Talento ofuscado pelo luto

“Eu morri uma centena de vezes”, diz o verso de Back to Black (De volta ao luto), uma das canções mais famosas de Amy Winehouse. De fato, do alto de seus vinte e poucos anos, a cantora e compositora já tinha vivido algumas vidas.Amy parece ter nascido, por engano, nos anos 1980. Quando ouvimos sua voz, temos a impressão de que ela saiu diretamente do meio de grandes vozes negras do jazz e do blues, como Ella Fitzgerald, Dinah Washington, Nina Simone e Billie Holiday. Na interpretação que faz da música Teach me tonight, de Dinah Washington, fica difícil distinguir sua voz da de Dinah.

Ao mesmo tempo, colocou o cenário musical britânico em destaque novamente. Ela nasceu no bairro de Southgate, norte de Londres, em 1983. Filha de uma família judia, cresceu ouvindo as grandes cantoras junto com ícones consagrados do jazz , como Thelonious Monk, e os cantores Tony Bennett e Frank Sinatra, que inspiraria o nome do primeiro de seus dois discos, Frank (2003).

Aprendeu a tocar guitarra lá pelos 12 anos, com algumas dicas de seu irmão Alex. Quanto a cantar, Amy diz que aprendeu ouvindo, ainda criança. Aos 13 anos, ganhou uma bolsa para estudar na Sylvia Young Theatre School, uma as maiores escolas da Inglaterra.

Num breve ensaio exigido de todos os alunos, Amy escreveu: “tenho o sonho de ser muito famosa. Trabalhar no palco. É uma ambição da vida inteira. Quero que as pessoas ouçam a minha voz e simplesmente… esqueçam seus problemas durante cinco minutos”.

Amy também estudou na Brit Performing Arts & Technology School, umas das mais importantes do mundo. Nessa época, fazia um “bico” cantando na National Youth Jazz Orchestra. Aí, foi descoberta por Simon Fuller, do programa Pop Idols, a versão britânica do “Ídolos” brasileiro. A relação entre eles não foi das melhores. Esse mundo pop não era exatamente o que Amy queria. “Gente de negócios não me causa impressão. Não ficam na minha cabeça”, falou sobre Fuller.

Mistura genial
Amy construiu um estilo próprio. Seu primeiro disco, Frank, lançado apenas no Reino Unido, tinha clara influência de jazz. Porém o disco já misturava o jazz a outros ritmos da música negra ,como funk, soul, hip-hop, rap e blues.

À exceção de duas faixas reinterpretadas, Amy foi co-autora de uma canção e autora de todas as demais. Take the Box foi o hit deste disco, ficando no topo das paradas de sucesso. Na letra, Amy devolve os presentes que ganhara de seu amado, inclusive um disco de Frank Sinatra.

Depois de Frank, Amy sumiu e reapareceu somente em 2006, com Back to Black (2006), o segundo disco, que a colocou definitivamente no mundo das celebridades. O título do álbum – e também de uma das músicas – foi inspirado no fim traumático de um relacionamento.

A música Rehab é a mais conhecida e uma das mais especuladas. A canção gera interpretações ridículas, como “é um pedido de socorro”. Porém nada mais é do que a história da ruptura com sua antiga agência, que queria que ela se tratasse. A música tem um tom de travessura, como se ela tivesse fugido da escola para matar aula.
Amy não havia gostado de Frank. Ela dizia que queria tocar no placo, não ouvir o disco – o que, aliás, nunca fez até o fim. Em Back to Black, resolveu ser mais direta e usar acordes mais simples, diminuindo o tom jazzístico e firmando um estilo ainda mais definido.

As letras de Amy são quase sempre divertidas, por mais que alguns tentem dar uma interpretação depressiva. Ela dizia que escrevia “músicas que pudessem ser cantadas com uma garrafa de uísque”. Relacionamentos eram seu tema favorito, principalmente os seus. Brincava com as próprias decepções e conflitos.
A música de Amy atingiu uma combinação inesperada. Num mundo em que o sucesso é medido em números, ela conseguiu, com sua música nada padronizada, entrar nas paradas de sucesso, ser aprovada pela crítica e cobiçada pela indústria fonográfica.

Contradição ambulante
Amy foi eleita a mulher mais sórdida entre as celebridades numa pesquisa de opinião pública nos Estados Unidos, e acusada de ser a responsável pela “fome na África”, numa reunião das Nações Unidas. Pra lá dos exageros ridículos, ela era uma pessoa extremamente autocrítica e, naturalmente, contraditória.

O fato de ser mulher fez com que Amy fosse cobrada por sua aparência, apesar de seu talento imensurável. Obviamente que por esse motivo era muito mais censurada por seu estilo de vida do que artistas homens, como Noel Gallagher, do Oasis, que protagonizou tantos escândalos quanto ela.

Detonar a cantora vendia muito. Fotos das narinas de Amy brancas de cocaína davam dinheiro, assim como apresentá-la com os seios à mostra. Com o ex-marido Blake Fielder-Civil, protagonizou cenas de casal que não se via desde Nancy Spungen e Sid Vicious, do Sex Pistols.

Em Amy, as críticas lhe renderam uma insegurança reforçada por seu senso crítico sobre si mesma. “Sou muito insegura a respeito da minha aparência. Quero dizer, sou cantora, não modelo. Quanto mais eu sofro, mais eu bebo”, disse.

Aos vinte e sete
Amy morreu aos 27 anos, uma idade maldita para muitos outros gênios da música: Jimi Hendrix, Kurt Cobain e Janis Joplin. Não se sabe ainda as circunstâncias da morte de Amy, mas parece óbvio que, como os outros, sua morte está relacionada ao uso de drogas pesadas e álcool.

Nos últimos anos a aparência de Amy se transformou grotescamente. A autodestruição era perceptível. Amy não conseguia mais terminar seus shows.

Esquecia as letras, caía no palco, era vaiada. No Brasil, em janeiro, fez três shows. Durante o segundo, no Rio, caiu no palco. Até que, em junho de 2011, cancelou sua turnê pela Europa para entrar em tratamento.

No dia 23 de julho de 2011, a morte tirou prematuramente todas suas potencialidades. Em tempos de poucos talentos, não foi uma perda pequena.

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