesar de que se mantiveram ainda, por um tempo, como “sobrevivências”, o grande papel do estado na economia, e uma serie de conquistas sociais do passado.

Por isso, no enfrentamento entre Ieltsin e o tal “Comitê Estatal de Emergência”, a questão do tipo de economia não estava colocada. Ainda mais que a cabeça do golpe “pela salvação do socialismo”, estavam os próprios ministros do Governo Gorbachev, que com suas próprias mãos restauraram o capitalismo. A versão oficial atual da burguesia, assim como dos stalinistas, tenta nos desenhar um quadro idílico e incoerente, em que os ministros pró-restauracionistas mudaram de ideia e começaram a defender o socialismo. Um quadro muito distante da realidade.

As verdadeiras causas do golpe – Como visto, entre o tal “Comitê Estatal de Emergência” e Ieltsin, não havia polemica alguma sobre o tipo de economia a ser defendido. Se havia alguma diferença entre eles, era exclusivamente sobre a forma da restauração, e sobre quais setores da burocracia e da nova burguesia deveriam conduzi-la, i.e, receber seus dividendos por ela. Mas de qualquer maneira, a causa do golpe tampouco estava nisso.

O fato é que o processo de restauração do capitalismo desde 1986 levou (e não podia ser de outra forma) a uma violenta piora da situação econômico-social no país: prateleiras vazias nos mercados, filas, mercado negro, desemprego, criminalidade.

Como em todos os países da Europa Oriental, na URSS as pessoas começaram a protestar contra as consequências da restauração, e no país houve uma onda revolucionaria de protestos e greves, que desestabilizaram ao Governo restaurador de Gorbachev e junto com ele ao conjunto do projeto de restauração capitalista. Ao final, ante o governo pró-restauracionista se impôs a seguinte questão: como tratar com a grave crise política existente, possível ante-sala de uma revolução? E como frequentemente ocorre em situações de crise, nas alturas do poder se deu uma divisão sobre como responder a esta questão. Uma parte da elite apostou num projeto de esmagar a resistência das massas diretamente pela forca. Exatamente este projeto foi personificado pelo tal “Comitê Estatal de Emergência”, do qual faziam parte o Ministério da Defesa, a KGB, o Ministério do Interior (policia) e outros funcionários das FFAA. Não por acaso, um dos pontos fundamentais do “programa” do tal “Comitê Estatal de Emergência” era o toque de recolher, a proibição das greves, manifestações, passeatas, piquetes e partidos (este ponto os golpistas popularizaram com a palavra-de-ordem de “acabar com a desordem”), assim como… a distribuição a todos os habitantes de terrenos para construírem dachas (6). Em outras palavras, o objetivo do golpe era derrotar a luta das massas, dispersa-la pelas dachas para cultivarem batatas e assim salvar o regime em decomposição. Um golpe de direita disfarçado com a bandeira vermelha – esta foi a essência do golpe de 1991, que gerou tanta confusão.

O golpe acelerou o processo de restauração?
Na URSS as massas puderam derrotar o plano de esmagar a revolução pela forca das armas, desmontar o golpe e derrubar o regime ditatorial do partido comunista pró-restauracionista. Porem, isso não se deu em todos os lugares. Na China, onde o Partido Comunista também havia restaurado o capitalismo (inclusive alguns anos antes), as massas também foram as ruas resistir contra as consequências deste. Mas na China, ao contrario da URSS e Europa Oriental, tudo terminou num banho de sangue contra o povo, causado pela burocracia restauradora e cujo símbolo se tornou a Praça Tianamen. Na China o regime do PC conseguiu impor uma derrota as massas e manter sua ditadura restauracionista. O resultado é que o PC Chinês, disfarçado com a bandeira vermelha e com a retórica socialista, dirige ao mais bárbaro capitalismo do planeta, com os salários mais baixos do mundo, mantidos nesse nível por uma ditadura brutal a serviço das multinacionais ocidentais lá instaladas, para as quais a China se tornou o paraíso para as inversões de capital. Situação análoga a Cuba, onde apesar de que não houve repressão sangrenta as massas, o regime do PC cubano, com os irmãos Castro a cabeça, restaurou o capitalismo, mas manteve o poder. E hoje as áreas fundamentais da economia cubana pertencem a multinacionais, a população vive com 15 dólares por mês e o governo recém aprovou um pacote econômico com duras medidas de arrocho.

