Um outro olhar sobre a Venezuela

O que há por trás do discurso antiimperialista de Hugo ChávezAlguns dias na Venezuela levam todo observador pouco atento a concluir que este país tem um governo revolucionário, antiimperialista e popular. Nas escolas e universidades, é possível ver centenas de militantes anônimos falando em socialismo e revolução, como também fala Chávez.

As viagens a Cuba, o discurso anti-Bush, as citações de frases célebres de Trotsky e Che Guevara, confundem ainda mais a população. Mas, olhando com atenção, vemos que há muito discurso e pouca prática. Desde 1998 no poder, Hugo Chávez não resolveu os profundos indicadores de desigualdades sociais, o desemprego e a pobreza que atingem mais de 60% da população desse país rico em petróleo. E seu antiimperialismo não ultrapassa as brigas constantes com Bush ao mesmo tempo em que faz concessões às transnacionais.

Chávez: governo revolucionário ou burguês?
A serviço de quem está o governo Chávez? A resposta a essa pergunta é fundamental para todos os trabalhadores. Vejamos apenas alguns números. O salário mínimo é de 405 mil bolívares, quando deveria ser de um milhão a um milhão e duzentos mil bolívares, segundo as pesquisas. Portanto, corresponde a um terço das necessidades básicas. Esse salário significou um aumento de 26,07% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o petróleo subiu mais de 140%. Portanto, os lucros do petróleo não chegaram à mesa dos trabalhadores. As indústrias automobilísticas, entre eles a quase falida GM, produzem e vendem mais da metade dos carros sem pagar o IVA (equivalente ao ICMS). Com isso, a General Motors, por exemplo, que produzia 240 veículos por dia, passou a produzir 300.

Chávez: um reformista conseqüente?
Na esquerda latino-americana, muitos dizem que agora há atendimento médico nos bairros, missões educativas e outros serviços. A atenção médica talvez seja o principal cartão de visitas do governo. São mais de 8 mil médicos cubanos, aos quais devemos muito respeito, pois a nome de uma revolução em outro país, eles se sujeitam a viver nos piores bairros das grandes cidades. Mas que tipo de medicina exercem? Exercem a atenção primária, aquilo que estamos acostumados a ver nos postos de saúde no Brasil. A medicina mais especializada, aquela que exige exames, estudos e tratamentos mais complicados, é feita nos hospitais, e estes estão em total abandono desde o governo de Carlos Andrés Perez, em 1989. Para que se tenha uma idéia da gravidade da situação, quatro pacientes morreram no Hospital Los Magallanes em 24 de agosto último por falta de simples tubos de oxigênio! Nesse mesmo dia, funcionários da Maternidade Concepcion Palacios entraram em greve porque não receberam o aumento decretado desde o dia 1º de maio, e denunciaram o alto grau de deterioração das instalações e a falta de medicamentos. A Maternidad de Barcelona suspendeu as cirurgias porque o sistema de ar condicionado, sem manutenção por falta de verba, soltava nuvens de poeira durante as operações. Isso só para citar alguns casos mais conhecidos.

A missão Ribas é uma das encarregadas de satisfazer as demandas educativas nos diversos níveis de educação. Segundo a propaganda oficial, ela atende 783 mil alunos, dos quais 181 mil recebem bolsas de estudo equivalentes a 160 mil bolívares, ou seja, menos da metade do irrisório salário mínimo. Tem 28 mil professores que recebem os mesmos 160 mil bolívares e estão esparramados por 6.170 escolas. Nessas missões, portanto, os professores recebem menos da metade do salário mínimo. Além disto, esses professores não têm direito a férias, décimo terceiro salário ou aposentadoria. E aqueles que se mobilizam contra o governo são chamados de “esquálidos”, nome que se dá aos opositores de Chávez.

Dívida externa
Chávez sempre diz que não vai assinar acordos com o FMI. É verdade. Até agora ele não assinou nenhum acordo com o FMI. E nem é preciso, porque os acordos com o FMI são do tipo “roll on”, que rolam normalmente caso o país devedor pague em dia a dívida externa. O que a Venezuela faz pontualmente.

Para um PIB de US$ 85.834 bilhões em 2003, o governo pagou US$ 7.403 bilhões de juros da dívida, ou seja, entregou 8,63% do PIB. A dívida total ascende, e em 2003 chegou a US$ 39.402 bilhões ou 45,9% do PIB A dívida externa total é de 24.846 bilhões e a interna de 14.556 bilhões ou 28,9 e 17,0% do PIB respectivamente.

A mesma política neoliberal que se aplica em outros países se aplica aqui. Isto é, a diminuição da dívida externa e o aumento da dívida interna. A dívida muda de dono, mas continua sendo dívida.

