Um épico sobre Che

Cartaz oficial do filme
Divulgação

Quando indagado por uma jornalista sobre o que é mais importante para um revolucionário, mesmo sob o risco de parecer piegas, Che disse sem hesitar: “Amor. Amor pela humanidade”. Uma resposta inesperada que compõe uma das cenas mais marcantes do filme Che, um Argentino. O diálogo mostra como Guevara se tornou, com inteligência, disciplina e sensibilidade, um dos maiores símbolos da luta revolucionária, da rebeldia e do inconformismo.

Em cartaz desde o dia 27 de março, a vida e a luta do revolucionário são retratadas nas grandes telas numa superprodução dirigida pelo norte-americano Steven Soderbergh (Traffic, Onze Homens e um Segredo).

Soderbergh adota um rigor histórico para contar a história de Che, baseado essencialmente em seus diários e cartas. A opção do diretor (assim como a decisão de fazer um filme em espanhol ao invés de inglês) causou enormes dificuldades de financiamento e produção. Algo que explica por que os realizadores passaram sete anos entre pesquisas e filmagens.

Com a recusa dos investidores norte-americanos em bancar o filme, a produção terminou sendo financiada por franceses e espanhóis e, até mesmo, pelo dinheiro de outros filmes de Soderbergh, como o hollywoodiano Onze Homens e um Segredo.

O resultado foi um épico de quatro horas e meia de duração, que acompanha a vida de Che desde o primeiro encontro com Fidel Castro, em 1956, na Cidade do México, até a morte na Bolívia, em outubro de 1967. Benicio Del Toro encarna Che com maestria. O ator – que também foi um dos produtores do filme – disse que interpretar Guevara foi o papel mais difícil de sua carreira.

Para a exibição ao público, o filme foi dividido em duas partes. A primeira, Che, o Argentino, apresenta o ingresso dele na guerrilha, a mobilização de camponeses e a conquista do poder na ilha com a derrubada do ditador Fulgencio Batista. O segundo filme, Che, a Guerrilha, começa quando o revolucionário parte clandestinamente para a Bolívia para tentar comandar uma revolução no país sul-americano. O segundo filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Nas selvas e na tribuna
Ao contrário de Diários de Motocicleta, filme de Walter Salles que explora os primeiros contatos do jovem Ernesto com a situação de pobreza e miséria na América Latina, o filme de Soderbergh aborda em detalhes a atividade revolucionária de um maduro Che Guevara.

Che foi um combatente corajoso, mas sua figura extraordinária foi apresentada, muitas vezes, como o oposto de tudo o que ele era realmente. Em Che, o Argentino, Steven Soderbergh, felizmente, nos apresenta uma figura bem diferente da caricatura messiânica, como muitas vezes foi convertida a imagem do revolucionário.

Também não faz concessões mercadológicas que costumam arruinar produções do gênero. Ao invés de apresentar apenas emocionantes batalhas resultando na vitória do movimento de 26 de Julho, o filme descreve os anos em que Che trilhava pelas selvas de Cuba. De maneira semidocumental, o filme intercala cenas da guerrilha na selva com a participação de Guevara na 19º Assembleia da ONU, realizada em Nova York em 1964.

Mas é na Sierra Maestra que Guevara deixa de ser apenas o médico que trata dos guerrilheiros feridos em combate para se tornar um soldado e comandante da revolução. Che, o Argentino também mostra como o revolucionário transformou semianalfabetos desarmados em guerrilheiros e ainda encontrava tempo, em meio aos exaustivos combates e terríveis crises de asma, para passar lições de matemática aos seus companheiros.

Cena do filme

O filme também reflete o balanço que o guerrilheiro fazia da própria Revolução Cubana. Em suas memórias, Guevara dava uma importância quase absoluta à luta travada no campo. Por isso, não há no filme uma cena sequer dos combates travados nas cidades, onde a guerrilha urbana desempenhou um papel fundamental na sabotagem ao regime e na articulação do apoio da população à guerrilha.

O contraste com a luta nas selvas é realizado através de impressionantes cenas de Che em Nova York. Gravadas em preto e branco, as cenas exibem um Guevara pouco à vontade e confinado a reuniões diplomáticas na cidade-símbolo do capitalismo ianque.

Che, porém, mostra toda sua desenvoltura e ironia, até mesmo em situações excêntricas. Convidado para uma festa por Laura Bersquist, da revista Look, o guerrilheiro é apresentado ao senador democrata Eugene MacCarthy. Che não perde a oportunidade de agradecê-lo pela invasão de mercenários americanos à Baía dos Porcos. “Vocês fortaleceram a solidariedade em torno da revolução”, cumprimenta ironicamente.