O objetivo do golpe na URSS era preservar o regime ditatorial e seguir o mais rápido possível com o projeto de restauração capitalista. Se o tal “Comitê Estatal de Emergência” tivesse vencido, se as massas não tivessem derrubado ao regime dirigente, então na URSS teria acontecido algo parecido ao que ocorreu na China. O governo pró-restauracionista teria continuado com sua tarefa, mas já num quadro de derrota da resistência, i.e., teria podido aprofundar a restauração capitalista e a consequente aceleração da colonização do pais pelas mãos das potencias ocidentais. Derrotando o golpe militar do tal “Comitê Estatal de Emergência”, os trabalhadores da URSS conquistaram uma grande vitoria que, apesar de que não ter podido deter a restauração, pode ao menos derrubar o regime ditatorial do PC pró-restauracionista e garantir uma serie de liberdades democráticas. Por isso, o aprofundamento da restauração capitalista na Rússia veio a chocar-se com muitas dificuldades. Ieltsin foi obrigado a bombardear o parlamento em 1993, levar adiante duas guerras na Chechenia, enfrentar as greves dos anos 90 e a “guerra das estradas” (7) de 1998. E somente sufocando as lutas depois de 1998 (com a inestimável ajuda do PCFR), com a chegada de Putin ao poder e de um longamente esperado crescimento econômico, a elite russa pode conquistar a tranquilidade necessária, limitar as liberdades democráticas e “reabilitar” o aparato repressivo da policia e da FSB , (8) apesar de que num nível incomparavelmente mais baixo do que durante a ditadura do PCUS. Assim, as burguesias russa e mundial conquistaram a “tranquilidade” necessária que permitiu começar a atrair ao país capital estrangeiro a escala chinesa, aprofundando a colonização do país pelas mãos das multinacionais. O PC chinês, que conseguiu ainda em 1989 derrotar a revolução, não teve problemas desta ordem. Por isso, a derrota do golpe dificultou o aprofundamento da restauração, apesar de que não pode detê-la.

Havia outra alternativa ante a disjuntiva entre a junta militar e a catástrofe de Ieltsin?
Ao contrario do que dizem tanto a versão oficial dos meios de comunicação como os defensores stalinistas do golpe, nos afirmamos que sim, que havia outra alternativa. E essa foi mostrada então pelas próprias massas, que ao final dos 80’ tomaram em suas mãos o seu destino, desmontando o golpe militar e derrubando o regime ditatorial do PCUS. Naqueles dias de agosto era necessária a mais ampla unidade de ação para derrotar o golpe militar. E esta se deu. Porem, o problema central girava ao redor da questão da restauração do capitalismo. Ieltsin queria silenciar as massas e continuar com os planos restauracionistas. Por isso, para conquistar mudanças reais a única saída era uma saída operaria, contra Ieltsin e os demais restauradores. O caminho estava na centralização das organizações de massas dos trabalhadores e de sua luta pela tomada do poder político no país, recuperando a economia planificada sob sua direção.

Porém, o processo de resistência contra o golpe foi dirigido por forcas pró-restauracionistas. Numa situação em que boa parte da esquerda apoiava o golpe enquanto a outra parte não sabia o que fazer, a Ieltsin lhe resultou mais do que fácil cavalgar o movimento, manter seu plano restauracionista, privatizar a propriedade estatal e levar o pais a uma quebra e destruição só comparáveis as consequências da 2ª Guerra Mundial. Também lhe foi fácil associar o socialismo com a repressão contra as massas, semeando uma enorme confusão na consciência dos trabalhadores, que segue ate hoje, e conseguindo atrair a simpatia de amplos setores destes ao programa capitalista. As massas conseguiram derrubar o regime e conquistaram liberdades democráticas, nisto reside sua vitoria, mas não conseguiram tomar o poder e deter o processo de restauração, nisto reside sua derrota.

Lições – Para muitos, os acontecimentos do fim dos 80 – começo dos 90 foi um choque inesperado. Porem, ainda nos anos 30’, Trotski, dirigindo a luta contra a degeneração burocrática do Partido Bolchevique e do estado operário, deixou claro qual era a alternativa: ou as massas arrancavam o poder das mãos da burocracia stalinista, ou esta burocracia cedo ou tarde restauraria o capitalismo na URSS. Por afirmar isso e por sua luta contra a burocracia é que Trotski foi assassinado, e seus companheiros de luta enviados por Stalin aos campos de trabalho forcado da Sibéria. Por isso também, todos os trabalhos de Trotski e da Oposição de Esquerda na URSS foram destruídos, para que ninguém pudesse conhecer a verdade. E assim, infelizmente se deu a 2a alternativa: a burocracia stalinista conseguiu, ao final, restaurar o capitalismo na ex-URSS.

