Um nacionalista nas eleições peruanas?

A menos de um mês das eleições peruanas, marcadas para 9 de abril, a candidatura do tenente-coronel da reserva Ollanta Humala tem ganhado muito peso no país. De acordo com as últimas pesquisas, a candidata preferida dos empresários e do imperialismo, Lourdes Flores, da coalizão Unidade Nacional, conta com 33% das intenções de votos válidos. Já Humala tem 26% das intenções, o que significa que ele disputará o segundo turno das eleições.

Humala é visto pela esquerda reformista como um candidato nacionalista, antiimperialista e que, portanto, se encaixaria no mosaico formado pelos governos ditos “de esquerda” na América Latina. De fato, o “fenômeno Humala” reflete uma aspiração dos trabalhadores por uma opção à esquerda diante de um profundo descontentamento com anos de governos neoliberais submissos ao imperialismo. Uma análise mais cuidadosa da realidade peruana, contudo, mostra que o tenente-coronel guarda muitas diferenças com governos de Frente Popular, como o de Lula ou o de Evo Morales, na Bolívia, e com o nacionalismo de Chávez, na Venezuela.

Seu rápido crescimento eleitoral é uma expressão distorcida da combinação de dois elementos explosivos no país: uma profunda crise em que mergulhou o regime político instalado depois da queda de Fujimori e uma crescente polarização social.

A crise do regime
Nos anos em que esteve no governo, Fujimori decretou uma guerra civil velada, utilizando o pretexto do combate aos grupos guerrilheiros. Dessa forma, reprimiu e assassinou milhares de lideranças sindicais e oposicionistas. Ativistas peruanos calculam que cerca de 70 mil pessoas foram eliminadas nesta guerra suja.

Seu governo foi um paraíso para os investidores estrangeiros. Com mão de ferro, aplicou a fundo a cartilha neoliberal, realizando a privatização de todas as empresas estatais peruanas e aniquilou os direitos trabalhistas. Dessa maneira, o aparato do Estado foi reorganizado para preservar e desenvolver os negócios das multinacionais e o controle do imperialismo sobre as riquezas do país.

Em 2000, um levante popular pôs fim à ditadura cívico-militar de Alberto Fujimori, que foi obrigado a fugir no país para escapar da fúria popular. Embora as massas tenham posto abaixo o regime, a crise foi canalizada pela via morta das eleições e Alejandro Toledo foi eleito presidente, prometendo mudanças.

Eleito, Toledo traiu as expectativas do povo, aproximou-se de Washington, aprofundou o neoliberalismo e manteve a corrupção e os típicos abusos de poder do governo anterior. Como se isso não bastasse tenta, no apagar das luzes de seu governo, celebrar um Tratado de Livre Comércio com os EUA.

Com o fim da ditadura, as eleições foram retomadas, mas o novo regime seguiu apoiado pelo mesmo aparato de Estado corrupto, autoritário e continuou sendo um instrumento das grandes corporações internacionais. Prova máxima de que as instituições do regime repressivo de Fujimori permaneceram intactas foi a manutenção da sua antiga Constituição – base fundamental do atual regime “democrático”.

O resultado não poderia ser mais desastroso. O presidente termina seu mandato como o chefe de Estado mais impopular da América Latina. A impopularidade é tão grande que analistas avaliam que Toledo não vai conseguir garantir para seu partido nem os 5% de votos mínimos necessários para sobreviver.

Nem mesmo o ciclo de crescimento econômico neoliberal, tão comemorado pelo governo, consegue ajudar a popularidade de Toledo. Tal como no Brasil, o crescimento econômico está longe de se refletir em melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Apenas um punhado de ricos e as multinacionais aproveitam a bonança da economia.

No rastro da crise da democracia burguesa, a esquerda tradicional não é vista pela população como alternativa, uma vez que “suavizou” suas críticas ao governo (na prática sustentou Toledo) e aos planos neoliberais.

Os trabalhadores peruanos vêem com toda a clareza que a democracia dos ricos e corruptos está a serviço da rapina do país. O aumento da polarização social e a profunda crise da democracia burguesa e de seu Estado torna o Peru uma bomba de tempo que pode explodir a qualquer momento. E isso já começou a ser demonstrado. No ano passado, por exemplo, um levante armado contra o governo, realizado por setores do exército na cidade andina de Andahuaylas, teve um massivo apoio popular da cidade. O líder da ação foi Atauro Humala, irmão de Ollanta.

O “fenômeno”
Tais condições políticas e sociais criaram o cenário apropriado para a candidatura de Humala. Em 2000, ele ganhou bastante prestígio perante a população depois de comandar um golpe contra Fujimori. Assim Ollanta constituiu um capital político e encontrou respaldo em amplos setores populares sedentas por uma alternativa que reflita seu descontentamento.

Humala surge como um candidato aventureiro, que mescla um discurso populista e supostamente nacionalista. Sua aproximação com Chávez e a vitória eleitoral de Evo Morales agregam, perante os olhos das massas populares, mais elementos a favor de sua candidatura.

Hoje Ollanta polariza o apoio dos setores populares contra a direitista Lurdes Flores. A vitória da conservadora é a opção mais coerente do imperialismo e da burguesia do país, pois garantiria a aplicação dos planos de recolonização e alinharia o Peru à Colômbia como cabeças-de-ponte da Alca. Isso não significa que, no caso de uma vitória de Ollanta, o imperialismo deixaria de se aproximar ao ex-militar. Ollanta, por sua vez, já demonstrou que isso não será problema e tenta, com suas declarações, parecer cada vez mais confiável aos EUA.

Nem Frente Popular, nem nacionalista
Seria um erro comparar Ollanta com fenômenos como Morales e Lula. Seu partido (o Partido Nacionalista Peruano), nada tem a ver com o PT ou com MAS boliviano, pois não é fruto das lutas sociais e sua direção não tem origem nos trabalhadores e camponeses. O PNP é simplesmente um aparato eleitoral sem relações orgânicas com os trabalhadores. Além disso, há um forte componente autoritário no PNP. Se as Frentes Populares decepcionam por aplicar neoliberalismo, Humala, por seu descompromisso com os trabalhadores terá o caminho mais livre para implementar esses planos. Ollanta é a sua máxima figura, possui um controle absoluto sobre a organização, decidindo e impondo sua vontade dentro dela.

A falta de compromissos orgânicos com os trabalhadores permite a Ollanta, no caso de assumir o poder, instituir um governo que se apóie nas Forças Armadas do país. É importante ressaltar que a candidatura do tenente-coronel é apoiada por amplos setores militares. Ollanta ainda é acusado de participar ativamente da guerra suja de Fujimori, eliminando adversários sob o codinome de “comandante Carlos”. Esses componentes autoritários representam um enorme perigo, pois o ex-militar pode se tornar alguém que coloque “ordem” na casa, reprimindo o conjunto das organizações dos trabalhadores.

Muitos também identificam Ollanta como uma alternativa nacionalista. Em seus discursos, o candidato freqüentemente se refere ao ditador Velasco Alvarado, que governou o país nos anos 50 e estatizou os setores estratégicos da economia. Contudo, para além da retórica, a verdade é que Ollanta está a anos-luz de qualquer nacionalismo que entre em choque com interesses reais do imperialismo. Em seu programa, não há nenhuma proposta de nacionalização ou revisão das privatizações das empresas, suspensão do pagamento da dívida externa e ruptura com os acordos do FMI. Assim, Ollanta tenta ganhar a confiança do imperialismo e das elites dizendo que “nunca foi de esquerda”, ou afirmando que “seria uma tolice buscar um enfrentamento com os EUA”.

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