Solidariedade dos trabalhadores do mundo com o povo haitiano

No dia 12 de Janeiro, um violento terremoto atingiu o Haiti. O abalo sísmico teve o seu centro a poucos quilômetros da capital haitiana, Porto Príncipe, onde vive um quarto da população do país, provocando uma terrível catástrofe.

Quando escrevemos este Correio Internacional, calcula-se que já existam cerca de 200 mil mortos, ou seja, 2% da população do Haiti, de aproximadamente 10 milhões de habitantes. A Cruz Vermelha estima que quase 3 milhões de pessoas estejam feridas ou desabrigadas. Estamos, portanto, perante uma tragédia humana gigantesca.

Esta catástrofe natural de dimensões assustadoras, que seria destruidora em qualquer parte, ocorreu num dos países mais pobres do mundo. Antes mesmo do terremoto, 80% dos haitianos viviam abaixo do limiar da pobreza. Mais de 70% da população vivia com menos de 2 dólares por dia e 56% com menos de 1 dólar. Um terço da população dependia da ajuda alimentar para sobreviver. Apenas 30% dos haitianos tinham acesso à rede pública de saúde.

Neste contexto, os efeitos do abalo se tornam ainda mais devastadores. Segundo engenheiros e arquitetos que já trabalharam no Haiti, citados pelo jornal Folha de S. Paulo, a má qualidade das construções, devido à falta de materiais adequados e práticas incorretas de construção, agravou ainda mais a fragilidade das casas e edifícios. Depois do terremoto falta o básico: água, luz, comida e o mínimo de assistência médica. Os serviços de resgate são quase inexistentes e não há sistema de saúde para tratar os feridos ou oferecer os remédios e atendimento básico de pronto-socorro, o que faz com que muitos acabem morrendo. Ao mesmo tempo, a falta de qualquer infra-estrutura mínima faz com que os mortos se acumulem nas estradas e ruas, agravando o risco de epidemias. Os poucos acampamentos de refugiados são, na maioria, improvisados pela população, com tendas de lençóis.

Dois séculos de intensa exploração imperialista e cinco anos de ocupação pela ONU

A situação de extrema pobreza no Haiti é produto de dois séculos de intensa exploração por diversas potências imperialistas.

O país foi o palco da primeira e única revolução vitoriosa protagonizada por escravos no mundo e a primeira revolução negra e anti-colonial da América Latina. Entre 1791 e 1804, os escravos haitianos travaram diversas lutas contra a potência colonial francesa, até que, em 1804, expulsaram os franceses, tomaram o poder e alcançaram a independência. Desde então, o Haiti tornou-se uma ameaça para a França e demais países imperialistas, assim como para a elite escravagista que dominava toda a América Latina. Estes tentaram por todos os meios isolar economicamente o país para sufocá-lo. Desde o início do século XX, os haitianos sofreram diversas invasões imperialistas e ditaduras sangrentas.

Mais recentemente, desde 2004, o Haiti foi ocupado pelas forças da ONU, depois de os EUA terem intervido militarmente para forçar a retirada do presidente Aristide do país. Atualmente as forças de ocupação da ONU são dirigidas pelo Brasil, que assim ajuda os EUA a manter seus interesses na região, mas com uma ocupação militar de face mais “amigável”, com tropas brasileiras, argentinas, bolivianas, jordanianas, entre outras.

O discurso oficial é que a presença militar é necessária para que o Haiti não se torne um caos. No entanto, durante os últimos cinco anos as condições de vida do povo haitiano não melhoraram: o salário mínimo, de cerca de 40 dólares, é o mais baixo da América Latina.

As tropas da Minustah têm servido não para ajudar a trazer a paz e melhoria social ao Haiti, mas, ao contrário, para garantir os grandes lucros das multinacionais das principais potências imperialistas, principalmente dos EUA, que conseguem grandes lucros à custa de trabalho quase escravo.

A recente repressão exercida pelas tropas contra os trabalhadores que lutavam por um reajuste do salário mínimo deixou muito claro o papel da Minustah. Em declaração recente, seu comandante, o general brasileiro Floriano Peixoto Vieira Neto, explicou que os projetos executados pelos batalhões de engenharia do Exército brasileiro são realizados primordialmente com fins militares, e não diplomáticos ou civis, o que significa que os benefícios para a população são indiretos: “Quando você conserta uma estrada para uma tropa passar, para assegurar mobilidade, isso fica também para utilização da comunidade.”

O recente terremoto, ao contrário do que diz a propaganda oficial, demonstra da forma mais explícita e cruel que cinco anos de ocupação militar não serviram para dotar o país de mais infra-estrutura ou melhores condições de vida. Ao contrário, o desastre natural desnudou a catástrofe social que é a vida no Haiti.

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