Devemos estudar e retirar lições do processo de restauração capitalista. Algumas conclusões nos parecem claras:

Em 1o lugar, a catástrofe capitalista que aflige a Rússia permite melhor que nada avaliar ao próprio capitalismo. A crise atual de fato conduziu o capitalismo e o neoliberalismo a falência ideológica, pois tornou-se obvio que eles não podem oferecer aos trabalhadores nada alem de uma permanente deterioração de sua situação.

Em segundo, o fato de que o capitalismo foi restaurado permite também melhor que nada avaliar o caráter da burocracia soviética, que para manter seus privilégios foi consumindo por longos anos os recursos do estado operário fundado pela Revolução de Outubro, ate destrui-lo ao final. Não pode haver nenhuma expectativa na burocracia.

Em terceiro, a restauração do capitalismo pelas mãos da burocracia, a revolução das massas contra a ditadura pró-restauracionista do PCUS e a chegada ao poder de Ieltsin, desviando a onda revolucionaria, demonstra a todo volume a necessidade de que o poder esteja em mãos dos trabalhadores e a necessidade da ditadura do proletariado, que não podem ser substituídas por nenhum “grande líder”. Hoje, no exemplo da Revolução Árabe nos vemos uma vez mais como se reafirma esta tese: sem a tomada do poder político pelas organizações dos trabalhadores, a revolução não sai do lugar e não ha possibilidade de melhorar a situação.

Em 4o, para que os trabalhadores possam tomar o poder em suas mãos, lhes é necessário construir um partido político “seu”, com um programa que aponte para a tomada do poder, i.e., um partido revolucionário, que não permita a burguesia, a burocracia, aos “lideres carismáticos” e a toda sorte de “salvadores”, desviar os trabalhadores de seus objetivos. E como a realidade nos mostra todos os dias, todos os processos hoje se dão a escala mundial. Assim como a situação em cada pais é de fato um reflexo da situação mundial, assim como a luta de classes tem um caráter internacional, assim como a burguesia do mundo todo tenta coordenar-se para impor seus planos aos trabalhadores de todos os países, então o partido da classe trabalhadora também deve ser mundial, internacional. O stalinismo pagou um alto preço político pela sua traição, deixando de representar a orientação mundial para os trabalhadores e a vanguarda, abrindo assim grandes perspectivas para a possibilidade de construir um partido revolucionário. E esse partido é necessário construir.

1991 e a cegueira da esquerda
A confusão que existe em torno aos acontecimentos de agosto de 1991 é compreensível: localizar-se nesta confusão histórica não é tão fácil. A falsificação stalinista também é compreensível, eles estão obrigados a defender ate o final ao seu regime de ditadura burocrática do PC. Porem, passados 20 anos, a confusão segue existindo inclusive numa serie de organizações que se reivindicam trotskistas.

Assim, o CIO (The Militant), em relação ao golpe, escreve: “a tentativa de contrarrevolucao stalinista acelerou a restauração capitalista”. Vale a pena corrigir-lhes: “a tentativa de contrarrevolucao stalinista teria acelerado a restauração capitalista, se tivesse sido vitoriosa”. Essa seria uma grande verdade, como podemos ver no exemplo da China. Porem, na URSS a contrarevolucao stalinista, isto é, o golpe de 1991, foi derrotado, o que dificultou muito o aprofundamento da restauração.

O CIO também escreve que “o “Comitê Estatal de Emergência” queria defender a economia planificada do rápido ataque dos privatistas. Mas sem democracia desde abaixo, defender a economia planificada era já impossível”. Desta citação do artigo do CIO surge a impressão que o tal “Comitê Estatal de Emergência” defendia uma causa justa, salvar a economia planificada, só que através de métodos equivocados. Esta é a mesma velha historia de que o tal “Comitê Estatal de Emergência” defendia o socialismo. Acima nos ja mostramos como os membros deste comitê não só não defendiam a economia planificada, como em 1991 esta já havia sido destruída por eles mesmos, sendo como eram ministros do Governo Gorbachev.