Já as cenas do discurso na ONU mostram o extraordinário duelo de palavras entre Guevara e as delegações dos governos latino-americanos, retratados como sempre foram: submissos às ordens de seus chefes em Washington.

As cenas em Nova York apresentam também um Guevara tão cansado quanto durante a guerrilha. A razão deste cansaço, infelizmente, não é explorada pelo filme. Na época, Che já caminhava para o ocaso cubano. Suas posições políticas já se encontravam completamente derrotadas dentro do Partido Comunista. O guerrilheiro defendia que Cuba apoiasse a revolução latino-americana. Também foi crítico à aproximação de Cuba com Moscou.

Guevara não fez declarações explícitas confortando a linha política oficial seguida por Cuba. Mas não deixou de espezinhar a linha de coexistência pacífica defendida pelo stalinismo e apoiada por Fidel. “Como marxistas, temos sustentado que a coexistência pacífica entre nações não inclui a coexistência entre exploradores e explorados, entre opressores e oprimidos”, disse da tribuna da ONU, justo no momento em que Fidel acenava com a suspensão de seu apoio à revolução continental em troca de uma coexistência pacífica com Washington (Em Che Guevara: a vida em vermelho, livro de Jorge Castañeda).

Num bem-humorado diálogo sobre a necessidade de ser um pouco louco para se fazer a revolução, Fidel, ainda no México, pergunta a Guevara se aceita o desafio de derrubar Batista. Che aceita, mas impõe uma condição: “terminada a revolução em Cuba, quero estendê-la à América Latina”. Fidel responde: “Está bem. Você é mesmo louco”.

Antes de subir na embarção Gramna, em 1956, Che já trilhava o caminho que o levaria a se afastar de Cuba e encontrar a glória e a morte nas selvas bolivianas. Uma trágica história que é contada na segunda parte do filme.

Cena do filme

O preço de um equívoco
Che foi uma figura extraordinária e se tornou um ícone da revolução. Mas a linha guevarista, que dizia que na América Latina a tarefa central era organizar guerras de guerrilha a partir de focos guerrilheiros, provocou uma tragédia nas fileiras da esquerda do continente.

Guevara ignorava o papel da classe operária. O método da guerrilha levou uma vanguarda a se distanciar do trabalho político cotidiano junto aos trabalhadores. Muitos se dirigiram até as selvas e montanhas para organizar o exército guerrilheiro.

Apesar de todo heroísmo, o efeito foi catastrófico para boa parte da esquerda latino-americana, que se viu isolada e massacrada por uma guerra desigual contra os aparatos dos Estados. O próprio Guevara pagou com a vida o preço da equivocada política guerrilheira.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: Che: Part One
Gênero: Drama]
Tempo de Duração: 126min
Ano de Lançamento: 2008 (EUA, França, Espanha)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Peter Buchman, baseado em livro de memórias de Che Guevara
Montagem: Pablo Zumárraga
Produção: Laura Bickford e Benicio Del Toro
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: Steven Soderbergh
Desenho de Produção: Antxón Gómez
Direção de Arte: Laia Colet e Maria Clara Notari
Figurino: Sabine Daigeler
Elenco: Benicio Del Toro (Ernesto Che Guevara), Demián Bichir (Fidel Castro), Julia Ormond (Lisa Howard), Rodrigo Santoro (Raul Castro), Maria Isabel Díaz (Maria Antonia), Ramon Fernandez (Hector), Yul Vazquez (Alejandro Ramirez), Jose Caro (Esteban), Pedro Adorno (Epifanio Díaz), Jsu Garcia (Jorge Sotus), Santiago Cabrera (Camilo Cienfuegos), Roberto Santana (Juan Almeida), Vladimir Cruz (Ramiro Valdés Menéndez), Marisé Alvarez (Vilma Espín), Elvira Mínguez (Celia Sánchez), Andres Munar (Joel Iglesias Leyva), Liddy Paioli Lopez (Quike Escalona), Pedro Telémaco (Eligio Mendoza), Eugenio Monclova (Emilio Cabrera), Luis Gonzaga Hernandez (Lalo Sardiñas), Jose A. Nieves (Dr. Julio Martinez Paez), Catalina Sandino Moreno (Aleida March), Armando Riesco (Benigno Ramirez)

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