Revolução e contra-revolução nas artes soviéticas

A s vozes das ruas, o clamor das assembléias e os intensos debates que surgiram nos primeiros sovietes, em 1905, ecoaram e ganharam vida nos quadros, palcos, telas de cinemas, livros e poemas que explodiram em formas e conteúdos revolucionários, entre o início do século e meados dos anos 1920. Lamentavelmente, a voz autoritária de Stálin e a mordaça censora do regime que sufocaram este processo.

Construindo pontes entre Arte e Revolução
No início do século, a Rússia ainda encontrava-se mergulhada numa tradição aristocrática e conservadora. A arte estava “presa” à estética pomposa, acadêmica e reacionária do czarismo.

Contudo, já em meio à I Guerra, eram muitos os jovens que, transitando entre os demais países europeus, traziam em suas bagagens, manifestos artísticos e reproduções de telas. Foi assim, traçando um complexo diálogo com movimentos que eclodiam em outros países (Surrealismo, na França; Expressionismo, na Alemanha; Futurismo, na Itália), que artistas renovavam a arte russa.

A poesia quebrava regras e fronteiras nas mãos de Alexandre Blok, Vladimir Maiakovsky e Andrei Biely. No cinema, diretores como Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Vladimir Kulechov e Vsevolod Pudovkin buscaram transpor para as telas a “máxima” criada por Maiakovsky que impulsionava todas as esferas da arte: “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.

Uma tentativa que resultou numa série de filmes que ousavam em experimentos com as possibilidades oferecidas pela linguagem cinematográfica, principalmente pela montagem, em filmes como “A mãe” (Pudovkin, 1924), “A greve” (Eisenstein, 1924), “O encouraçado Potemkin” (Eisenstein, 1925), “Soviet, avante!” (Vertov, 1926), “Outubro” (Eisenstein, 1927).

Muito de toda esta efervescência girou em torno da Revolução Construtivista, que tivera início em 1914. Primo-irmão de movimentos como o Futurismo, o Surrealismo e o Cubismo, que também surgiram em meio ao conturbado mundo que sobreviveu à I Grande Guerra, o Construtivismo e suas relações com o processo revolucionário foram apontados tanto por dirigentes como Trotsky, quanto por artistas, como o pintor russo Kazimir Malevitch (1878–1835), que criou o Suprematismo no mesmo período e acreditava que “o cubismo e o futurismo, formas artísticas revolucionárias, foram os prenúncios da Revolução política e econômica de 1917”.

Parte fundamental da amplitude desta revolução vinha de uma crença que movia o cenário artístico: a arte, em si própria, já é uma ferramenta revolucionária. Não uma ferramenta manejada pelo propagandismo rasteiro ou submissa aos interesses do Estado.

O que se buscava eram expressões artísticas que pudessem traduzir livremente as mudanças em curso, mas que também pudessem ajudar a criar uma nova sensibilidade, crítica e participativa. Foi a isto que o pintor e artista gráfico El Lissitzky se referiu quando defendeu, em 1922, que o que se estava buscando na república dos sovietes era “uma arte construtiva que não decora, mas organiza a vida”.

O choque com o stalinismo
Foi este mesmo estímulo que impulsionou os “Trens de Cultura e de Instrução”, que entre 1918 e 1921, percorreram os territórios soviéticos, colocando a arte a serviço da defesa da revolução. Seus vagões, transformavam as estações em museus e palcos a céu aberto ao passarem com espetáculos teatrais, sessões de cinema e exposições.

No final dos anos 20, porém, Stálin pôs um fim a tudo isto, impondo métodos nefastos – da censura ao assassinato de artistas – para “domesticar” a arte. Sufocados, muitos foram os artistas que encontraram finais trágicos. Malevitch, por exemplo, morreu numa espécie de “exílio interno”, abandonado e pobre, em 1935. Outros tantos se convenceram de que a própria vida já não tinha mais sentido.
Exemplo disto foi o suicídio de Maiakovsky, em 1930, pouco depois de participar de uma assembléia de estudantes, em que fora acusado de ser “incompreensível para as massas” e “indecente”. Entretanto, esses eram apenas sintomas dos males que estavam por vir.

A morte Maiakovsky foi apenas uma das mais conhecidas dentre as muitas que ocorreram num período em que a contra-revolução avançava em todas as áreas e com igual truculência. No mundo artístico, se deu através de uma monstruosidade que ficou conhecida como “Realismo Socialista”.

No início dos anos 1930, as novas regras ditavam que os artistas e suas produções deveriam estar a serviço da “demanda das massas por uma arte honesta, verdadeira e revolucionária”, ou seja, pregava que qualquer expressão artística deveria estar subordinada aos interesses do Estado (leia-se o Partido Comunista burocratizado) e à propaganda de seus ideais.

O resultado não poderia ser outro. O período stalinista – salvo raríssimas exceções – foi marcado por sucessivas gerações de livros, filmes, cartazes e quadros ultra-realistas e recheados de clichês propagandísticos, nos quais a exaltação e idealização do povo e do trabalho só eram menores do que o culto à personalidade construído ao redor de Stálin.

Se o conteúdo era péssimo, a forma não poderia ser diferente. Os novos padrões aprisionavam os artistas num arremedo de arte baseado no didatismo e em dogmas, sem espaço para experimentalismo e, muito menos, para o diálogo com as demais vanguardas européias.

Os crimes do stalinismo no campo das artes foram denunciados pelo genial Maiakovsky num de seus últimos e mais belos poemas, “A plenos pulmões”. Trata-se de uma “dedicatória”, cheia de ironia amarga e corrosiva, deixada para os burocratas, mas é, também, um importante lembrete para as revoluções futuras:
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