CIO escreve ainda que “Antes ele (Gorbachev) impulsionou reformas, tentando evitar uma explosão desde abaixo e tentando preservar a inviolabilidade da economia estatal planificada. Afinal foi essa estrutura econômica que, ao longo de décadas, trouxe a sua casta burocrática seus ingressos e privilégios”. Exatamente aqui esta o centro da questão, pois manter estes privilégios de “casta” se tornou impossível sem restaurar o capitalismo. Por isso a Perestroika foi não só uma tentativa de “evitar uma explosão desde abaixo”, mas um projeto dirigido conscientemente a liquidar a economia planificada e conduzir a transição a economia de mercado. O caráter consequente das medidas adotadas então para desmontar cada elemento da economia planificada, assim como as semi-verdades e meias-mentiras do próprio Gorbachev em seu livro “Perestroika, novas ideias para meu pais e o mundo” não deixam lugar a duvidas.

Uma outra tendência, RSD (seção do Secretariado Unificado), num “poético” material intitulado “Esquecer 1991”, prefere esquecer os acontecimentos de 91 a tentar explicá-los. RSD escreve: “e este é um período (agosto de 91), sobre o qual ninguém quer nem pode falar nada de essencial. O momento do nascimento de um pais, que se quer esquecer o mais rápido possível. Para a maioria do povo, apesar de tantos mitos desgastados a este respeito, agosto de 91 sempre será estranho e trágico. Confusa, sentada em frente de seus aparelhos de radio, ela, a infeliz gente soviética, tentava em vão entender alguma coisa, por pouco que fosse, sobre o seu futuro, o qual, como sempre, foi decidido por outros”.

O problema dos “revolucionários” de RSD esta em que, eles se esqueceram de um “detalhe” – que em 1991 houve uma revolução! RSD vê em 1991 apenas “infeliz gente confusa, sentada em frente de seus aparelhos de radio”. Mas se RSD saísse da frente do espelho e desse uma olhada na realidade, então veria como por toda Europa Oriental se davam greves, as pessoas saiam as ruas em manifestações e passeatas, assim como as massas da URSS desmontavam o golpe do 2o aparato militar mais forte do mundo e derrubavam ao regime stalinista responsável pela restauração capitalista, que havia dirigido o pais por mais de 60 anos. Em lugar disso, RSD prefere “esquecer 91” e, como sempre, escapar de responder a tao importantes questões. Pois nos não queremos “esquecer 91”! Nos queremos repeti-lo!

Como o CIO, RSD supõe que os acontecimentos de agosto de 91 aceleraram a restauração do capitalismo: “porem, as conseqüências de agosto se mostraram mais terríveis que as piores fantasias – desemprego, miséria, desesperança, medo”; como se, ao vencer o golpe, as massas não estivessem conquistando uma grande vitoria, e sim apenas destruindo o seu próprio futuro.

A vitoria das massas sobre o golpe militar jamais poderia acelerar a restauração capitalista. Se algo facilitou o trabalho restauracionista de Ieltsin e a consequente propaganda anticomunista, foram as duvidas da maioria da esquerda em que a derrota do golpe militar de 91 tivesse sido uma grande vitoria dos trabalhadores e do conjunto do povo. Numa situação em que a maioria da esquerda ou simpatizava abertamente com o “Comitê Estatal de Emergência” ou disfarcadamente estava solidaria com ele (como se ele defendesse algo de bom, e sua derrota tivesse acelerado a restauracao), a Ieltsin resultou muito fácil tomar a direção das massas em suas mãos. Porque os trabalhadores, ao contrario da maioria da esquerda, não tiveram duvidas em sua vitoria, estando prontos a seguir aquele que defendesse a esta vitoria. E na luta contra o golpe, os trabalhadores encontraram somente a Ieltsin, pois a maioria da esquerda ate hoje não encontrou o seu lugar.

Não perceber uma revolução é um mau costume de muitos “revolucionários”. Assim como RSD não viu e não vê uma revolução na Europa do Leste em fins dos anos 80, hoje tampouco veem a Revolução Líbia.

CIO, que a diferença de RSD, deixa sempre claras suas posições, escreve contra o golpe militar de 91,. Mas, numa inacreditável contradição, considera que seus organizadores defendiam algo de bom. CIO apóia a Revolução Árabe, inclusive a Líbia, mas… só na medida em que esta revolução não comece a golpear os muros de Israel – fortaleza militar do imperialismo na região.

