Tá rindo do que?

Num mundo que é uma “zorra”, o humor decadente e degradante ganha espaçoHá cerca de um mês, a Secretaria de Mulheres do PSTU lançou uma nota intitulada “Abuso sexual não tem graça”, denunciando um quadro do programa “Zorra Total”, da Rede Globo.

A bronca das companheiras tinha motivos mais do que justos. No quadro semanal “Metrô Zorra Total”, duas amigas travam um diálogo dentro do vagão lotado e, em todos os episódios, um sujeito se aproxima, encosta e bolina a mulher de várias formas.
Lamentável e vexatória, mas extremamente “real” (vide a crescente ocorrência de ataques e estupros nos trens e metrôs), a cena, longe de ser utilizada para criticar este tipo abuso sexual, serve sempre, na lógica doentia da Globo, para se fazer “piada”.

No episódio do dia 9 de julho, por exemplo, o quadro mostrou a personagem Janete (Thalite Carauta) sendo “tocada” em suas partes íntimas com a “batuta” de um maestro. Ao invés de se revoltar, a mulher atacada, Janete, cochicha com sua amiga Valéria (Rodrigo Sant’anna), que, ao invés de defendê-la, diz: “aproveita. Tu é muito ruim, babuína. Se joga”.

Deplorável em todo e qualquer sentido, o quadro da “Zorra Total” não é o único ofensivo em relação aos setores oprimidos. Pelo contrário. O humor carregado de preconceitos e perpetuador da opressão é, infelizmente, predominante nos meios de comunicação atuais.

Humor a serviço do preconceito
Há uma crença popular que diz que, bom mesmo, é “rir da própria desgraça ou da desgraça alheia”. Segundo os defensores da tese de que qualquer tipo de humor vale a pena, é isto que justificaria o fato de que piadas sempre se voltem contra os “diferentes”, os “fragilizados” e, particularmente, os setores oprimidos.
Assim, raramente, o “humor” praticado pelos meios de comunicação de massas (e, consequentemente, reproduzido nas ruas), tem como foco homens, brancos, heterossexuais e da classe dominante. Os personagens e situações “risíveis” sempre envolvem mulheres, negros, homossexuais, migrantes e imigrantes, e todos aqueles que fogem do padrão de “normalidade” imposto pelo sistema.

O que muitos esquecem é que, em primeiríssimo lugar, não é (ou deveria ser) nenhuma “desgraça” ter nascido negro, mulher, nordestino, gay, lésbica ou travesti.
“Desgraça”, sim, é ter que suportar, além de toda opressão (muitas vezes convertida em violência) que transformem nossas vidas, sexualidade, raça ou cultura em motivos de gargalhada, sarcasmo e ironia.

Neste sentido, o quadro do “Zorra Total” é praticamente um “clássico”. Contudo, a Globo está longe de estar sozinha nesta história. É raro o canal de TV aberta que não tenha um programa similar ao lixo “global”. E pior: este tipo de coisa só tem aumentado, tendo como principais porta-vozes, na atualidade, os “comediantes” das “stand-up comedies”.

Transformada, em São Paulo, em um dos programas favoritos da classe média, este tipo de “show” é poço sem fundo de preconceitos. Um de seus maiores representantes é Rafinha Bastos, do CQC, que disse em seu Twitter, que as “feias deveriam agradecer ao serem estupradas”.

Para nós, o processo contra o “humorista”, é mais do que bem-vindo. Mas não basta. O mesmo deveria ser aplicado a Globo e a todas emissoras que pautarem seu humor neste tipo de declaração. Afinal, são concessões públicas, e, portanto, deveriam respeitar todos os setores da população.

Não só porque estas piadas são ofensivas, mas, acima de tudo, porque elas contribuem de forma absurda para a “naturalização” e perpetuação de práticas racistas, homofóbicas e machistas.

Qual é a graça?
Evidentemente, há muita gente que não só não concorda com isto, como também vê na nossa posição indícios de censura ou, no mínimo, de um “mal-humor típico das esquerdas”.

Esta foi a linha adotada pela Globo, que utilizou uma de suas funcionárias (a jornalista Patrícia Kogut, do jornal “O Globo”) para, em 17 de agosto, publicar uma nota intitulada “Mal-humoradas”, criticando o texto da Secretaria de Mulheres do PSTU.

Infelizmente, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) disse em seu Twitter que não viu nenhum problema nem misoginia (aversão e desrespeito a mulheres) no quadro do “Zorra”. A declaração reflete uma postura majoritária, mas totalmente equivocada, em relação ao que é o humor e seu papel na sociedade.

O riso libertador versus o humor degradante
A internet já demonstrou seu enorme potencial de mobilização e debate. Mas também vem se transformado em um “zoológico de horrores”, no qual os aspectos mais degradantes do ser humano são expostos para satisfazer o humor doentio de milhões de pessoas.

Doentio, primeiro, porque que arranca riso às custas da infelicidade, das falhas e da perda de controle de gente que se encontra em situações limites.

E este, definitivamente, não deveria ser (e nem sempre foi) o papel do humor. Muito pelo contrário. O verdadeiro “humor popular” sempre deveria ser libertador, nunca opressor.

Esta é a tese, por exemplo, de Mikail Bakhtin, um teórico russo, que viveu nos anos 1930 (e foi vítima do stalinismo), que em uma de suas obras mais conhecidas, “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”, defendeu que, para aqueles que lutam por um mundo igualitário e justo, “o verdadeiro riso” é aquele que se volta contra “os elementos de medo ou intimidação, do didatismo, da ingenuidade e das ilusões”.

Por isso mesmo, este “humor que liberta” tem sempre a capacidade de “quebrar as hierarquias, inverter as posições sociais, já que encara todos como iguais”. Algo que ele identifica no autor citado, Rabelais, que, apesar de encher seus livros de ironia, cenas grotescas e escatológicas e absurdos sem limites, construía seu humor com o propósito de arrancar um riso que, também, servisse para “destruir o quadro oficial da época e dos seus acontecimentos, lançar um olhar novo sobre eles, iluminar a tragédia ou a comédia de época do ponto de vista do coro popular”.

Uma perspectiva que apostava no riso como forma de desmascarar “a mentira oficial, a seriedade limitada, ditadas pelos interesses das classes dominantes”. Algo completamente oposto ao que temos no “Zorra Total”, nas “stand-ups”, e vídeos-cassetadas (sejam da TV ou na internet).

Produzido por uma classe média – geralmente branca, masculina, heterossexual e contaminada pelos preconceitos de seus patrões – o que tem sido chamado de “humor” recentemente é mais um reflexo da ideologia neoliberal que tantos outros estragos já provocou no mundo.

Ao invés de libertador, é um humor que nos aprisiona à lógica do mundo dominante. Ao contrário de engraçadas, são piadas que levam sofrimento e dor para aqueles que são alvos de preconceito. Não há nada de engraçado nesta história. E, por isso, até mesmo para que possamos rir de verdade, é necessário destruir este sistema que só nos ensina a rir daqueles que menos razões têm para fazer piadas sobre suas vidas.

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