Um admirável mundo novo?

Estamos testemunhando um extraordinário desenvolvimento das ciências? O anúncio da primeira célula em laboratório e o o lançamento do grande colisor de partículas terão impacto sobre todas as gerações deste séculoUma célula criada em laboratório
No mês passado, um grupo de cientistas anunciou a criação da primeira célula sintética, ou seja, feita completamente em laboratório, com ajuda de computadores. Cientistas disseram que a pesquisa pode ser o primeiro passo para formas de vidas artificiais.

Na verdade, a pesquisa não chegou a criar de fato uma “vida artificial”. Trata-se de um exagero. Mas isso não diminui a importância de um trabalho de 15 anos, feito por dezenas de pesquisadores, chefiados pelo mesmo cientista que, em 2000, mapeou a sequência do DNA.

O código do DNA possui as instruções que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos. Ali estão os genes que determinam as características de cada um e que podem ser herdadas pelos filhos. Daí a origem da brincadeira, quando se diz que “está no DNA de alguém”, referindo-se a uma característica pessoal.

Muitas vezes a ideia é usada para descrever a personalidade de alguém, mas o correto é que o DNA determina características físicas, como cor de cabelo ou dos olhos. E também as doenças que cada pessoa tem mais riscos de desenvolver ao longo da vida.
O que os cientistas montaram em laboratório foi o DNA de uma determinada espécie (uma bactéria conhecida como Mycoplasma mycoides) semelhante ao DNA original, mas contendo pequenas modificações. Depois a inseriram em outra bactéria, de espécie diferente, usada só como um recipiente “oco”, sem DNA. Aí surgiu a grande novidade. Algum tempo depois a célula recipiente começou a funcionar, mas como a bactéria Mycoplasma mycoides. Como o DNA é a unidade básica e define as características de cada ser vivo, o resultado foi que os cientistas transformaram a célula “oca”, sem DNA, em outra espécie.

Como disseram os cientistas, o que foi feito pode ser comparado com a troca de um “software” do sistema operacional, fazendo, em seguida, um computador inoperante voltar a funcionar.

Embora a experiência tenha sido feita em uma simples bactéria e não tenha criado nenhuma “célula artificial”, feita “do zero”, os resultados são um salto na engenharia genética. Até agora, as pesquisas se limitavam à manipulação mais simples, como a introdução de genes específicos em determinadas plantas.

A maior máquina já construída
Outro grande estudo feito nesse momento envolve as experiências no Grande Colisor de Partículas (LHC, na sigla, em inglês). Essa máquina, desenvolvida pelo Centro Europeu de Física Nuclear (Cern), é a maior já construída pela humanidade.

É formada por um túnel circular de 27 km de circunferência, o dobro do tamanho da ponte Rio-Niterói. Ele está a 100 metros debaixo do solo, na fronteira entre França e a Suíça. O LHC, feito com um consórcio de países, é sete vezes maior do que a do seu concorrente norte-americano.

Dentro desse túnel, feixes de prótons, uma partícula menor do que um átomo, viajam em direções opostas. Eles viajam em velocidades próximas a velocidade da luz, ou seja, quase 300 mil quilômetros a cada segundo.

Essa velocidade é enorme. Enquanto você lia a primeira palavra deste texto, os prótons que estão dentro dessa máquina já haviam dado a volta no planeta sete vezes e meia. Diante de algo assim, não há diferenças entre uma tartaruga e um carro de Fórmula 1…

Dentro da máquina, as partículas percorrem o tubo até se chocarem umas contra as outras. Nessas colisões os prótons são quebrados e parte da energia é liberada em matéria. Isto é, a energia do movimento dos prótons é transformada em milhares de outras partículas.

A energia produzida pela máquina, pelo LHC, deverá ser equivalente às existentes a um trilionésimo de segundo após o Big Bang, teoria mais aceita sobre o surgimento do universo.

Num segundo momento, os cientistas irão analisar estas partículas que foram liberadas pelas colisões. Espera-se encontrar partículas mais pesadas, e inclusive um componente chave para comprovar as principais teorias que existem hoje na Física para explicar o funcionamento da natureza.

Há várias questões que os experimentos no LHC poderão ou não responder (veja ao lado). Muitas dúvidas também surgirão. As primeiras respostas (e novas perguntas) ainda vão demorar ao menos uma década, pela quantidade colossal de dados e informações produzidas pela máquina.

Mas não há dúvidas de que os resultados irão determinar o futuro das inovações e vão afetar diretamente todas as gerações de nosso século, do ponto de vista científico, tecnológico, econômico, social e, principalmente, político.

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