Trabalhadores pagam pela recessão norte-americana

Algo já se tornou rotina nos Estados Unidos, além das medalhas de ouro ganhas pelo nadador Michael Phelps nas Olimpíadas: é o anúncio mensal de aumento da taxa de desemprego feito pelo Departamento do Trabalho. Pelo sétimo mês consecutivo, isto é, desde janeiro deste ano, o desemprego aumenta, atingindo mais 51 mil trabalhadores neste mês, e 463 mil desde o início de 2008.

As estatísticas mostram que a juventude é a mais vulnerável, onde a taxa de desemprego chega a 20,3%, mas mulheres, negros e latinos também são mais penalizados se comparados com os homens brancos. No entanto, a taxa de desemprego de julho para esta última parcela de trabalhadores foi a que mais cresceu, com um declínio entre as mulheres e latinos. Isto mostra que a crise econômica iniciada com o estouro da bolha imobiliária, que atingiu os trabalhadores menos qualificados da construção civil, agora se direciona para os setores industriais mais tradicionais, como o automobilístico, onde a classe operária norte-americana é majoritariamente masculina e branca.

Mas esta taxa é mascarada pelas estatísticas, pois os trabalhadores de tempo parcial e os que fizeram bico ou não procuraram emprego no mês anterior não são considerados desempregados e somam cerca de 7,3 milhões, o que eleva o índice oficial de 5,7% para 10,3%.

A crise das montadoras
O ataque das montadoras de automóveis a seus trabalhadores no Brasil, tentando instituir ou manter o banco de horas e outras formas de flexibilização do trabalho, tem suas raízes nas matrizes norte-americanas. A GM, a Ford e a Chrysler tentam compensar os enormes prejuízos sofridos nos Estados Unidos através da superexploração de seus empregados no Brasil, China e Índia.

A GM anunciou uma perda assustadora de US$1,5 bilhão no terceiro quarto de 2008 (abril, maio e junho) nos EUA. Foi o terceiro pior resultado em cem anos de existência da empresa. A Ford não ficou atrás, com um prejuízo de US$8,7 bilhões no mesmo período. Tais números são o resultado combinado da queda nas vendas – 13% só em julho, com a GM sofrendo queda de 26% e a Ford de 15% -, do pagamento de indenizações trabalhistas devido às demissões e da reestruturação de fábricas e linhas de montagem.

Como disse David Cole, chefe do Centro de Pesquisas Automobilísticas, “as coisas estão bem ruins, e o rio está ficando mais fundo, mais rápido e mais largo. A questão é, eles podem chegar ao outro lado antes de o caixa acabar?”. Mas a estratégia dos patrões para fugir do afogamento é, mais uma vez, subir nas costas dos trabalhadores para poder respirar. As três principais montadoras norte-americanas já cortaram 100 mil vagas desde 2006 e pretendem demitir mais 10 mil operários até o fim do ano.

A recessão é mais lenta e mais profunda
É dessa forma que, para fazer frente à recessão, o imperialismo mais poderoso do planeta eliminou 1,6 milhão de postos de trabalho nos últimos doze meses nos Estados Unidos. Esta atitude não demonstra, ao mesmo tempo, muita fraqueza? Afinal, os EUA sustentam sua economia através de um mercado consumidor gigante, responsável por 70% do PIB norte-americano.

As demissões em massa e a desaceleração drástica do crescimento mostram que as apreensões dos economistas são reais, mas talvez ainda não tenham descoberto toda a profundidade do rio. Isto porque a devolução de impostos às famílias, na ordem de US$100 bilhões, e o aumento das exportações em função da desvalorização brutal do dólar ajudaram a manter um pequeno crescimento de 1,9% no segundo quarto.

Porém, segundo o economista Jan Hatzius da Goldman Sachs, “a melhoria do comércio exterior não parece sustentável. Num ambiente em que a economia global está claramente desacelerando, não será possível manter este crescimento das exportações no futuro”. Tampouco o consumo interno poderá ser mantido numa situação de reajustes salariais menores que a inflação e onde o estímulo de consumo pela devolução de impostos já acabou.

O que parece estar ficando mais claro é que a recessão econômica, um fato já admitido por todos, menos pelo presidente George Bush em ano eleitoral, deverá durar mais tempo que as crises mais recentes, como a de 2001. É o que afirma James Glassman, do Banco JPMorgan Chase. “Nós não vemos um colapso catastrófico no mercado de trabalho, como é comum nas recessões. O que nós estamos vendo é uma hemorragia constante de empregos, e que continuará até que o mercado imobiliário se estabilize e pare de arrastar para baixo o resto da economia”.

Em outras palavras, há uma redução lenta, mas permanente da atividade econômica, sem um horizonte definido para seu término. Também é uma crise incontrolável. O governo Bush já lançou mão de vários mecanismos comuns, como a redução de juros, a abertura de linhas de créditos para as empresas em dificuldades e a devolução de impostos; e outros incomuns para a economia norte-americana, como a salvação de bancos de investimento com dinheiro público, mas nada deu resultado. O que se consegiu, ao contrário, foi o aumento da inflação, a redução do poder de compra da população e a desvalorização do dólar, gerando a fuga do capital estrangeiro aplicado anteriormente nos títulos do governo.

A possibilidade de uma onda longa depressiva
Esta situação tem uma causa imediata: a crise foi iniciada nos próprios Estados Unidos, tornando a recessão mais profunda, mas pode ter, também, uma demonstração de que a economia mundial continua mergulhada numa onda longa recessiva.

As ondas longas da economia são períodos de décadas em que uma tendência ascendente ou descendente é mantida, apesar das crises econômicas periódicas que acontecem em prazos menores. Por exemplo, do pós-guerra até o fim da década de 60 ocorreu uma onda longa ascendente. A partir dos anos 70 a tendência foi invertida e iniciou-se uma fase de crise crônica que perdurou até o fim da década de 80. Acreditava-se que a restauração capitalista dos ex-estados operários daria um novo fôlego à economia imperialista e uma nova onda longa de crescimento teria início.

Mas parece que esta previsão não se confirmou. A resistência das massas trabalhadoras e dos povos de todo o mundo contra o avanço imperialista, principalmente no Iraque, Palestina e na América Latina, mas também a luta da classe operária européia contra a flexibilização do trabalho, impediram que a “nova ordem mundial” fosse consolidada.

Os períodos de onda longa depressiva são conseqüência e fonte de guerras e revoluções. Na década de 70 tivemos a guerra do Vietnam, onde o exército norte-americano foi derrotado pela primeira vez e as revoluções portuguesa, nicaragüense e iraniana, além dos movimentos de libertação nacional africanos.

Da mesma forma, a atual crise econômica pode fazer com que a classe operária norte-americana lute contra seu próprio imperialismo e se junte à resistência das massas de todo o mundo, o que seria decisivo para o avanço do movimento revolucionário e a derrota do imperialismo.