Salvador: capital negra também tem racismo

Salvador recebe pela primeira vez uma edição do Fórum Social Mundial (FSM). A imagem da capital baiana é de uma cidade conhecida mundialmente por sua magia, encanto e belas praias. Contudo, essa imagem encontra-se bem distante da realidade. Cada vez mais Salvador sofre com a violência e a criminalidade, produto da enorme pobreza. A resposta é uma brutal repressão policial comparável a do Rio de Janeiro. O mito da “harmonia racial” é coisa
para turista ver.

Vivemos em uma cidade onde mais de 80% da população é composta de afrodescendentes. Mesmo constituindo a maior parcela da população de Salvador, negros e negras continuam acumulando os piores índices de analfabetismo, saúde, moradia, educação e emprego.

No mercado de trabalho a desigualdade é enorme. Os negros ainda são os que ocupam os piores cargos, recebendo os menores salários, isto quando não estão desempregados. Os dados da pesquisa, “Os negros no mercado de trabalho”, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sociais e Econômicos (Dieese), governo do Estado da Bahia, Fundação Seade e Universidade Federal da Bahia, revelaram que a desigualdade racial no mercado de trabalho nos últimos cincos anos permaneceu praticamente a mesma na Região Metropolitana de Salvador. Enquanto um negro recebe R$ 4,75 por hora trabalhada, o não-negro ganha R$ 9,63.

Quando se trata da desigualdade de gênero, os dados são ainda mais alarmantes. Uma em cada quatro – 25,2% – mulheres negras está desempregada. No caso dos homens brancos, o índice é bem mais baixo – está em torno de 12%.

São os negros que, em grande maioria, estão fora dos bancos escolares. E os que conseguem completar a educação básica e chegam à universidade acabam se deparando com uma estrutura de ensino sucateada e que não favorece os mais desprivilegiados socialmente. Muitos estudantes negros que entram em uma universidade pelo sistema de cotas, mesmo obtendo um bom desempenho acadêmico, semelhante ou superior ao dos não negros, acabam desistindo, pois não têm condições de se manterem.

VIOLÊNCIA E REPRESSÃO
A violência que aflige toda a população de Salvador é, ainda mais implacável contra a população negra. Pesquisas mostram que as vítimas preferenciais nos casos de violência são negras e negros. Os homicídios que aterrorizam nossa população atingem, majoritariamente, jovens negros com idade entre 18 e 24 anos.

Segundo o Mapa da Violência de 2008, houve um aumento de aproximadamente 82% nos homicídios da população jovem em Salvador no período entre 2002 e 2006. A eleição do governo petista de Jaques Wagner não mudou essa situação. Desde a posse de Wagner o número de assassinatos aumentou 80% apenas em Salvador e na Região Metropolitana. E a polícia continua a manter suas práticas violentas, que fizeram sua fama nos tempos de Antonio Carlos Magalhães.

Chacinas e execuções continuam um expediente comum da polícia e de grupos de extermínios, antes de grandes eventos como o carnaval. Conhecidas como “faxinaço”, as operações são marcadas pela prisão em massa e execução de “suspeitos”. Um dos casos mais emblemáticos foi o da execução de sete jovens em 2008, entre eles o artista circense Ricardo Matos dos Santos, que estava jogando bola.

A truculência policial atinge, sobretudo, jovens pobres e negros da capital. Vilma Reis, autora de uma pesquisa sobre as políticas de segurança pública em Salvador entre 1991 e 2001, relaciona a violência policial na importação do modelo de “tolerância zero” adotado em Nova York. Desde os anos 1990, o governo baiano passou a enviar quadros da polícia para serem treinados nos EUA sob a ótica de dar carta branca à repressão. “Não que esse negócio de ‘tolerância zero’ fosse algo novo, mas serviu para dar um nome, uma grife ao que a polícia já fazia”, diz a socióloga.

A nova política de segurança pública adotada pelo governo federal (aplicada na Bahia por Wagner) aumenta ainda mais a violência. O PAC da Segurança é baseado no aumento da repressão policial, na criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Sob o pretexto de combater os “bandidos” e os “narcotraficantes”, mortes, prisões, humilhações são uma triste rotina no cotidiano de milhões de trabalhadores. Dessa forma, foi declarada uma verdadeira “guerra” contra as populações mais carentes.
Por outro lado, os crimes de racismo são engavetados e ninguém é preso. Segundo dados do Ministério Público da Bahia, apenas 70% dos 40 casos mensais de racismo e intolerância religiosa são transformados em procedimento investigatório.
É mais do que comum vermos todos os dias um jovem negro preso sendo humilhado e desrespeitado por repórteres de programas sensacionalistas, crianças e adolescentes usando crack em alguma viela, jovens e adultos pedindo esmolas nas escadarias das igrejas espalhadas por toda cidade.

Contudo, o que não é comum para nós negros e negras é termos igualdade de direitos e oportunidades em relação aos não-negros. Numa sociedade tão complexa como a que vivemos, onde existe desigualdade de classe, os setores mais oprimidos são os que mais são explorados. E isso explica porque, apesar de Salvador ser a capital negra do Brasil, existir muito racismo também aqui.

O Fórum Social Mundial vai passar. Em seguida começará o carnaval e com ele novas cenas de segregação racial e social serão vistas. Quem pode pagar fica nos luxuosos camarotes ou blocos famosos, como o Camaleão. A exclusão racial é nítida: dentro das cordas, com seus abadás, meninos e meninas brancos. Do lado de fora, as pessoas que não podem pagar tem que se contentar em ser “pipoca” – folião independente. É aqui que estão os negros. Na “pipoca”, cenas de porretadas dadas pelos policiais com seus cassetetes enormes, chamados na Bahia de “Fantas”, se sucedem, ao som da banda Chiclete com Banana e Olodum. Isto é Salvador, sem magia nem encanto.

Post author Ana Vera Barros, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU-BA
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