Um nacionalista nas eleições peruanas?

Neste fim de semana, no dia 9, serão realizadas as eleições presidenciais peruanas. Na reta final, a candidatura do tenente-coronel da reserva Ollanta Humala tem ganhado muita força. De acordo com as últimas pesquisas, divulgadas no dia 21 de março, Humala passou a liderar a corrida com 31,6 % das intenções de voto e Lourdes Flores, a candidata ultra-conservadora, tem 29,1 5%. Além de indicar uma virada no cenário eleitoral, esses dados apontam que haverá o segundo turno das eleições.

Humala é visto pela esquerda reformista como um candidato nacionalista, antiimperialista e que, portanto, se encaixaria no mosaico formado pelos governos ditos “de esquerda” na América Latina. De fato, o “fenômeno Humala” reflete uma aspiração dos trabalhadores peruanos por uma opção à esquerda. Aspiração que esta diretamente associada a fatídicas experiências e descontentamentos com anos de governos neoliberais.

Uma análise mais cuidadosa da realidade peruana, porém, mostra que o tenente-coronel guarda muitas diferenças com governos de coalizão entre partidos de esquerda e partidos burgueses (governos de Frente Popular), como o de Lula,no Brasil, ou o de Evo Morales, na Bolívia. Também há diferenças consideráveis entre Humala e o nacionalismo de Hugo Chávez, na Venezuela.

Se esses governos não tardaram em decepcionar os trabalhadores ao darem continuidade aos planos neoliberais, Humala, que não tem o menor compromisso orgânico com qualquer organização popular, tampouco uma origem popular ligada às lutas dos trabalhadores, vai se ajoelhar ainda mais rápido no altar do amo imperialista para rezar à cartilha neoliberal.

A crise do regime
O rápido crescimento eleitoral de Humala é uma expressão distorcida da combinação de dois elementos explosivos no país: uma profunda crise na qual mergulhou o regime político instalado depois da queda de Fujimori somada a uma crescente polarização social.

Nos anos em que esteve no governo, Fujimori decretou uma guerra civil velada, utilizando o pretexto do combate aos grupos guerrilheiros. Assim, reprimiu e assassinou milhares de lideranças sindicais e oposicionistas. Calcula-se que cerca de 70 mil pessoas foram eliminadas nesta guerra suja.

Fujimori tornou o Peru um paraíso para os investidores estrangeiros. Com mão de ferro, aplicou a fundo a cartilha neoliberal, realizando a privatização de todas as empresas estatais e aniquilou direitos trabalhistas. O Estado, na prática, foi reorganizado para preservar e desenvolver os negócios das multinacionais e o controle do imperialismo sobre as riquezas do país.

Mas, em 2000, um levante popular pôs fim à ditadura cívico-militar de Fujimori, que foi obrigado a fugir no país para escapar da fúria popular. Embora as massas tenham posto abaixo o regime, a crise foi canalizada pela via morta das eleições e Alejandro Toledo foi eleito presidente, prometendo mudanças.

O novo regime seguiu apoiado pelo mesmo aparato de Estado corrupto, autoritário e continuou sendo um instrumento das grandes corporações internacionais. Prova máxima de que as instituições do regime repressivo de Fujimori permaneceram intactas foi a manutenção da sua antiga Constituição – base fundamental do atual regime “democrático”.

Toledo traiu as expectativas do povo, aproximou-se de Washington, aprofundou o neoliberalismo e manteve a corrupção e os típicos abusos de poder do governo anterior. No apagar das luzes de seu governo ainda tentou celebrar um Tratado de Livre Comércio com os EUA.

O resultado não poderia ter sido mais desastroso. O presidente termina seu mandato como o chefe de Estado mais impopular da América Latina. A impopularidade é tão grande que analistas avaliam que Toledo não vai conseguir garantir para seu partido nem os 5% de votos mínimos necessários para sobreviver.

