Sovietes: tudo começou em 1905


A burguesia tenta nos convencer de que o único sistema econômico possível é o capitalismo, que a única democracia possível é da dos ricos, com congressos corruptos, representantes de empresas imperialistas e nacionais, oligarquias regionais da Igreja, ex-representantes dos trabalhadores que se corromperam. Os sovietes, contudo, foram organizações que mostraram ao mundo que os trabalhadores podem governar. Foram um exemplo de democracia que os trabalhadores nunca haviam vivido, passos fundamentais para a construção da sociedade socialista.

A burocratização da União Soviética, o primeiro estado operário da história, e toda a mentira inventada por Stálin, pela burguesia e por seus comparsas sobre a revolução não pôde apagar essa experiência histórica que assustou a classe dominante e encantou milhões de oprimidos no mundo. Hoje, com a nova situação da luta de classes que se abre no mundo, em particular na América Latina, é indispensável para aqueles que querem lutam por uma sociedade socialista tirar todas as conclusões do processo soviético do início do século XX, como fizeram os revolucionários de 1917 com a experiência francesa da Comuna de Paris.

Tentaremos, nessa matéria, contribuir de forma resumida para entender como surgiu e o papel que cumpriram os sovietes no ano de 1905.

O começo
Em janeiro de 1905, uma manifestação pacífica, com cerca de 200 mil pessoas, dirigiu-se ao palácio do governo. O ato foi organizado pela Associação dos Operários Russos das Fábricas de São Petersburgo, tendo à frente um padre ortodoxo e infiltrado da Oklama, a polícia secreta do czar. Eles entregariam ao czar Nicolau II uma petição assinada por 135 mil pessoas que reivindicava uma assembléia constituinte, jornada de oito horas, salários justos, reforma agrária, separação da Igreja do Estado, anistia e liberdade política.

O czar mandou reprimir a manifestação, matando centenas de pessoas e ferindo milhares. A repressão criou um sentimento de indignação geral entre a população, que passou a chamar o czar de “O Sanguinário”. No dia seguinte, houve levantamento de barricadas em São Petersburgo e um movimento grevista que chegou a ter, ainda em janeiro, mais de 400 mil trabalhadores. Durante dois meses, milhares de trabalhadores entraram em greve por solidariedade ou por revolta.

Em fevereiro, o Czar para tentar deter o movimento grevista, prometendo reformas e uma constituição. No entanto, essa manobra não conseguiu deter o movimento e as mobilizações no campo por reforma agrária, embora esse movimento também não tenha conseguido envolver a maioria da classe.

Em junho, os marinheiros do maior navio de guerra da esquadra do imperador russo, o Encouraçado Potenkim, na cidade de Odessa, se rebelou e se negou a reprimir grevistas. Apesar de a rebelião ter sido sufocada, ela foi um marco que serviu para aprofundar a luta pela derrubada do czarismo.

Em outubro de 1905, os tipógrafos entram em greve por redução da jornada de trabalho e por melhores salários. Essa greve difundiu-se para outras fábricas e, depois, de São Petersburgo para outras províncias. Combinadas com essas reivindicações, estavam as liberdades constitucionais. Com o desenrolar da greve, que se transformou em geral, foi criado o primeiro “conselho”: soviete, em russo. O núcleo inicial foi constituído por grevistas de cinqüenta oficinas tipográficas que elegeram delegados e lhes deram instruções para formar um conselho. A eles, juntaram-se logo delegados de outras fábricas.

A primeira reunião do soviete aconteceu no dia 13 de outubro e participaram apenas os delegados do distrito do Neva, que rapidamente se transformou no principal foco da revolução. Os exilados que voltaram da Europa Ocidental acompanhavam com espanto e emoção o papel daquele organismo criado pelos trabalhadores. Num país onde vigorava uma ditadura czarista, os sovietes foram o primeiro órgão eletivo que representava a classe trabalhadora com uma ampla representação democrática.

A duração do soviete de 1905 foi de apenas 50 dias, pois foi dissolvido pelas tropas czaristas. Mas foi essa experiência de organização e seu papel no processo revolucionário que deu origem à construção de um outro poder, alternativo ao da burguesia e da aristocracia. Junto ao papel determinante desempenhado pelo Partido Bolchevique, esse organismo veio a tomar o poder 12 anos depois.

Como disse Trotsky em 1906, que foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado, no seu artigo O conselho de deputados operários e a revolução, “o conselho organizava cerca de 200 mil operários. Todas as fábricas tinham seu centro organizador: o corpo de deputados de fábrica. Todos os bairros a sua assembléia de deputados de distrito. E, finalmente, o conjunto do proletariado de Petersburgo tinha o seu conselho. Tratava-se de una vasta organização livre, influente e dotada de iniciativa. Dedicou-se, simultaneamente, a uma intensa atividade para fundar sindicatos, que aspiravam vivamente a unir-se. Dispunham de um órgão coordenador: o bureau central dos sindicatos. A partir da delegação das diversas empresas, o conselho assumia a representação das organizações de ramo. Em seu último período de existência, estavam representados dezesseis sindicatos”.

O instrumento principal do conselho foi a greve política de massas. A classe que dia após dia faz funcionar a produção e, ao mesmo tempo, a maquinaria do poder; a classe que, deixando de trabalhar em bloco, não só paralisa a indústria senão todo o aparelho estatal. O conselho de deputados operários proclamou a liberdade de imprensa. Organizou patrulhas de rua para garantir a segurança das pessoas, dominava quase por completo o correio, o telégrafo os trens. Tentou instaurar a jornada de oito horas com caráter obrigatório. Paralisando mediante a greve o estado absolutista, introduziu sua própria ordem democrática na vida da classe trabalhadora da cidade.

Essa intensa movimentação na cidade não correspondeu na mesma proporção no campo. Em apenas 1/15 das terras, houve processo intenso por reforma agrária. Por outro lado, a duração pequena do soviete pegou as organizações revolucionárias de surpresa. Os próprios bolcheviques, que tiveram um papel decisivo em 1917, demoraram a assimilar o papel dos mesmos. Trotsky foi, com certeza, o principal líder revolucionário de 1917 que teve papel fundamental em 1905.

A experiência de 1905 resolvia debates fundamentais entre os revolucionários da época: a necessidade de um governo operário em aliança com os camponeses; o papel de liderança da classe operária; o papel vergonhoso da burguesia nacional ante a aristocracia e sua incapacidade de cumprir as tarefas democráticas da revolução que, diante do ascenso operário e de sua dependência da burguesia imperialista, preferiu buscar um acordo com o czarismo ou ser sua conselheira.

Em 1905, os limites do processo – a não-formação de uma organização nacional dos sovietes, pouca participação do campo, as limitações das organizações revolucionárias, etc. – não impediram que se apontasse o que estava por vir. Os revolucionários da época, particularmente Lênin e Trotsky, tiraram as conclusões fundamentais daquele processo. Não foi à toa que no inìcio de 1917, com a reaparição do soviete, o Partido Bolchevique lançou a palavra-de-ordem “Todo poder aos Sovietes”, contrapondo-se ao governo frente-populista de Kerensky.