A Europa assiste a uma segunda onda da pandemia de Covid-19. Muitos países registraram um abrupto aumento dos casos de contaminação e de mortes. Países como França, Espanha e Alemanha voltaram a anunciar medidas de lockdown (confinamento total e restrição de circulação) para conter a disseminação do vírus.

Há a suposição de que essa nova onda possa ter relação com uma mutação do vírus. No entanto, já faz alguns meses que os governos dos países europeus afrouxaram totalmente as medidas de isolamento social. Na Itália, por exemplo, os alunos votaram às aulas. Fora das classes a recomendação é o uso de máscara, mas dentro da sala de aula é permitido que elas sejam retiradas. Uma orientação pra lá de ridícula, já que é a maior chance de contaminação se dá justamente quando as pessoas estão concentradas em um mesmo espaço.

Na maioria dos países, os trabalhadores tiveram que voltar aos seus locais de trabalho e, em muitas fábricas, o distanciamento social é uma ficção, assim como no transporte coletivo. Não por acaso, a Itália vem registrando um aumento exponencial de infecções de Covid-19. Em 31 de agosto, foram registrados 1.365 novos casos; um mês depois, 1.851. Em meados de outubro, a média diária de novas contaminações saltou para 8 mil. E, em 31 de outubro, checou a 31.758.

Mesmo assim, o governo do país insiste em dizer que não poderá “bloquear o país como em março”, passando a ideia de que, se a produção for bloqueada, quem pagá-la as consequências serão os trabalhadores e pequenos comerciantes e não os grandes industriais e os grandes empresários que continuam lucrando na pandemia.

Nos Estados Unidos, país com maior número de infectados e de óbitos causados pelo vírus, a coisa também não caminha bem.  Anthony Fauci, diretor-geral do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas e Alergias, previu que o país, em breve, atingirá a marca de 100 mil novos casos diários de Covid-19 (na última semana, a média tem sido de 80 mil novos casos por dia). Segundo ele, os EUA vão sofrer profundamente com o vírus durante os meses de outono e de inverno e, muito provavelmente, devido a um aumento considerável de casos, hospitalizações e mortes por todo país.

Por lá, o presidente Donald Trump minimizou a pandemia, disse que isolamento social era bobagem, não incentiva o uso de máscara e, quando foi infectado pelo vírus, não deixou de promover aglomerações.

Descontrole

No Brasil vai ser tsunami

Enquanto a Europa volta a se fechar para conter a segunda onda de Covid-19, o Brasil ultrapassa a marca de 160 mil mortes, sem previsão de queda ou aumento significativo do número de casos a curto prazo. Na média diária, as mortes por Covid no Brasil ainda são o triplo do número de assassinados no país. Mas, diariamente, o vírus também mata 15 vezes mais que o HIV-Aids e quatro vezes mais que os acidentes de trânsito.

Ainda estamos longe de superarmos a primeira onda. Formalmente, na literatura cientifica, uma  segunda onda só ocorre depois de um primeiro pico infeccioso agudo, seguido por uma queda considerável no número de casos e mortes, chegando praticamente a zero. Quando, subitamente, há um aumento importante dos registros, superior a 50%, é que se pode falar em segunda onda.

Acontece que a realidade brasileira pode desafiar esse quadro. O tsunami da chamada primeira onda ainda não passou e já podemos ver o próximo se aproximando bem no horizonte. O maior indício é o aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em dez capitais brasileiras.

Segundo o Infogripe da Fiocruz, que acompanha as internações hospitalares por SRAG, nas últimas semanas, todas elas apresentaram sinais de retomada do crescimento das infecções. Aracaju (SE), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), João Pessoa (PI), Macapá (AP), Maceió (AL) e Salvador (BA) apresentam sinal forte de crescimento a longo prazo (seis semanas). Em Belém (PA), São Luís (MA) e São Paulo (SP) o sinal de crescimento, também a longo prazo, é moderado.

A SRAG é uma doença respiratória causada por um vírus, seja ele o novo coronavírus, o influenza ou outro qualquer. Mas, segundo a Fiocruz, atualmente, quase 98% dos casos no país têm o novo coronavírus  como causa.

Mais alertas

Outro sinal é o aumento da ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) nessas capitais. Florianópolis (SC) já está com 86,83% dos seus leitos de UTI ocupados. Em Manaus (AM), castigada pela pandemia, já tem 77% dos leitos de UTI e 70% dos leitos clínicos ocupados por pacientes, fruto de uma explosão de internações nas últimas duas semanas.

É importante lembrar que os leitos extras, criados lá no início da pandemia, foram praticamente desativados e não há sinal de que eles sejam reativados ainda em novembro. Ou seja, é bem provável que uma nova onda de Covid no Brasil reproduza as mesmas cenas horrendas que vimos no início da pandemia; ou seja, centenas de pessoas pobres morrendo por falta de leitos de UTI em hospitais.

