Somos tão Jovens: um filme para fãs e saudosistas em geral

Filme remonta as velhas festas punk de garagens e porões
(Divulgação)

Mais visto do ano no fim de semana de estreia, filme mistura drama e comédia em altos e baixos

Quem espera assistir a uma história louca de drogas pesadas, Aids e depressão não vá ao cinema. Somos tão Jovens, de Antonio Carlos da Fontoura, que estreou no último dia 3 em todo o país, conta a o início da carreira de Renato Russo, da banda punk Aborto Elétrico até o surgimento da Legião Urbana, passeando pelo punk & rock brasiliense no período de 1976 a 1982.

Com um roteiro não muito brilhante, de Marcos Berstein (Meu pé de Laranja Lima, Chico Xavier – O Filme), o filme já é o mais visto do ano e vale mais pelo seu valor histórico e até emocional. É uma obra feita por fãs para fãs. Para aqueles que de alguma forma tiveram Legião na sua vida, é impossível não amar. Não espere um filme cult, consonante com a intelectualidade e complexidade do poeta Renato Russo. Mostra o Renato humano: egocêntrico, obcecado e, ao mesmo tempo, irreverente, extremamente inteligente e amável.
 
Renato Manfredini Junior, interpretado por Thiago Mendonça, é o filho mais velho de um economista do Banco do Brasil que, aos 20 anos, abandona o emprego de professor de inglês para se dedicar à música. Antes disso, passou dois anos isolado por causa de uma virose que lhe prejudicou o movimento das pernas. Foi um tempo que usou para ler muito sobre arte, política, filosofia – Russo é uma homenagem a Rousseau – e começar a compor.
 
Renato, fã de rock clássico, ouve falar de uma banda inglesa que gravou uma música detonando a rainha: Sex Pistols. Começa aí uma estreita relação com o punk. Junto com Fe Lemos (Bruno Torres), atual Capital Inicial, e André Pretorius, o Petrus (Sergio Dalcin), surge a Aborto Elétrico em 1980. Petrus só toca no primeiro show. Para preencher o buraco deixado por ele, Flávio Lemos, irmão de Fe, também atual Capital Inicial, entra tocando baixo.
 
Renato, que era o baixista originalmente, assume a guitarra e os vocais. É quando ele começa a cantar. A banda passou a integrar a cena rock brasiliense fazendo shows ao ar livre na Universidade de Brasília (UnB), nos conjuntos habitacionais e nos botecos da cidade, junto com a Plebe Rude, outro ícone do punk brasileiro que sobrevive ainda hoje, e, mais tarde, com Capital Inicial.
 
Ainda que Brasília não tenha sido o berço do punk-rock nacional, que surgiu em São Paulo, o movimento teve uma carga real e simbólica muito forte nesta cidade. Era a capital nacional. A maioria dos jovens brasilienses eram filhos de militares, diplomatas, altos funcionários públicos. Inconformada, aquela nova geração deu vazão à sua revolta contra a ditadura através da música.
 
As cenas dos shows nos bares a la garagem fazem voltar no tempo aqueles que viveram aquele período ou os restos dele, até meados dos 1990. A ditadura estava acabando – ou tinha acabado para os últimos remanescentes –, nenhum deles pegou em armas contra o regime, mas a inconformidade com o sistema permanecia. Tanto é assim que suas letras continuam atuais e frequentemente associadas à cena política atual.
 
A casa de Fe Lemos se transformou num local de ensaio e de produção de materiais de divulgação da banda e de suas ideias. Não eram apenas bandas que compunham e faziam shows, mas que faziam críticas severas à hipocrisia da sociedade, que pichavam a cidade, faziam cartazes, camisetas e fanzines.
 
O ponto alto do filme é a atuação de Thiago Mendonça. O ator reproduziu com perfeição a forma de se expressar de Renato Russo. Isso sem falar que, à exceção das cenas reais do show no Circo Voador, em 1983, todas as músicas do filme foram interpretadas por ele.
 
O ponto fraco são as toscas tentativas de inserir os versos das músicas de Renato nos diálogos do filme. O músico falava para a amiga que sentia um “tédio com um T bem grande” e questionava ao pai “que país é este?” e coisas do tipo. As caricatas representações de personagens como Herbert Vianna e Dinho Ouro Preto também são dignas de vergonha alheia. Entende-se que foi intencional, com que objetivo não se sabe. Mas deu errado.
 