Chávez e a qualidade de vida
Pobreza e riqueza caminham de mãos dadas na Venezuela. Se vemos carrões importados pelas ruas e avenidas de Caracas, vemos também carros caindo aos pedaços, produzidos nos anos 70, circulando em grande quantidade pelas cidades. Em Puerto La Cruz, onde fica um centro petroleiro, há um bairro chamado “Lecheria” onde a burguesia constrói em um braço de mar suas ilhas artificiais e as transforma em loteamentos para suas mansões. É comum ver madames indo ao supermercado em iates, seus maridos comprando jornais em outros iates e as crianças brincando com seus iates e jet skys. A apenas dois quilômetros ficam os “ranchos”, a forma favelizada de vida da classe trabalhadora.

Neste país, 58% da população vive com até US$ 6,8 por dia. E 23% vive com até 12 dólares por dia. Para reduzir a pobreza, o governo resolveu jogar duro! A partir do primeiro trimestre de 2005 começou a alterar a metodologia nos processos de medição da pobreza e do emprego. Todos os 181 mil bolsistas e os 28 mil professores que ganham menos da metade do salário mínimo agora são considerados trabalhadores empregados. Segundo Elia Eljuri, presidente do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), também serão considerados empregados aqueles que trabalham em pequenas empresas familiares que empregam até 5 pessoas. Quer dizer, o dono do boteco, a sua mulher e os filhos que ajudam agora são considerados trabalhadores empregados! É dessa maneira que o governo Chávez “reduz” o desemprego.

Uma política petroleira pró-imperialista
A partir de 1º de janeiro de 1976, começou a funcionar a estatal petroleira PDVSA. Seu objetivo era nacionalizar o petróleo venezuelano, tirando-o das mãos das transnacionais.
Porém, a partir dos anos 90, as transnacionais começaram a voltar ao país na forma da chamada “abertura petroleira”, política que serviu para entregar campos petroleiros em forma de concessão ao capital estrangeiro. Essa política seguiu durante os anos do governo Chávez e a partir de 2005 deu um salto com a criação das empresas mistas. Metade da PDVSA e metade das transnacionais. Entre essas empresas estão a Chevron-Texaco e a Repsol-YPF.

A criação dessas empresas mistas está iniciando um processo de questionamento ao caráter antiimperialista de Chávez. Há concepções nacionalistas e outras diretamente antiimperialistas. Vai do general do Exército Raul Baduel, passa pelos intelectuais da página www.soberania.org e chega aos setores organizados da população. Ao questionar esta política, acabam questionando o próprio governo.

A Repsol-YPF anunciou no último dia 22 de agosto que: “obteve licença da Venezuela para explorar um novo bloco petroleiro de 500 quilômetros quadrados. A Faixa Petrolifera do Orinoco, no sudeste do país, é a principal reserva de petróleo cru pesado e extra pesado do mundo e será considerada uma das maiores jazidas do planeta”. A nota de imprensa diz ainda que: “Repsol YPF destaca a concessão por tratar-se da única realizada a uma das grandes empresas privadas do mundo”.

Chávez chama a Repsol-YPF de “uma empresa amiga e de um país amigo”. Se é empresa amiga deveríamos perguntar aos presos de Caleta Olivia, na Argentina, a sua opinião sobre esta empresa. E se é um país amigo, deveríamos perguntar ao movimento sindical espanhol sobre a reforma sindical e previdenciária que o governo Zapatero quer fazer.

A outra relação promíscua com o imperialismo se dá com Chevron-Texaco, que também ganhou a sua concessão. “A presença da Chevron-Texaco, empresa americana na Venezuela, é indicativo de que a nossa relação com os EUA é histórica e profunda”. (Discurso de Chávez, 9/3/04). Uma semana antes, na Marcha Nacional Antiimperialista, Chávez mostrou até onde vai seu discurso: “Não temos a menor pretensão de estragar as relações com os EUA, em 5 anos estivemos abastecendo de petróleo de forma segura e constante, todos os 365 dias do ano, os EUA”.

Alí Moshiri, presidente da Chevron-Texaco, disse: “As confusões políticas domésticas não impediram que a Chevron-Texaco expandisse suas relações com a Venezuela. A política está separada dos negócios na Venezuela. As oportunidades são tantas que estamos trabalhando para encontrar e assegurar novos negócios”. (Reuters 18/4/5).

E não é para menos. Desde julho de 1996 a empresa está operando a concessão do Campo de Boscán, de onde se calcula que extraia 115 mil barris diários, a um custo de US$ 1,70 cada, e os venda a mais de US$ 60,00 o barril. Que mais pode querer Chevron- Texaco! Sua ex-executiva Condolezza Rice tinha um navio petroleiro batizado com seu nome. Para não criar problemas, mudaram o nome.