Uma pergunta que não quer calar

A maioria absoluta das instituições do país, desde os partidos majoritários até as TVs e igrejas, está buscando canalizar as insatisfações acumuladas no ano passado nas eleições. A verdade é que estão conseguindo. Já se impõe hoje nos locais de trabalho, estudo e moradia a discussão sobre as eleições de outubro. Assim as grandes farsas das eleições começam a serem montadas.

O governo Lula, por exemplo, está fazendo de tudo para recompor sua base eleitoral, inclusive tentando aparecer com uma cara nova. A aplicação do mesmo plano econômico neoliberal de FHC agora está sendo maquiada com o disfarce do reajuste do salário mínimo para R$ 350, e a extensão do Bolsa-Família. Assim, o Lula tão festejado pelos banqueiros quer se travestir de “Lula dos pobres”.

Existe, porém, uma farsa ainda maior, se é que isso é possível. Lula vai aparecer como um defensor da “soberania do país”, por ter pagado antecipadamente US$ 15 bilhões ao FMI.

Este será um argumento importante para a disputa da consciência de trabalhadores e jovens. Muitos ativistas honestos nesse momento se perguntarão se não é o caso de apoiar novamente o PT, para “evitar a volta da direita”.

Uma pergunta não quer calar: poderia ser feita a esses ativistas, e, se bem respondida, ajudaria a clarificar a discussão: qual é a opinião de Bush sobre Lula?
Isso tem uma enorme importância, porque se trata inegavelmente do governo mais odiado em todo o mundo, por todos os que lutam contra o imperialismo e a opressão. Aonde quer que Bush vá, em qualquer país do mundo, vai acabar encontrando alguma mobilização contra ele.

Inegavelmente, qualquer pessoa concordaria que Bush é um inimigo de todos os que se disponham a defender a soberania de seus países. Não temos acordo com o governo de Chávez, por aplicar um plano neoliberal em seu país, mas temos que reconhecer que preserva certa soberania da Venezuela em relação a Bush, recusando-se a fazer tudo o que o governo dos EUA quer. Vejam a atitude de Bush em relação a Chávez, e a diferença de sua atitude com Lula.

O governo Lula tem total respaldo de Bush. Tanto é que sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, como John Snow, secretário do Tesouro, estiveram no Brasil durante a crise de 2005, para expressarem o apoio de Bush a Lula. O próprio Bush já falou sobre a importância de Lula para a “estabilidade da América Latina”.
Isso acontece porque Lula não defende em nada a soberania brasileira. Ao contrário, é um fiel aplicador no Brasil de todas as ordens do imperialismo, a começar pelo governo dos EUA. A invasão militar do Haiti é somente a mais evidente submissão do governo petista. Lula consegue ser ouvido em terrenos em que Bush teria dificuldades, e por isso tem um enorme valor para os EUA.

Pagar antecipadamente a dívida com o FMI, não significa uma atitude de soberania como seria deixar de pagar. É como se alguém estivesse se vangloriando por não ter sido roubado, porque antes que o ladrão apontasse uma arma, ele já tinha entregado tudo ao bandido. Assim ele não foi roubado, só entregou seu dinheiro ao bandido.
Lula pagou antes, e não deveria ter pago, uma dívida muitas vezes já paga. Pagou antes, e para isso desviou US$ 15 bilhões dos investimentos em saúde e educação dos brasileiros.

Pagar antes tampouco significa deixar de aceitar todas as imposições do FMI. Ao contrário, o governo impôs um superávit fiscal ainda maior (4,8%) que os 4,25% acertados com o Fundo. Mais uma vez a farsa: o aluno diz todo presunçoso que não precisa da presença do inspetor de disciplina, porque fica duas horas de joelhos em cima do milho e não “só” uma hora, por uma falta que não cometeu.

A farsa da “soberania” defendida por Lula é mais um dos trambiques de que é feita a política no Brasil. Collor venceu as eleições em 89 como o “caçador de marajás”, contra a corrupção. Maluf até hoje afirma que não tem nenhuma conta no exterior. Lula fala em soberania.

Lula e Serra são os dois prováveis candidatos dos blocos políticos majoritários no país. Tanto um como outro são pessoas de confiança de Bush. Apoiar um ou outro significa um respaldo a um futuro governo a serviço do imperialismo no Brasil e na América Latina.

Post author Editorial do jornal Opinião Socialista 247
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