Rio de Janeiro para todos ou para os trabalhadores?

A cidade do Rio de Janeiro passa por uma profunda remodelação: Copa, Olimpíadas, megaeventos, megainvestimentos, Unidade de Polícia Pacificadora (as UPPs), “choque de ordem” e remoções. Tudo isso para enriquecer empreiteiros, banqueiros, especuladores do mercado imobiliário, bicheiros e grandes burgueses do Brasil e do mundo. Enquanto isso, trabalhadores sofrem com os salários de fome pagos pelas empreiteiras, com as remoções violentas feitas pela prefeitura e o caos nos serviços públicos. Resumindo, “a cidade maravilhosa” está se tornando a “capital do Capital”.

Para seguir com esse projeto, nestas eleições, a grande burguesia segue apostando na candidatura de Eduardo Paes (PMDB) (aliado de Dilma e Sérgio Cabral). Sua campanha milionária tentará enganar os trabalhadores dizendo que a cidade está cada vez melhor e que os megainvestimentos beneficiarão a todos. Felizmente, muitos trabalhadores e jovens já fizeram sua experiência com este governo e sabem que não é bem assim; que Eduardo Paes governa para os ricos e não para os trabalhadores. E muitos vêem na candidatura de Marcelo Freixo (PSOL) uma alternativa viável de mudança.

Foi com o intuito de fortalecer a esquerda e fazer uma grande campanha contra Eduardo Paes que o PSTU procurou o PSOL e o PCB para fazer uma Frente de Esquerda no Rio de Janeiro. Infelizmente, o PSOL e Freixo a vetaram e fizeram a opção de procurar partidos burgueses para coligação, como o PV e o PSB, de Romário.

Essa busca pelos partidos burgueses já anunciava o que seria o programa a ser apresentado por Freixo. Sua principal proposta de campanha é um Rio de Janeiro para “todos os cariocas”. “Construindo direitos em todos os territórios da cidade, será possível construir uma cidade que respeite a diferença entre as regiões e integre a todos em um só governo.”, disse Freixo.

Rio de Janeiro para todos?
Porém, na sociedade capitalista, onde existem interesses antagônicos entre a burguesia e os trabalhadores, é impossível governar para todos. Para resolver problemas do povo pobre da cidade, mesmo os mais elementares, como o direito à educação, saúde e transporte públicos e de qualidade, é necessário se enfrentar com as grandes empresas que controlam e lucram com a negação desses direitos.

Freixo, ao tentar agradar a “todos”, apresenta um programa de conciliação de classes, não se enfrenta em nenhum grau com as empresas e, por isso, acaba não apresentando uma verdadeira solução para os problemas dos trabalhadores. Pelo contrário, mantém a essencialmente o mesmo projeto de cidade de Eduardo Paes.

Tanto é assim que, recentemente, Freixo lançou a carta “Grandes polêmicas e o respeito aos contratos”, em seu site, na qual se compromete a honrar todos os contratos com as empresas no Rio, desde que não haja corrupção. Por isso, vai fazer uma auditoria nos contratos e consórcios. Apenas uma auditoria, porém, não basta. No caso dos transportes, o problema não é apenas a corrupção das empresas, mas, sim, a própria lógica privada que faz com que aumentem cada vez mais a passagem, ataquem o passe-livre estudantil e a qualidade do transporte. Assim, para resolver de fato o problema dos transportes, é necessário reestatizá-los e investir dinheiro público para melhoria da qualidade.

No caso da saúde, a mesma coisa. Eduardo Paes privatizou a saúde pública através das Organizações Sociais (OS). Para resolver o problema, devemos defender o fim das OSs e investimento de 15% do orçamento na saúde pública. Apenas auditar os contratos não vai mudar nada.

Remoções
Hoje, para construir as obras faraônicas da Copa do Mundo, milhares de trabalhadores e jovens estão sendo removidos violentamente de suas casas, como é o caso da comunidade de Vila Autódromo. A solução para as remoções não é auditar o contrato das empreiteiras. É preciso rompê-los e investir o dinheiro público na construção de moradias populares para o povo trabalhador.

Para fazer isso é necessário se enfrentar com as empresas e empreiteiras que mandam na cidade. O que Freixo não se propõe a fazer. Para ele, os grandes investimentos não são o problema, mas, sim, parte das soluções para a cidade. Por isso, sequer propõe aumentar os impostos das grandes empresas e dos ricos, quanto mais estatizar alguma coisa. “Grandes investidores serão sempre muito bem vindos, mas serão sempre encorajados a se engajar nesse esforço por um desenvolvimento com responsabilidade social e ambiental.”, diz o candidato do PSOL.

Para piorar, Freixo tem uma posição vacilante sobre a política criminosa de ocupação das favelas pela polícia e o exército através das UPPs, que reprimem, humilham e matam os jovens e trabalhadores, negros e pobres, das favelas. Ele propõe reformar as UPPs e transformá-las em “UPPs sociais”, como se fosse possível conciliar repressão com direitos sociais.

Um programa de conciliação de classes
O projeto que Freixo está propondo para o Rio não é novo. É o mesmo que o PT defendeu para o Brasil durante décadas: de que é possível os trabalhadores e empresários governarem juntos, conciliando os interesses de todas as classes. Tal projeto já foi posto à prova pelo PT no governo federal. O resultado está aí: o governo petista administra os negócios da elite contra os interesses dos trabalhadores e se alia com os mais conservadores e corruptos da burguesia, como Sarney, Collor e Maluf.

Infelizmente, o rumo do PSOL não parece ser diferente desse. As buscas incessantes por alianças com partidos burgueses em todo o país, a negação do classismo, a busca por financiamento e apoio de empresários para suas campanhas, como Andrea Gouvêa Vieira (empresária e vereadora pelo PSDB do Rio) na campanha de Freixo, são evidências de sua estratégia eleitoreira e reformista.

O PSTU do Rio de Janeiro, junto com Cyro Garcia, seguirá defendendo uma cidade para os trabalhadores, com independência política e financeira, apresentando uma alternativa classista e socialista, enfrentando-se principalmente com Eduardo Paes, mas também com as outras candidaturas que não se comprometam unicamente com a luta dos trabalhadores.
Post author Ana Flávia Seixas, do Rio de Janeiro (RJ)
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