Além disso, o “Boletim 12”, do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Nordeste, aponta o risco do vírus entrar na região através de turistas europeus durante o verão.  O Comitê Científico recomenda que os governos estaduais tomem medidas para prevenir uma nova onda de infecção. É chocante, mas, hoje, nos aeroportos da região não há nem estandes sanitários, muito menos kits de testagem rápida de passageiros provenientes do exterior.

Uma nova onda de infecção no Brasil seria produto direto da política genocida de Bolsonaro que, além de minimizar o impacto vírus, chamando a pandemia de “gripizinha”, agora atenta contra a vacinação de toda população (lei ao lado). Mas as “flexibilizações”nos estados, levadas a cabo pelos governadores, também têm sua responsabilidade. Na prática, decretaram o “liberou geral”, e só não liberam as aulas ainda este ano em função do desgaste eleitoral que a medida proporcionaria.

Genocida

Bolsonaro faz campanha criminosa contra vacina

A pandemia no Brasil é devastadora. O país tem cinco vezes mais mortos do que a média mundial. Mesmo assim, Bolsonaro diz que a doença é uma “gripizinha” e que o país vem se saindo muito bem no combate ao Covid.  O negacionismo de Bolsonaro só vai servir para facilitar uma segunda onda aqui no Brasil.

Recentemente, Bolsonaro disse ser contra a compra do que ele chama de “vacina chinesa”, atiçando os apoiadores que o seguem nas redes sociais. Também disse que não obrigaria ninguém tomar vacina contra o Covid-19.

A CoronaVac é uma das vacinas contra o Covid que está em desenvolvimento no mundo – todas ainda em fase de testes. Ela está sendo desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac. Bolsonaro boicota a vacina porque é um papagaio serviçal de Donald Trump, responsável pela fake news de que o Covid é um vírus propositalmente fabricado pelos chineses. A mentira serve ao presidente dos EUA para esconder sua política criminosa, que levou o país a superar 230 mil mortes causadas pela pandemia.

Bolsonaro repete a papagaiada para fazer uma disputa política com o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), que já comprou a vacina. Dória quer se posicionar para as eleições de 2022 como defensor da Ciência e está usando a vacina chinesa para isso. No entanto, Dória é corresponsável pela situação atual, pois implementou um isolamento social muito parcial em São Paulo. Nessa briga política, se prepara um boicote criminoso contra a saúde da população.

A vida acima de tudo

Obrigatoriedade da vacina, sim!

A vacinação contra o vírus deve ser obrigatória, pois em algumas situações o direito coletivo à saúde se sobrepõe aos direitos individuais. Uma pessoa que se recuse a ser imunizada pode ser um potencial transmissor do vírus, inclusive para seus familiares mais vulneráveis, vizinhos e colegas de trabalho.

É um crime contra a saúde pública permitir que um indivíduo transmissor ande pelas ruas sem máscara, participe e estimule aglomerações, pois está colocando em risco a vida de muita gente. Por isso, já existem outras vacinas obrigatórias no Brasil e, por exemplo, caso uma criança não apresente a comprovação de vacinação, ela nem consegue se matricular na escola. Além disso, uma vacinação que não atinja praticamente toda a população não garante imunidade contra o vírus.

Obviamente, se a vacina for segura e eficaz. Por isso, não adianta querer acelerar o processo de produção sem passar por todas as etapas de testes, como aparentemente fez a Rússia, com sua vacina. Mas, Bolsonaro é um hipócrita quando diz que só vai usar vacina já testada e com comprovação científica, pois ele defendeu o uso de cloroquina sem comprovação científica nenhuma.

Tudo indica que, mesmo em 2021, não haverá vacina suficiente, sequer para metade da população brasileira. Por isso, ao invés de atacar o CoronaVac, o governo deveria estar trabalhando para obter a quantidade de vacina suficiente para o conjunto da população brasileira.

Recentemente, o governo alemão disse que aplicar 100 mil doses por dia seria “um desafio”. Aqui, no Brasil, graças ao Sistema Único de Saúde (SUS), que Bolsonaro quer privatizar, nas campanhas de vacinação contra a gripe se consegue atender 1 milhão de pessoas por dia. Em alguns anos, o Sistema esteve preparado para vacinar quase 1,5 milhão de pessoas por dia, em cerca de 65 mil postos. Ou seja, temos uma imensa capacidade para conter a doença, mas isso é boicotado de modo criminoso por Bolsonaro, quando ele estimula movimentos contra a vacinação.

A campanha de Bolsonaro contra a obrigatoriedade da vacina e, mais que isso, contra a própria vacina, é, assim, mais uma comprovação da política genocida de um governo que coloca os lucros dos banqueiros e das grandes empresas, e os seus interesses eleitorais, acima da vida de milhões.