Taxas de juros ou subordinação ao imperialismo?

É um fato da realidade que a taxa de juros no Brasil é uma das maiores do mundo. Uma família de trabalhadores sabe perfeitamente que quando compra a prazo um eletrodoméstico pagará três ou quatro vezes mais o preço de venda, e isso nos indigna.

Assim, ficamos tentados a pensar que baixando os juros o consumo poderia aumentar e, portanto, haveria mais produção e mais emprego.

Partindo dessa premissa, Heloísa Helena elegeu a redução dos juros como a medida fundamental de seu programa. Em várias declarações e entrevistas, a candidata tem afirmado que a redução das taxas permitiria economizar bilhões do orçamento do Estado que vai direto para os banqueiros, o que é mais do que correto.

A partir desse ponto a taxa de juros toma o caráter quase de medida fundamental do programa de governo, que poderia aumentar os investimentos privados, pois os capitalistas não tenderiam a investir porque os juros são altos, e aumentaria também o consumo das famílias. Ou seja, o “modelo econômico” atual estaria resumido às altas taxas de juros.

Com exceção dos banqueiros, ninguém em sã consciência pode defender as taxas de juros praticadas no Brasil. Estamos a favor de defender sua redução. Mas é esta a razão fundamental que impede o capitalismo brasileiro de garantir alimentação, moradia, saúde e os bens necessários para garantir uma vida material e espiritualmente digna para a maioria da população?

O capitalismo brasileiro está atado de pés e mãos aos interesses das grandes empresas e dos bancos multinacionais. Sem acabar com a sangria de recursos retirados do país na forma de pagamento da dívida externa e interna, remessa de lucros e recursos naturais, não há forma de garantir uma vida digna à população. E a classe dominante mostrou-se incapaz de romper essas amarras.

Taxa de juros e investimento
Umas das cantilenas da FIESP, a toda poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, é a de que os juros altos no Brasil dificultam os investimentos.
São vários os fatores que atuam na movimentação das taxas de juros na economia capitalista. No entanto, essa variação se dá em torno de um eixo determinado. Os juros podem variar por fatores secundários, mas dificilmente se distanciam da taxa média de lucro.

Isso é assim porque quando o capitalista toma um empréstimo para investir, o resultado desse investimento se divide em juros e lucro.

Assim, o resultado do trabalho de milhões de operários se divide em lucro dos capitalistas e juros dos banqueiros, pois os bancos adiantam uma parte do capital para que o capitalista o transforme em mercadoria.

Se compararmos o lucro médio das grandes empresas, veremos que ele não se distancia do lucro dos bancos. No primeiro semestre de 2006 os lucros da Vale do Rio Doce e da Petrobras cresceram 19,5% e 37%, respectivamente. Os lucros do Bradesco e do Itaú aumentaram na mesma proporção – 19,5%. Inclusive os setores de “ponta” da economia, vinculados à exportação de matérias-primas, como o siderúrgico, que teve seus lucros acrescidos em 441%.

Dessa forma, a taxa de juros não esteve distante da taxa de lucro dos setores de ponta da economia. Portanto, se o desenvolvimento capitalista de uma economia é o resultado de um grande investimento em máquinas, novas empresas, etc., não é por causa da taxa de juros que os capitalistas não estão investindo mais, pois os seus lucros não foram afetados.

Ainda mais se levarmos em conta o fato de que nenhuma das grandes empresas investe com a taxa de juros que os trabalhadores pagam no cartão de crédito. Haja vista o dinheiro do BNDES que o governo Lula deu de presente a Volkswagen, e o anúncio de empréstimos do mesmo banco para os setores de siderurgia, mineração e papel e celulose, todos voltados para exportação.

É uma grande mentira afirmar que o baixo investimento deve-se às altas taxas de juros. Elas são na verdade também uma expressão das altas taxas de lucro das grandes empresas.

Taxas de juros e dependência econômica
Não existe uma única taxa de juros no mercado. A taxa de juros que os burgueses têm para investir é uma, e a taxa que o Estado paga para financiar sua dívida é outra.
O governo Lula destinará bilhões para o pagamento de juros da dívida pública. A redução dos juros pode diminuir esta sangria do orçamento aos bancos. Mas resolveria o problema do endividamento do Estado?

Não resolveria, porque a razão última do endividamento está na completa submissão da economia nacional aos interesses das multinacionais.

Uma das mentiras veiculadas por Lula é a de que seu governo equacionou o problema do endividamento externo brasileiro. Na verdade, ele aumentou.

O endividamento externo deve ser considerado como um todo: os investimentos estrangeiros que compraram grandes empresas no país, e agora necessitam de dólares para remeter lucros para suas matrizes; o pagamento da dívida interna aos bancos estrangeiros, que agora necessitam de dólares para exportar os ganhos da extorsão do Estado; além disso, o pagamento dos juros da dívida externa.

Assim, o Estado paga uma taxa alta de juros para atrair capitais estrangeiros, de forma a manter uma reserva alta em moeda forte, para permitir que os lucros gerados no Brasil sejam remetidos ao exterior.

Não é por outra razão que os recordes acumulados na balança comercial no governo Lula foram acompanhados de outro recorde, menos divulgado: o de remessas de lucros das empresas multinacionais.

A necessária redução da taxa de juros não resolve nenhum problema fundamental. As taxas de juros na Argentina são qualitativamente menores que as do Brasil, e nem por isso os trabalhadores deste país puderam desfrutar disso.

É necessário romper as amarras
Não podemos limitar nossa alternativa à armadilha de ser oposição a tal ou qual “modelo econômico”, sem questionar o fundamental: as cadeias que amarram o Brasil à dominação imperialista.

Assim, taxa de juros alta, latifúndio e produção agrícola voltada para a exportação, envio das riquezas do subsolo e destruição das riquezas naturais, superexploração da força de trabalho e baixos salários, endividamento externo e interno, são elos de uma cadeia que nos submete econômica e politicamente.

Este é o verdadeiro “modelo econômico” aplicado por todos os governos e mantido por Lula. A classe dominante, seja vinculada aos grandes latifúndios, às grandes empresas ou aos bancos, obtém os seus lucros associando-se a essa forma de dominação que submete a maioria da população à miséria.

Não encontraremos oposição entre um setor financeiro e um setor produtivo interessado em um “desenvolvimento nacional” que rompa a sangria de recursos.

Não discutimos intenções, senão o balanço de um século de dominação imperialista sobre a face da Terra. Nenhuma nação foi capaz de garantir pão, terra, moradia, educação e saúde para a maioria do povo enviando o fruto de seu trabalho e de suas riquezas naturais para fora do país.
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