Tropas que irão ao Haiti simulam repressão a protestos

No Rio de Janeiro, grupo de militares imita manifestantes e grita: “O Haiti é nosso“As tropas do 57º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército que vão substituir o atual contingente brasileiro no Haiti começaram seu treinamento no Rio de Janeiro. O treinamento consiste em um conjunto de simulações de enfrentamentos com “saqueadores“ e “incendiários“. O exercício começou no dia 4 de abril, pouco depois das 4 horas da madrugada, quando 90 militares armados com fuzis e pistolas cercaram um supermercado em um bairro da Zona Oeste do Rio, hipoteticamente ameaçado por uma “turba“ de 25 “saqueadores“. Uma outra atividade ocorreu no final da manhã, no bairro de Realengo, com a simulação de um incêndio em um prédio abandonado.

Duas coisas chamam a atenção nas atividades de treinamento. Uma delas é o realismo das cenas, que chegam a assustar os pedestres e provocar ferimentos reais nos soldados que participam. Outra coisa é que quem passasse pelos locais onde estavam sendo feitas as simulações perceberia o que de fato as tropas brasileiras estão fazendo no Haiti. As tropas atuam com violência, já que, na simulação, os haitianos são vistos como terroristas. Além disso, os “perigosos inimigos” a serem combatidos nas simulações gritavam frases reivindicando a independência e autodeterminação do Haiti, como “Fora daqui. O Haiti é nosso“ ou “Saiam do meu país, desgraçados“.

Com o treinamento, é possível ver, portanto, que o que as tropas estão fazendo no Haiti é reprimir rebeldes que reivindicam o fim da ocupação encabeçada pelo Brasil. Significa que, mais do que cometer abusos e violências e acobertar crimes da polícia haitiana, as tropas da missão da ONU, a Minustah, têm um treinamento direcionado para combater qualquer movimento de resistência que surja no país. A julgar pelo treinamento, as denúncias de ações violentas cometidas pelas tropas contra haitianos não são uma exceção, mas uma política deliberada. Isso mostra que nem o próprio exército se preocupa mais em colocar o falso rótulo de “paz” na ocupação do Haiti.