Trotsky e a Revolução Espanhola

`ImagemA Revolução Espanhola foi um dos grandes acontecimentos da década de 30 e Trotsky participou amplamente dos debates. Com a queda da monarquia no começo da década, iniciou-se um forte ascenso operário e camponês com greves e ocupações de terra.

Em 1936, a Frente Popular reunindo o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o Partido Comunista, o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) e setores burgueses, venceu as eleições, mas não concedeu terras aos camponeses nem resolveu os problemas da classe operária. O movimento de massas seguiu em ascenso, precipitando a reação da direita em um golpe militar.

A ação dos fascistas comandados por Franco contra a República iniciou a Revolução Espanhola. Os trabalhadores organizados em milícias antifascistas derrotaram a tentativa de golpe em boa parte da Espanha, que dividiu-se em duas zonas: uma controlada pelos fascistas e outra republicana, dando início a guerra civil.
A burguesia e os latifundiários, que apoiaram os golpistas, fugiram das áreas controladas pelos republicanos e as milícias armadas assumiram o controle das fábricas, dos serviços públicos e das terras. O Estado republicano subsistiu de forma extremamente frágil, na verdade o poder real estava nas mãos dos trabalhadores.

A política da Frente Popular foi devolver o poder à burguesia, que participou do governo somente com elementos secundários, “à sombra da burguesia” como dizia Trotsky. O PC, o PSOE e os anarquistas da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) afirmaram que a tarefa da revolução não era a tomada do poder e sim a derrota dos fascistas. Portanto, os trabalhadores que já controlavam as empresas e as terras deveriam devolvê-las.

Trotsky defendeu o oposto. Baseado na experiência da Revolução Russa, afirmou que a vitória na guerra civil seria o resultado da conquista do poder pelo proletariado. E que a política da Frente Popular de deter a revolução, limitando-a à derrota do fascismo, acabaria dando a vitória aos fascistas – o que de fato se verificou em 1939 – pois as massas lutavam contra o fascismo e também por terra, trabalho e uma vida digna.

Contra a política do PC e do PSOE, foi construído na região da Catalunha o POUM. Uma forte organização com implantação na classe operária que chegou a ter mais de 10 mil milicianos armados. O POUM surgiu da fusão entre uma corrente com origem na Oposição de Esquerda, cujo principal dirigente era Andreu Nin, e o Bloco Operário e Camponês.

Nin, ex-dirigente da CNT, esteve na URSS, e foi um dos principais dirigentes da Internacional Sindical Vermelha. Com a ascensão do stalinismo, vinculou-se à Oposição de Esquerda e em 1930 voltou a Barcelona.

Trosky rompeu relações com Nin quando o POUM assinou o programa da Frente Popular, e em nome da unidade, este decidiu entrar no governo, aceitando o cargo de ministro da Justiça do governo catalão.

As conseqüências da entrada no governo surgiram rapidamente. Uma das primeiras decisões deste foi precisamente a dissolução dos comitês populares nascidos das jornadas revolucionárias, instrumentos de duplo poder, e a restauração de um governo burguês, como tinha sido feito no resto da Espanha republicana.

Em 37, a Frente Popular desencadeou uma ofensiva em Barcelona para desarmar os operários, que resistiram bravamente. Mas seus dirigentes, anarquistas e poumistas estavam demasiado vinculados à Frente Popular e aceitaram um cessar-fogo que permitiu ao governo assumir o controle da cidade. Em seguida, o stalinismo tornou ilegal o POUM sob a acusação de colaborar com os fascistas. Nin foi preso e assassinado.

Trotsky escreveu: “O POUM ficou incomparavelmente mais perto da Frente Popular, cuja ala esquerda ele cobria, do que do bolchevismo. Se o POUM caiu vítima de uma repressão sangrenta e dis­simulada, foi porque a Frente Popular não podia realizar sua missão de sufocar a Revolução socialista senão demolindo pedaço por pedaço seu próprio flanco esquerdo.

Apesar de suas intenções, o POUM se achou, no fim das contas, o principal obstáculo no caminho da construção de um partido revolucionário. A Revolução não combina com o centrismo.

A linha de menor resistência patenteia-se, na Revolução, a linha de pior falha. O medo de se isolar da burguesia leva a se isolar das massas. A adaptação aos preconceitos conservadores da aristocracia operária significa a traição aos operários e à Revolução. O excesso de prudência é a imprudência mais funesta. Esta é a principal lição do desmoronamento da organização política mais honesta da Espanha, o POUM, partido centrista”.
(Leon Trotsky, Lições da Espanha: última advertência – Dezembro de 1937).

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