O Renato Manfredini Junior
Figura egocêntrica na sua juventude, Renato foi o grande responsável pelos atritos que levaram ao fim da Aborto Elétrico. Fazia prevalecer suas decisões sobre as do coletivo e se apresentava como o líder da banda (que de fato era, mas sufocava os demais). Em dezembro de 1980, Renato sumiu antes de um show. Estava chorando a morte de John Lennon. Após ser resgatado pela amiga Aninha, personagem fictícia de Laila Zaid que sintetiza as melhores amigas de Renato, sobe ao palco bêbado, erra muito e acaba com a apresentação da banda. Era o fim da Aborto elétrico.
 
Mas Renato era uma figura contraditória. Na sua relação com os amigos fora da banda, com a amiga Aninha e com a família, era doce e divertido, embora já com alguns traços depressivos. Também foi no período em que transcorre o filme que Renato começa a definir sua sexualidade, não resistindo aos seus desejos, mas buscando vivê-los.
 
Flavio foi o primeiro afair homossexual de Renato. Um ponto fraquíssimo do filme é o conservadorismo com que é retratada a bissexualidade do músico, uma de suas características marcantes. A relação com Flávio fracassou, mas ele conhece Carlinhos, um garoto da cidade satélite de Taguatinga, com quem nitidamente tem uma relação “não-platônica”. Mas o diretor preferiu deixar implícito caso entre eles. Parênteses: foi a relação com Carlinhos que aproximou Renato da periferia e inspirou Faroeste Caboclo.
 
Demonstrando sua autossuficiência, Renato insiste numa carreira solo fracassada. No filme, ele se apresenta com canções como “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”, que nada tinham a ver com o que seu público estava acostumado. É com Bonfá que Renato aprende a trabalhar em parceria.
 
A Legião
A Legião surge meio de improviso, entre Renato e Bonfá, a princípio. Chamados para tocar num festival em Patos de Minas, em 1982, junto com a Plebe Rude, Renato e Bonfá se reúnem a Paulo Paulista (teclados) e Eduardo Paraná (guitarra). Após este show, todos foram detidos por causa das letras políticas. Foi a única apresentação da banda com essa formação.
 
Em 1983, Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, interpretado pelo seu filho Nicolau Villa-Lobos, consolidam a Legião. A história é interrompida no lendário show no Circo Voador, neste mesmo ano, que colocou a banda para sempre no cenário nacional. Não dá vontade de levantar da poltrona.
 
E quando o filme acaba, o que sobra é uma vontade maluca de estar num show ou numa garagem, dançando ao som de Aborto Elétrico e Legião Urbana. “Somos tão Jovens” é divertido, como tinha de ser. Uns vão gostar, outros vão odiar. Para os fãs, não importa. No fim das contas e no clima do filme, “temos nosso próprio tempo”.
 
 
FICHA TÉCNICA:

Somos tão Jovens (Brasil, 2013)
 
Gênero: Cine-biografia
Direção: Antonio Carlos da Fontoura
Roteiro: Marcos Bernstein (com Antonio Carlos Fontoura, Luiz Fernando Borges, Victor Atherino)
Montagem e desenho de pós-produção: Dirceu Lustosa
Produção: Letícia Fontoura e Antonio Carlos da Fontoura
Distribuição: Imagem Filmes e 20th Century Fox
Produção Executiva: Marcelo Torres
Direção de Produção: Daniel Fontoura e Clara Machado
Direção Musical: Carlos Trilha
Direção de Fotografia: Alexandre Ermel
Direção de Arte: Waldy Lopes Jr
Câmera: William Etchebehere e Alexandre Ermel
Figurino: Verônica Julian
Caracterização: Rosemary Paiva
Produção de Elenco: Guilherme Gobbi e Dani Pereira
Preparação de Elenco: Cristina Bethencourt
 
Site do filme: somostaojovens.com.br
 
ELENCO:
Thiago Mendonça: Renato Russo
Sandra Corveloni: Carminha (mãe de Renato Russo)
Marcos Breda: Dr. Renato (pai de Renato Russo)
Bianca Comparato: Carmem Teresa (irmã de Renato Russo)
Laila Zaid: Ana Cláudia
Bruno Torres: Fê Lemos
Daniel Passi: Flávio Lemos
Conrado Godoy: Marcelo Bonfá
Nicolau Villa-Lobos: Dado Villa-Lobos
Sérgio Dalcin: André Pretorius
Ibsem Perucci: Dinho Ouro Preto
Olivia Torres: Gabriela
Kotoe Karasawa: Suzy
Nathalia Lima Verde: Helena
Henrique Pires: Carlos Alberto
André de Carvalho: Tony
Victor Carballar: Philippe Seabra
Kael Studart: Andi
Waldomiro Alves: Fejão
Leonardo Villas Braga: Hermano Viana
Edu Moraes: Herbert Viana
Vitor Bonfá: Loro Jones
Natasha Stransky: Teresa
René Machado: Ico Ouro Preto
Daniel Granieri: Zeca
 
TRAILER: