Um amigo revolucionário assassinado pela ditadura síria

    O jovem Ali Mustafa, fotógrafo e ativista na revolução síria, foi assassinado enquanto ajudava no resgate de feridos

    Aldo Sauda, de São Paulo (SP)

    Revoluções são momentos particulares. Elas trazem muita alegria, mas também uma quantidade imensa de dor. Talvez porque a violência da contrarrevolução muitas vezes leva os melhores camaradas de nossas fileiras. Os mais dedicados corajosos e comprometidos. São eles, e não os covardes, que caem no front. Nesse dia 9 de março, a revolução mundial perdeu um de seus mais dedicados paladinos, o camarada Ali Mustafa se foi.

    Conheci Ali em meados de 2011, filmando para a imprensa canadense, seu país de origem, uma manifestação nas ruas do Cairo. Era um exímio fotojornalista, mas para ele isto pouco importava. O trabalho de freelancer era apenas uma forma de sobreviver e militar na revolução.

    Ali era, acima de tudo, um grande internacionalista. Quando soube que eu era brasileiro, logo me perguntou se conhecia alguns de seus amigos do PSTU. Em 2008, veio ao Brasil aperfeiçoar seu português, língua nativa de sua mãe, que nascera em Portugal. Assim que chegou a São Paulo, entrou em contato com a Frente de Solidariedade ao Povo Palestino. Participou de reuniões do Movimento Palestina Para Todos (MOPAT), frequentou palestras do movimento estudantil na USP, divertiu-se nas festas juninas da FFLCH. Lá, até a enorme fogueira de São João ele pulou. Ele era assim, um revolucionário de bem com a vida.

    No Brasil, ao lado do MOPAT, comprou a briga contra diversos setores do movimento pró-Palestina que se opunham à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel. Em 2008, poucos apoiavam o boicote ao estado sionista. Ali era um deles.

    Rapidamente nos tornamos grandes amigos. Seu amor pelo Brasil e sua paixão por Cartola facilitavam a amizade. Era a única pessoa com que conversava em português no Cairo. Quando fiquei se ter onde dormir, durante o ápice dos embates de rua no Egito, Ali me recebeu de braços abertos em seu apartamento. Era um quarto e sala na rua Mohamed Mahmoud, localizado entre o Ministério do Interior e a praça Tahrir, epicentro da revolução. Aquele pequeno apartamento, porém, possuía um grande problema. Sua janela, virada para a principal rua dos combates com o exército era constantemente bombardeada de gás lacrimogêneo. Não foram poucas as noites que tivemos que acordar em meio a ataques de gás. Quando o susto passava, éramos tomados por gargalhadas.


    Ativistas retratados pela revista Time no Egito. Ali é o primeiro, da direita para a esquerda. Aldo é o do meio

    Arrisco dizer que Ali esteve em todas as principais barricadas da revolução egípcia. Combinava de forma magistral o jornalismo com a militância, participando de forma entusiasmada dos pequenos coletivos de mídia que surgiam no movimento.

    Assim como todos que militavam no Cairo, Ali foi radicalizado pelo processo revolucionário árabe de conjunto, principalmente pelos massacres que aconteciam na Síria. Quando a revolução Síria ganhou os contornos de uma guerra civil aberta, ele decidiu ir para Alepo. Não nos víamos há pouco mais de um ano.

    No norte da Síria, além de fotografar a revolução, Ali se juntou à defesa civil do comitê local de Hadariyeh, bairro de Alepo controlado pelos revolucionários. Integrava as operações de resgate dos feridos pelos bombardeios de Assad.

    Ali morreu junto com nove outros revolucionários quando realizava de uma operação de resgate. A ditadura Síria lançou dois barris de dinamite, a partir de um helicóptero, sobre a equipe da ambulância. Sua morte dispensa comentários. Também dispensa comentários a brutalidade bárbara e assassina da ditadura que o matou e os setores da esquerda mundial, que com um grau de imbecilidade assustadora, seguem apoiando Bashar Al Assad.

    A eles temos apenas duas palavras: “Não Passarão”.

    A memória, a luta e a história de nosso companheiro não passarão em branco. Sua luta não foi em vão. Viva a revolução Síria! Viva o internacionalismo! Viva a luta da juventude e dos trabalhadores árabes; Ali Mustafa, presente!

    Soraya Mishle e Luis Gustavo, dois camaradas do PSTU que conheceram Ali no Brasil, contribuíram com este artigo.