Uma vitória contra os acordos de Oslo

O movimento islâmico Hamas obteve uma clara vitória nas eleições legislativas nos territórios palestinos: mais de 50% dos votos e 76 cadeiras, contra 30% e 43 legisladores do Al Fatah de Mahmud Abbas, presidente da Administração Nacional Palestina (ANP). Agora tem o direito de nomear um novo governo. As eleições mostraram a profunda crise do Al Fatah, por várias décadas direção indiscutível do povo palestino. É o resultado de um longo processo de abandono e traição de suas históricas bandeiras de luta (uma Palestina unificada laica, democrática e não racista), nos acordos de Oslo, em 1993. Depois, a partir da criação da ANP, sua direção passou a ser a expressão de uma burguesia palestina corrupta, que vive do manejo e da rapina dos fundos que o imperialismo e Israel enviam à ANP, e reprime seus compatriotas que querem lutar contra o Estado sionista.

Os acordos de Oslo foram a resposta imperialista para evitar a destruição do Estado de Israel, derrotado no Líbano em 1985, e incapaz de dominar a Intifada, a partir de 1987. Um governo palestino eleito, com poderes muito limitados (similar aos “bantustões” sul-africanos) assumiu a administração de Gaza e Cisjordânia. O Al Fatah reconheceu o Estado de Israel e deixou de lutar contra ele.

A ANP não tem nenhuma possibilidade de autonomia financeira: seus recursos provêem dos fundos que Israel transfere dos impostos cobrados nos territórios e de ajuda internacional dos EUA, da UE e dos governos árabes, o que explica claramente as posições pró-imperialistas do Al Fatah que, além disso, administra esses fundos com absoluta corrupção.

Ao mesmo tempo, Israel continuou a instalação de colônias judaicas nos territórios palestinos, apropriou-se das melhores terras e fontes de água da Cisjordânia, isolou a zona árabe de Jerusalém e as populações palestinas da Cisjordânia. Essa situação se agravou com a “separação unilateral” e a construção do famoso “muro”, durante o governo israelense de Sharon-Olmert. Nessas condições, qualquer Estado palestino, mesmo “independente”, torna-se inviável geográfica e economicamente, e as condições de vida de seu povo pioram a cada dia: um terço vive na miséria, 50% está desempregado e não havia nenhuma perspectiva de que as coisas melhorassem com o Al Fatah.

O Hamas
A vitória do Hamas expressou um massivo “voto castigo” à traição e à corrupção do Al Fatah. As massas escolheram a “opção mais radicalizada” e o Hamas venceu, inclusive em lugares onde quase não tem inserção. Contribuiu para essa vitória o repúdio aos acordos de Oslo e sua proposta programática de destruir o Estado de Israel e recuperar a “pátria palestina”. Na verdade, houve um apoio a todos os que aparecem como “combatentes contra Israel”: também foram eleitos deputados membros do Al Fatal que estão presos nas prisões israelenses acusados de “terroristas”, como Maruán Barguti.

Fundado em 1987, durante a Primeira Intifada, o Hamas foi alentado pelo clero iraniano, a monarquia saudita e, até, contou com a bênção do então primeiro-ministro israelense Itzak Shamir, para contrapor o peso das organizações laicas e marxistas palestinas. Depois, foi ganhando peso de massas, especialmente em Gaza. Paralelamente, radicalizou suas posições e começou a ser duramente atacado por Israel e passou a ser uma referência para milhares de lutadores palestinos.

É uma corrente com uma direção burguesa e ideologia teocrática: um de seus principais pontos programáticos é estabelecer um Estado islâmico em toda a Palestina. Uma proposta que a LIT-QI considera totalmente equivocada porque divide os palestinos entre aqueles que têm fé muçulmana e quem não têm, em vez de uni-los na luta contra o sionismo. Consideramos que tanto por seu caráter burguês como por sua ideologia, não se pode ter nenhuma confiança de que sua direção seja conseqüente na luta contra o imperialismo e o sionismo. Por exemplo, aceitaram a trégua imposta pelo governo do Al Fatah e Israel.

A política do imperialismo e Israel
A vitória do Hamas representa um duro golpe na continuidade da política dos acordos de Oslo, impulsionada pelo imperialismo e por Israel. Tira de cena o protagonista palestino preferido (Al Fatah) e coloca um inesperado (Hamas) que não reconhece Israel e, ainda por cima, é qualificado como “terrorista”.

Esse golpe se dá quando a situação da Palestina e a doença de Ariel Sharon geraram uma crise política em Israel, pouco antes de suas próprias eleições. Se se soma a isso o curso da guerra no Iraque e o aumento das tensões com o Irã, todos os pilares da política imperialista na região são questionados, com graves problemas.
A política imperialista é pressionar o Hamas com a ameaça de cortar a ajuda financeira que mantém a ANP se seu futuro governo não reconhecer o Estado de Israel e não renunciar à luta armada contra ele. Em outras palavras, se o Hamas não abandonar seu programa. Assim se demonstra o que a “democracia” nos países dominados significa para o imperialismo e Israel: “só respeito os resultados se elegem quem eu quero”. Nesse sentido, reivindicamos o direito do Hamas de formar seu próprio governo, sem nenhum tipo de pressão.

Até agora, a resposta do Hamas foi propor a abertura das negociações com o governo israelense, ampliando de modo indefinido a trégua com Israel acordada pelo Al Fatah, mas sem abandonar formalmente seu programa. Mas o imperialismo e Israel exigem a capitulação completa, buscando assim repetir, ainda que em um prazo de tempo muito mais curto, o que ocorreu com o Al Fatah. Até quando poderão manter essa pressão sem arriscar uma nova explosão palestina? A aposta do Hamas é que, diante dessa possibilidade, o imperialismo e Israel terminem aceitando a negociação.

A direção do Hamas fica, assim, submetida à pressão do imperialismo e dos sionistas, por um lado, e a do povo palestino que votou nele, por outro. Que fará nessas condições? Ainda não temos a resposta, mas alertamos novamente que, por seu caráter burguês e a capitulação parcial que já aceita, não depositamos nenhuma confiança de que seja conseqüente com a luta palestina. Dirigentes do Hamas até já disseram que “os EUA não são o inimigo”.

A única garantia:continuar a luta
Só confiamos plenamente no heróico povo palestino e em sua luta que, seguramente, será fortalecida pela vitória eleitoral contra os traidores e entreguistas. Essa luta será a única capaz de destruir o Estado gendarme e racista de Israel e conquistar as históricas bandeiras da OLP: uma Palestina laica, democrática e não racista e o direito de retorno de todos os emigrados. A LIT-QI dá todo o seu apoio a esse combate.

Secretariado Internacional da LIT-QI
São Paulo, fevereiro de 2006

Post author
Publication Date