Como se pavimentou o caminho a restauração capitalista?
Com a aparição do stalinismo na URSS com sua teoria-programa de “coexistência pacifica com o imperialismo” e a recusa em levar adiante a revolução mundial, se confirmou o isolamento econômico da URSS. Mas no marco da manutenção do capitalismo mundial, isso significou que a economia soviética, apesar de isolada e contraditória com este, de toda forma era parte do sistema econômico imperialista mundial, o que significa inevitavelmente que era indiretamente subordinada a ele, assim como a parte se subordina ao todo. A URSS era um país de desenvolvimento historicamente atrasado em relação a Europa Ocidental e EUA. O isolamento exigia auto-suficiência econômica, desconectando a URSS das vantagens da divisão mundial do trabalho (ao mesmo tempo que, de todo modo, nunca conquistou uma total auto-suficiência). Sua situação de “corpo estranho” no sistema imperialista exigiu grandes gastos em defesa, que tinha o efeito de uma permanente hemorragia da economia. Já os países imperialistas, por sua vez, continuaram, como aspiradores, a sugar as riquezas dos países atrasados e a fortalecer-se à custa de todo o mundo. Por duas vezes (1918 e 1941) o imperialismo tentou pela via militar destruir o estado operário na URSS, causando uma colossal destruição. Tendo tudo isso em vista, superar economicamente ao imperialismo era tão impossível, quanto ultrapassar ao próprio trem no qual se viaja.

Tal situação levou a que a economia imperialista aos poucos fosse sufocando a economia soviética, levando-a a uma crise da qual só havia duas saídas: ou a liquidação da economia imperialista mundial, ou seja, a continuação do projeto original de Outubro de realizar a Revolução Mundial, ou recuar ante o imperialismo, recorrendo a ele em busca de ajuda. Obviamente, a burocracia governante na URSS, vendo na revolução um perigo aos seus privilégios, cada vez mais recorria ao segundo caminho, de sucessivos recuos ante o imperialismo. Deter o ‘trem imperialista” ameaçava a burocracia stalinista com a perda de seu confortável vagão leito. Por isso ela, mesmo xingando aos “maquinistas”, preferiu chegar a um acordo com eles e continuar sua viagem no “trem”. A burocracia estabeleceu com o imperialismo relações mais estreitas, ampliando o comercio, importando produtos de alta tecnologia (aumentando assim sua dependência tecnológica), logo depois tomando empréstimos, etc. Nas condições de relativo atraso da URSS, estas relações com o imperialismo se deram em condições muito desiguais. Assim foi crescendo a dependência da economia soviética em relação ao imperialismo.

O estreitamento das relações econômicas com o imperialismo levou inevitavelmente a “contaminar” a economia soviética com elementos de capitalismo. Isso fez crescerem as contradições internas da economia soviética, preparando novas crises. Assim como uma aranha começa envolvendo sua vitima com sua teia, depois injeta nela sucos digestivos, dissolvendo o interior de sua vitima e esperando o momento para a sua deglutição final, da mesma maneira o imperialismo “amarrou” a URSS com suas inúmeras ligações econômicas, infiltrando-se no interior de sua economia, e aos poucos, digerindo a este “corpo estranho”. A burocracia stalinista administrou todo esse processo, consumindo os recursos do estado operário fundado pela Revolução de Outubro, para ao final dos anos 80’ finalmente destrui-lo.

A “teoria” stalinista da construção do “socialismo num só pais” foi pensada sob medida apenas para justificar o pacto fechado com o imperialismo. Em troca de sua renuncia a Revolução Mundial e da carta-branca dada ao imperialismo para dirigir o mundo, a burocracia stalinista conquistou o direito de beneficiar-se dos recursos do estado operário e assim garantir seus privilégios, merecendo ao final o direito de se tornar a nova burguesia russa.

O processo de restauração capitalista enterrou de uma vez por todas a esta “teoria” stalinista.

NOTAS
(1) Tambem conhecido como o Bando dos Oito, um grupo de conspiradores da “linha dura” do PCUS que organizaram uma tentativa de golpe de estado na União Soviética contra Mikhail Gorbachev entre 18 e 20 de agosto de 1991. O grupo era composto por pessoas próximas a Gorbachev com cargos importantes dentro do Politburo, do PCUS e da KGB. Nota da traducao.
(2)Durante o golpe, os responsaveis por este tomaram o controle das emissoras de TV e passaram durante todo o dia cenas deste bale, para que ninguem pudesse informar-se sobre o golpe. N do T.
(3)Partido Comunista da Federacao Russa
(4)Partido Comunista da Uniao Sovietica
(5)Reconstrucao, N do T.
(6)Casas de campo russas, onde tradicionalmente uma importante parcela da populacao urbana, no verao, cultiva tuberculos, legumes, verduras e frutas, para completarem sua dieta, insuficiente devido aos baixos salarios. N do T.
(7)Onda de bloqueios de estradas pelos mineiros em luta, onde chegaram a bloquear ate a Transiberiana, maior estrada do mundo. N do T.
(8)Antiga KGB