Termina greve da Construção Civil em Belém: uma vitória da peãozada

Forte greve dobrou os patrões e se tornou exemplo de luta
Rui Baiano

Luta dos operários da capital do Pará dobra intransigência dos patrõesBelém, 5:40 da manhã. Piquete de greve da construção civil em frente a uma obra da Quadra Residence. Estamos no 17º dia de greve. Os operários e operárias vão chegando, quase todos de bermuda e sandálias. Estão muito revoltados, pois a patronal não pagou o salário da quinzena.

A Justiça deu ganho de causa ao sindicato e determinou o pagamento dos dias parados. A patronal, porém, decidiu passar por cima do tribunal. Um dos empresários chegou a afirmar que preferia pagar a multa de cem mil reais ao dia que a quinzena aos trabalhadores.

Um dos operários pega um galho de uma árvore e começa a bater na porta da obra, ameaçando invadi-la. O diretor do sindicato convence o jovem a não fazer o que queria. A patronal iria usar isso contra a greve.

O carro de som do sindicato passa e vai levando os piquetes para a manifestação. Hoje (dia 20) vai haver negociação com a juíza do trabalho e o sindicato faz uma concentração em frente ao tribunal. Passamos em frente a prédios luxuosos. Belém tem o quinto metro quadrado mais caro do país. Esses apartamentos custam um, dois, três milhões. Enquanto andam nas ruas, homens e mulheres, negros, negras e pobres, olham os prédios que construíram e que agora só podem ver de longe.

Os serventes aqui ganham R$ 650, pouco mais que um salário mínimo. Um deles fala como deixou a família sem dinheiro para comida, pelo não pagamento da quinzena. As condições de trabalho são péssimas. Doze morreram em acidentes de trabalho, só nesse ano. A bronca cresce.

O sol é forte. Felizmente o tribunal é pertinho. Uma fila se forma logo ao redor da barraca de lanches do sindicato, que oferece suco e pão. Chega um grande carro de som, com Atnágoras, Ailson, diretores do sindicato. Outros conversam com os operários: Zé Gotinha, Abelha, Deusinha. Quase dois mil operários esperam, conversam, gritam. Há um ambiente forte de tensão, pelo cansaço dos 17 dias de greve, pela revolta com o não pagamento.

Cléber é um diretor licenciado do sindicato e candidato a vereador pelo PSTU. O adesivo com seu nome está no peito de boa parte dos operários. Vai de grupo em grupo, falando sobre as negociações com a patronal, sobre a campanha eleitoral. Desde o início da greve, os operários assumiram duas batalhas: dobrar a patronal conseguindo uma vitória, e eleger Cleber. Ele é servente de ferreiro.

Atnágoras começa a falar e os operários se calam. Poucos sabem, mas ele é também um poeta. Faz um discurso emocionado, falando de dor, de raiva e de luta. Conta como a justiça não fez nada para punir os patrões que não pagaram, e agora aceitou o “interdito proibitorium”, proibindo os piquetes do sindicato. Fala de como uma juíza fez uma proposta que era um pequeno avanço, mas os patrões recusaram. Propõe aceitar a proposta da juíza para isolar a patronal. A assembléia aplaude e vota, quase por unanimidade. A comissão entra no tribunal.

Duas longas horas se passam. Oradores se revezam no carro de som, sob o sol forte. Um ativista, mudo, pega o microfone e “fala” com gestos e sons guturais apoiando a greve, para delírio de todos. Os operários conversam em grupos. Sentam nas áreas de sombra da praça. Comem tapioca em pequenas barracas. Conversam ansiosos. Não existe muita expectativa de uma negociação real. A patronal já anunciou que não aceita a proposta da juíza.

De repente, voltam os diretores. Descem acompanhados por uma pequena multidão. Vem alegres, com os braços para cima, sinalizando vitória. A assembléia se recompõe de imediato. Atnágoras volta a falar, anuncia a vitória. A patronal recuou. Os operários conseguiram um reajuste de 9,23% ( a patronal queria dar no início da campanha só 5%), e a quinzena vai ser paga amanhã. Além disso, pela primeira vez, a categoria consegue a qualificação das mulheres, um passo importante para a progressão profissional das operárias.

Os operários se abraçam, alguns choram. Ailson, diretor do sindicato, vai falar e não consegue, emocionado. Os operários aplaudem e esperam até que ele se recompõe. A proposta é explicada mais uma vez. A assembléia vota a proposta por unanimidade.

Cleber fala no final da assembléia. Mostra como não existe nenhum parlamentar apoiando a greve. Chama todos para uma segunda batalha, agora política, nas eleições, para colocar um peão de obra na Câmara dos Vereadores. A assembleía termina em clima de festa.