Sade, o maldito

Relacionada (e confundida) geralmente com a noção de perversão e prazer através do sofrimento, a subversiva obra do Marquês de Sade tem muito mais a revelar.Donatien Alphonse-François, o Marquês de Sade, foi e ainda é um dos escritores mais controversos da história. Sua literatura ataca as instituições da igreja e da família, a moral e os bons costumes, escancarando personagens libertinos e a defesa de uma delirante liberdade individual, principalmente sexual.

As obras do Marquês foram proibidas ou malditas por mais de cem anos. Ainda que tenha vivido num período revolucionário (a Revolução Francesa), Sade foi perseguido, proibido e encarcerado durante a maior parte de sua vida, por todos os regimes sob os quais viveu.

Nascido na França em 1740, viveu 74 anos, 27 deles em prisões e sanatórios. Morreu em um destes, em 1814, sem ver publicado e pensando haver perdido para sempre o manuscrito daquela que considerava ser sua mais importante obra: “Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem”.

Apenas no século XX, as obras do Marquês começaram a ser resgatadas, principalmente a partir da paixão dos artistas surrealistas pelo escritor. Mas, mesmo assim, publicar Sade era motivo para ações judiciais, como ocorreu com o editor Jean-Jacques Pauvert, processado e multado em 1956 por divulgar a obra sadiana.

Somente nos anos 60, principalmente após o “Maio de 68”, a obra do Marquês começou a ser mais difundida. A moral individualista e espontaneísta da época, contra os tabus e preconceitos, deu maior espaço para Sade. Vale recordar que esse individualismo cabia dentro de todas as normas da burguesia.

Ressurge o Marquês
Hoje, Sade é revisitado e várias obras suas são republicadas, como “Os crimes do amor” (L&PM), “A filosofia na alcova”, “O diálogo entre um padre e um moribundo” e o mais recente “Os 120 dias de Sodoma” (Iluminuras). Soma-se a eles o recente lançamento de Eliane Robert Moraes, pela mesma editora, de “Lições de Sade: ensaios sobre a imaginação libertina”.

Eliane tece interpretações das principais obras do Marquês, desvenda o contexto da época, o surgimento de organizações secretas libertinas e as influências do Marquês, principalmente sobre os surrealistas.

Também está em cartaz em São Paulo, no Espaço Satyros II, a adaptação teatral de “Os 120 dias de Sodoma”, do diretor Rodolfo Garcia Vázquez. Nela, a homérica orgia sai do Castelo de Sillig do texto original, para se instalar no Brasil atual, com uma dura crítica aos recentes escândalos de corrupção.

A exemplo do original, sem pudores, a peça aponta o dedo para as elites, a Igreja, os parlamentares, o Judiciário e o governo. Critica o falso riso, a mercantilização do carnaval e a falsa democracia burguesa. “A democracia é a melhor máscara para esconder o prazer absoluto da diferença. Enquanto os miseráveis pensam que são iguais a nós, mais podemos abusar do poder que o Estado nos propicia. Eles só têm o direito de votar, e esse voto é sempre em algum de nós. Portanto, tudo fica como nos interessa. O melhor de tudo é que nós dizemos: `somos todos cidadãos`, mas eles sempre se esquecem de perguntar: `de que tipo?’”. A fala é do personagem original de Sade. Os Satyros completam, cantando em coro o que a história repete: “Assim o tirano subjuga os súditos”.

Obra subversiva
Seus primeiros escritos já eram assumidamente ateus e libertinos. O “Diálogo entre um padre e um moribundo” subverte o sacramento da extrema-unção, mostrando o moribundo tentando convencer o padre sobre a inexistência de Deus. Já em “Filosofia na Alcova ou os preceptores imorais”, Sade investe contra a instituição da família, desconstruindo a idéia da educação e da passagem de valores virtuosos dos pais para os filhos. No livro, a Senhora de Saint-Ange, auxiliada por seu irmão, o Cavaleiro de Mirvel, e pelo jovem Dolmancé, instrui a bela Eugénie nos mistérios do prazer, com lições libertinas e críticas às “mães de família” e sua moral virtuosa.

Em “Os 120 dias de Sodoma”, Sade promete (e cumpre) “a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe”, que narra uma orgia patrocinada por quatro libertinos, que são importantes e figuras públicas, símbolos do Poder, dentre eles um bispo. A orgia possui regras e é dividida em quatro ciclos: das paixões simples, das paixões complexas, das paixões criminosas e das paixões assassinas.

O sistema filosófico sadiano
Apesar das aproximações filosóficas do Marquês com os iluministas, no manifesto “Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, em “Filosofia na Alcova”, Sade reclama aos iluministas a realização da proclamada liberdade, dando a esta palavra seu significado máximo. Para ele, para realizar a liberdade é preciso acatar o crime como ação individual e desautorizar o Estado a praticá-lo.

Esta idéia está relacionada à visão de Sade, de que o homem, sendo um animal, age segundo leis da natureza. Com isso, cabe lembrar, se choca com as poucas regras morais subsistentes, “limitadas e instáveis”, que estão acima das classes no cotidiano. Leon Trotsky, ao atacar a burguesia, que tenta impor sua moral às classes oprimidas, afirma que: “Então não existem preceitos morais elementares elaborados pelo desenvolvimento da humanidade e indispensáveis à vida de qualquer coletividade? Existem, sem dúvida, mas sua eficácia é muito incerta e limitada. As normas ‘obrigatórias para todos’ são tanto menos eficazes quanto mais áspera se torna a luta de classes (…)”.

“(…) O fato dessas normas universalmente válidas serem vazias se deve a que, em todas as circunstâncias importantes, os homens têm um senso comum muito mais imediato e profundo de seu pertencer a uma classe do que pertencer à ‘sociedade’ (…) A solidariedade entre os operários, especialmente nas greves ou atrás das barricadas, é infinitamente mais categórica que a solidariedade humana em geral”.

Citamos extensamente Trotsky, porque, em seu individualismo delirante, Sade se choca mesmo com as regras morais “limitadas e instáveis” do cotidiano, em defesa da satisfação de instintos animais. Ao justificar os crimes, Sade conclui que a busca individual pela liberdade, pelo prazer, pela satisfação dos desejos, não tem limites. Ao contrário da dialética marxista, o movimento visto pela filosofia sadiana está muito mais no indivíduo e na natureza do que no coletivo das classes.

O neoliberalismo, conscientemente, retomou a pregação do individualismo para combater a consciência de classe dos trabalhadores. Nestas últimas décadas, os trabalhadores foram estimulados a buscar saídas individuais, a qualificação profissional, para produzir mais, “vestir a camisa da empresa”, para subir na vida.

Tudo o que tenha um significado coletivo foi decretado como “fora de moda”, “ultrapassado”. O leste europeu contribuiu para a difusão do individualismo.

O pensamento de Sade foi, durante muitos anos na história simplificado no conceito patológico de sadismo, que provém do nome do Marquês e é definido como “perversão caracterizada pela obtenção de prazer sexual com a humilhação ou o sofrimento físico de outrem”. Muitas cenas descritas nas obras de Sade cabem nesta definição simplista. Mas, a filosofia sadiana vai muito além disso. E seria justificado encontrar no neoliberalismo um estímulo “sádico” ao individualismo, mas em defesa das instituições, o que nem o Marquês defendia.

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