Uma transnacional a serviço da recolonização

A Vale hoje é um conglomerado internacional com mais de 100 mil empregados e cerca de 64 empresas, atuando em 20 países nos cinco continentes. A empresa tem concessões para pesquisar e explorar, por tempo ilimitado, o subsolo brasileiro em uma área correspondente aos Estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte. Possui cerca de 9 mil quilômetros de malha ferroviária, oito portos, e é responsável por cerca de 40% da movimentação do comércio exterior brasileiro.

Esta é a primeira grave crise econômica mundial que a Vale enfrentará depois de ser privatizada.

Como empresa privada estrangeira, sua preocupação fundamental é enxugar gastos, demitir trabalhadores e com isso, “exercitar a musculatura” da empresa, para fazer novas aquisições e remunerar bem seus donos estrangeiros.

Tampouco a Vale produz de acordo com um plano de desenvolvimento industrial do Brasil. Ao contrário, trabalha em associação com grandes transnacionais siderúrgicas (Arcelor Mittal, ThyssenKrupp, Nippon Steel etc.), como fornecedora de minério de ferro, se recusando a entrar no ramo siderúrgico com peso. Agora, a mineradora está entrando no ramo do petróleo, para disputar com a Petrobras.

A Vale foi transformada em uma multinacional fornecedora de produtos primários de alta qualidade, utilizando mão-de-obra qualificada e de baixo custo, para garantir o grande salto da China, como fábrica do mundo. Esse é o “novo” papel do Brasil (e da América do Sul) dentro da nova divisão internacional do trabalho. Estamos retornando a uma economia de tipo colonial e a Vale é a expressão mais acabada deste processo.

Quem são os donos da Vale?
A população brasileira, enganada pelo governo Lula e pelos gerentes da Vale, acredita que a mineradora é uma “empresa brasileira”. Nada mais falso. No balanço de 2007, na página 27, a empresa informa que os acionistas estrangeiros detêm 61% do capital da Vale, sendo que 46% de toda a renda da Vale é paga na Bolsa de Nova York.

Destruição do meio ambiente
Segundo a Constituição, as mineradoras devem pagar royalties sobre a venda de minérios, sendo 2% pelo minério de ferro.

As mineradoras estão ganhando rios de dinheiro e retribuem os municípios e Estados uma quantia insignificante, que sequer cobre os gastos com a recomposição do meio ambiente e com a saúde da população – sem falar das mazelas sociais.

Em 2006, as mineradoras faturaram 7 bilhões de dólares só no Pará. Mas pagaram apenas 54,7 milhões de dólares de royalties aos municípios mineradores paraenses. Menos de 1% do faturamento.

Pela reetatização da Vale, sob controle dos trabalhadores
A Vale é uma empresa altamente rentável. Transformou-se em uma das maiores transnacionais. Isso só foi possível pela exploração da classe trabalhadora e do país (veja ao lado).

Em 1998, a estatal foi vendida a preço de banana aos investidores internacionais por 3,38 bilhões de dólares. Mas o valor real da empresa superava 100 bilhões de dólares, se contasse o conjunto das empresas e reservas minerais, que foram subestimadas. Somente em 2003, a Vale apresentou um lucro líquido de R$ 4,509 bilhões, recuperando em um único ano o valor da compra da empresa na privatização.

Desde que foi privatizada, a Vale lucrou R$ 73 bilhões. Este valor, se fosse usado para a população, ao invés de enriquecer um punhado de acionistas, poderia assentar todas as cinco milhões de famílias sem-terra no Brasil, ao custo unitário de R$ 6.200. Esse programa custaria no total R$ 31 bilhões, ou seja, ainda sobrariam R$ 42 bilhões para realizar um plano de reforma agrária, com crédito, infra-estrutura, escolas, hospitais e estradas.

Agentes da recolonização
A privatização da Vale culminou um processo de recolonização do Brasil. Ao mesmo tempo, demonstrou que a burguesia brasileira é incapaz de defender a independência. Ela já se rendeu às grandes empresas transnacionais, que controlam toda a economia brasileira.

A crise econômica vai demonstrar o verdadeiro papel da Vale, da burguesia brasileira e do governo Lula, de subordinação ao imperialismo, e recoloca a luta pela reestatização da empresa em um novo patamar.

Roger Agnelli (gerente e síndico dos interesses dos acionistas norte-americanos), além de presidente da Vale, é amigo de Lula. Participa do Conselho de Administração da Petrobras e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, ligado à Presidência da República.

Somente os trabalhadores têm capacidade de lutar pela soberania do Brasil. A revolução brasileira já tem a reestatização da Vale como uma de suas principais tarefas, para colocá-la sob controle do Estado brasileiro e das organizações da classe trabalhadora.

Post author Nazareno Godeiro, de Belo Horizonte (MG)
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