Nem mesmo o crescimento econômico neoliberal, tão comemorado pelo governo, consegue ajudar a popularidade de Toledo. Tal como no Brasil, o crescimento econômico está longe de se refletir em melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Apenas um punhado de ricos e as multinacionais aproveitam a bonança da economia.

No rastro da crise da democracia burguesa, a esquerda tradicional não é vista pela população como alternativa, uma vez que “suavizou” suas críticas ao governo (na prática sustentou Toledo) e aos planos neoliberais.

Por outro lado, aumentou no país a polarização social. A diferença de ricos e pobres nunca foi tão grande no Peru. Tal elemento, associado a profunda crise da democracia dos ricos e corruptos torna o Peru uma bomba de tempo que pode explodir a qualquer momento.

E isso já começou a ser demonstrado. No ano passado, por exemplo, um levante armado contra o governo, realizado por setores do exército na cidade andina de Andahuaylas, teve um massivo apoio popular da cidade. O líder da ação foi Atauro Humala, irmão de Ollanta.

O “fenômeno”
Essa condições políticas e sociais criaram o cenário apropriado para a candidatura de Humala. Em 2000, ele ganhou bastante prestígio perante a população depois de comandar um golpe contra Fujimori. Assim constituiu um capital político e encontrou respaldo em amplos setores populares sedentas por uma alternativa que reflita seu descontentamento.

Seu discurso populista e supostamente nacionalista e a aproximação com Chávez lhe agregam, perante os olhos das massas populares, mais elementos a favor de sua candidatura.

A principal adversária de Humala é a direitista Lurdes Flores, considerada a opção mais coerente do imperialismo e da burguesia do país. A vitória de Lurdes
garantiria a aplicação dos planos de recolonização e alinharia o Peru à Colômbia como cabeças-de-ponte da Alca.

Mas isso não significa que, no caso de uma vitória de Ollanta, o imperialismo deixaria de se aproximar ao ex-militar. Ollanta já demonstrou que está aberto ao diálogo com os EUA. Nas suas declarações tenta aparentar um candidato “mais confiável” aos falcões de Washington.

Nem Frente Popular, nem nacionalista
Ollanta é identificado como uma alternativa nacionalista. Em seus discursos, o candidato freqüentemente se refere ao ditador Velasco Alvarado, que governou o país nos anos 1960-70 e estatizou os setores estratégicos da economia. Contudo, para além da retórica, a verdade é que Ollanta está a anos-luz de qualquer nacionalismo que entre em choque com algum interesse real do imperialismo. Em seu programa, não há nenhuma proposta de nacionalização ou revisão das privatizações das empresas, suspensão do pagamento da dívida externa e ruptura com os acordos do FMI. Ele mesmo refuta todo e qualquer enfrentamento com o imperialismo dizendo que “nunca foi de esquerda”, ou afirmando que “seria uma tolice buscar um enfrentamento com os EUA”.

Por outro lado, seria um erro comparar Ollanta com fenômenos como Morales e Lula. Seu partido (o Partido Nacionalista Peruano- PNP), nada tem a ver com o PT ou com MAS boliviano, pois é simplesmente um aparato eleitoral sem relações orgânicas com os trabalhadores. Isto é, o PNP não é fruto das lutas sociais e sua direção não tem uma origem nos trabalhadores e camponeses.

Além disso, há um forte componente autoritário no PNP. Ollanta é a sua máxima figura, possui um controle absoluto sobre a organização, decidindo e impondo sua vontade dentro dela. Tal componente autoritário somado a completa falta de compromissos orgânicos com os trabalhadores permite a Ollanta, no caso de assumir o poder, instituir um governo que se apóie nas Forças Armadas do país e reprima o conjunto dos movimentos sociais. É importante ressaltar que a candidatura do tenente-coronel é apoiada por amplos setores militares. Ollanta ainda é acusado de participar ativamente da guerra suja de Fujimori, eliminando adversários sob o codinome de “comandante Carlos”. Esses componentes autoritários representam um enorme perigo, pois o ex-militar pode se tornar alguém que coloque “ordem” na casa, reprimindo as organizações dos trabalhadores.