“Se morrer hoje, amanhã faz dois dias”

Mais uma mulher trans é brutalmente assassinada

No último sábado (4/05), mais um assassinato brutal tirou a vida de uma mulher trans. Ao recusar um programa, Larissa Rodrigues foi morta a pauladas no Planalto Paulista, região nobre da Zona Sul de São Paulo. O assassino fugiu e se apresentou na delegacia após 24h.Testemunhas relataram que houve omissão de socorro por parte das duas primeiras viaturas de polícia que chegaram ao local. Somente a terceira chamou o Samu. Não deu tempo de salvar sua vida, não houve flagrante e o crime foi registrado como homicídio.

Larissa Rodrigues era natural de Fortaleza – Ceará, tinha 21 anos e morava na capital paulista desde os 17, onde foi ganhar a vida para ajudar a família a sobreviver. Uma característica comum na vida das LGBT’s, em especial das mulheres trans. Nesse momento, ela é considerada pela polícia, pelo Estado e por setores conservadores da sociedade como “menos uma”, ou “um CPF a menos” como dizem os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Na semana em que recebemos a notícia de que os criminosos transfóbicos que espancaram até a morte Dandara dos Santos, que não por acaso era conterrânea de Larissa, foram condenados a mais de 80 anos de prisão, sofremos mais esse ataque brutal.

No mundo, são milhões de LGBT´s cujas vidas são invisíveis para serem dignas, mas extremamente visíveis para serem ceifadas. A cada 16 horas morre um LGBT no Brasil. A maioria é transexual. O Brasil é um dos países que mais mata LGBT’s no mundo. Em 2018, foram 420 mortes associadas à LGBTfobia: 320 assassinatos e 100 suicídios. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB) de 2011 a 2018 foram 2.687 mortes.

O aumento dessa violência deve-se muito à ascensão de políticos ultraconservadores, muitos deles ligados à poderosa bancada evangélica no Congresso. A negociação com essa bancada em outros momentos e a falta de políticas públicas para LGBTs em todos os governos alimentou e alimenta essa trágica linha ascendente nas estatísticas.

Uma vida de discriminação, humilhações e sofrimentos
A vida das pessoas trans é repleta de caos, a partir do momento em que dão os primeiros sinais de que têm uma identidade de gênero diferente do seu sexo biológico. Depois, é necessário ter coragem de enfrentar a família, os amigos e o resto do mundo. Em meio a isso tem a expulsão da escola, que passa a ser um espaço hostil e desinteressante, até o momento em que se faz necessário buscar um trabalho para sobreviver.

As estatísticas demonstram que pessoas trans têm uma expectativa de vida de 35 anos. Não conseguem emprego digno, nem vínculo empregatício, muito menos esperam se aposentar. Quase 100% vive da prostituição. Os atendimentos de saúde são sempre constrangedores e agressivos, pois as humilhações são frequentes e nenhum tratamento digno lhes é ofertado, nem mesmo tendo em vista todos os problemas que já enfrentam na vida.

Uma morte brutal, violenta e recheada de crueldades
A morte de uma pessoa trans é trágica já desde as pequenas agressões. Os pedaços que se tira em cada humilhação sofrida lhes mata um pouco a cada dia. Até que chegam as mais brutais violências: sufocamentos, esfaqueamentos, espancamentos e pauladas até a morte. Tudo isso muitas vezes é acompanhado por empalamentos (corte de sua genitália colocando em sua própria boca, ou cabos de vassoura, ou pedaços de paus enfiados no ânus).

A hora de denunciar
Se vocês morreram na esquina, fica por isso mesmo. Vocês são trastes, a escória da sociedade. Se morrer hoje, amanhã faz dois dias”. Frases como essas são ditas por policiais às transexuais que vão até a delegacia mais próxima denunciar agressões sofridas nas esquinas em que fazem programas. Os setores conservadores estão há tempos cavando espaço para disseminar discursos de ódio e agora são respaldados por um governo explicitamente LGBTfóbico, machista, racista e xenofóbico.

Precisamos resgatar o espírito da rebelião de Stonewall
Em 1969, nos EUA, LGBT’s estavam submetidos a um processo de extrema marginalização. Eram duramente perseguidos nas ruas e mesmo nos poucos espaços em que se reuniam (bares específicos para o público LGBT, conhecidos como guetos) eram submetidos à violência policial, que realizava “batidas policiais” frequentes, que na verdade tinham o intuito de coletar propina, mantendo clima de constante repressão.

O “Stonewall Inn”, em Nova York, era um dos bares que as LGBTs mais pobres frequentavam. Acabou se transformando no palco de uma grande revolta quando, após uma dessas batidas policiais, as LGBTs resolveram reagir e resistiram bravamente, num enfrentamento direto com a polícia, que durou cerca de 4 dias.

Nessa luta, quem esteve à frente foram principalmente as mulheres lésbicas, as travestis negras e os gays imigrantes. A revolta de Stonewall, além de ser contra a violência policial, foi também contra toda a opressão e exploração que as LGBT’s pobres, negros e imigrantes sofriam cotidianamente e teve uma repercussão tão grande que causou efervescência no mundo todo.

Organizar para lutar!
Numa sociedade onde a heteronormatividade é regra única para se ter um mínimo respeito, é preciso resgatar o espírito de Stonewall. É preciso muita união das LGBT’s que devem se organizar e lutar pela vida e por direitos para viver. O combate à transfobia, à lesbofobia, à homofobia e à bifobia precisa ser levado às ruas. Precisamos exigir a criminalização de ofensas e agressões cometidas contra a população LGBT, bem como ter uma tipificação específica para garantir que os crimes cometidos contra LGBTs sejam duramente punidos.

Prestamos aqui toda solidariedade e apoio aos familiares e amigos de Larissa Rodrigues e em sua homenagem denunciamos e lutamos para que Larissas e Dandaras possam viver com plenitude e dignidade sua orientação e identidade de genêro.

Vamos às ruas! Vamos à Luta!! Criminalização da LGBTfobia já!