Ratos que abandonam o barco

Saída de colaboradores íntimos de Bush é mais uma expressão da crise que vive o imperialismo no Iraque

O secretário da Justiça do governo George W. Bush, o polêmico Alberto Gonzales, renunciou ao seu cargo no último dia 23. Depois do 11 de setembro, Gonzales tornou-se o braço executor de Bush para ampliar seus poderes presidenciais. É a segunda demissão em menos de 15 dias de um assessor do círculo íntimo do presidente norte-americano.

No dia 13 de agosto, Karl Rove, principal estrategista político de Bush, anunciou também a sua demissão. Rove trabalhou com Bush desde o início de sua carreira política, especialmente nas campanhas para o governo do Texas e para os dois mandatos na Presidência. Conhecido como o cérebro de Bush, o assessor tem uma longa ficha de serviços prestados à direita dos Estados Unidos. Na última campanha eleitoral para a presidência de república, ele foi responsável pela estratégia que apoiou o Partido Republicano na extrema direita do espectro político norte-americano.

Mesmo com forte desgaste provocado pela divulgação das mentiras que justificaram a invasão no Iraque, Bush terminou se reelegendo. Isso rendeu a Rove um curioso apelido cunhado pelo próprio presidente: “turd blossom”, ou “flor do esterco”, por transformar notícias ruins em boas.

“Sr. Guantánamo”
Já Gonzales foi o principal defensor das torturas e das prisões efetuadas contra supostos terroristas. O ex-secretário defendia a adoção de todo um arcabouço jurídico sobre o qual se apoiava a política de “guerra ao terror” declarada por Bush. Também tentou criar leis para ampliar os poderes presidenciais de Bush, como a Lei Patriota, denunciada por grupos de defesa dos direitos humanos por limitar os direitos civis dos cidadãos norte-americanos. Essa lei permite que o governo utilize escutas telefônicas e realize buscas sem uma prévia autorização judicial.

Gonzales também foi o autor do famoso “memorando sobre ‘a tortura’”, argumentando que o presidente não deveria respeitar leis em tempos de guerra, nem mesmo a chamada convenção de Genebra – tratado que define os direitos e os deveres de pessoas durante as guerras.

Nesse memorando, ele sustentava que a guerra contra o terrorismo “deixa, a meu juízo, obsoletas as limitações estritas de Genebra sobre os interrogatórios e prisioneiros inimigos”. Teses como essa, justificaram as bárbaras torturas aos prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.

Gonzales também argumentou que os direitos básicos garantidos pelas leis nacionais dos EUA, incluindo o habeas corpus, não eram aplicáveis a prisioneiros estrangeiros, nem aos norte-americanos declarados como “combatentes inimigos”. Por isso, o ex-secretário foi o mentor da Lei das Comissões Militares, que criou um tribunal e regras diferenciados para os presos da prisão de Guantánamo, em Cuba.

Isso lhe rendeu o apelido de “Sr. Guantánamo”. Apesar dos discursos, todas essas leis foram aprovadas também pela oposição burguesa do Partido Democrata.
Em 2006, o ex-secretário de justiça se envolveu em um escândalo que aumentou a pressão para que ele se demitisse. Segundo denúncias, Gonzales teria exonerado oito promotores federais do país por razões políticas, uma vez que eles contestavam a leis defendidas pela Casa Branca.

“Baixas de guerra”
As demissões de Karl Rove e Gonzales engrossam a lista de “baixas de guerra” entre os principais assessores de Bush. Vítimas do fiasco que cerca a invasão militar ao Iraque, ocorrida em março de 2003, os principais mentores da política de guerra ao terror começam a deixar a Casa Branca.

Colin Powell foi o primeiro a se demitir, em novembro de 2004. Foi ele quem apresentou a farsa das supostas armas de destruição em massa que estariam sob o controle de Sadam Hussein. Depois foi Paul Wolfowitz, número dois do Pentágono, que saiu do governo, tornou-se presidente do Banco Mundial e recentemente se viu em meio a escândalos de corrupção que lhe custaram seu mandato no banco. Em seguida vieram as demissões de Andrew Card, chefe de gabinete de Bush, e de Donald Rumsfeld, o todo poderoso secretário de Defesa e um dos principais falcões da equipe do presidente dos EUA. Foi ele quem desenhou toda a estratégia militar para intervir no Afeganistão e no Iraque depois do 11 de setembro.

Na longa lista, deve-se incluir o esfacelamento político dos chefes de governos europeus que apoiaram a empreitada de Bush no Iraque, como Aznar (Espanha), Belusconni (Itália) e Tony Blair (Grã Bretanha).

Como fica Bush agora?
A saída de colaboradores íntimos de Bush é mais uma expressão da crise que vive o imperialismo no Iraque. O pântano iraquiano no qual os EUA estão metidos, com a possibilidade de uma derrota militar, somado às derrotas eleitorais e à perda da maioria no Congresso, enfraqueceram como nunca o governo republicano.

Nesse sentido, a saída dos colaboradores pode ser uma manobra para que o presidente republicano reconquiste influência política no tempo que ainda lhe resta de mandato. A saída dos defensores mais entusiastas da política de “guerra ao terror”, poderia facilitar as negociações entre republicanos e democratas em torno da guerra do Iraque. Nesse mês, o Congresso dos EUA vai ouvir o depoimento do embaixador e do comandante militar norte-americanos que estão no Iraque. O depoimento poderá causar ainda mais dúvidas na opinião pública norte-americana sobre a guerra. Atualmente, a maioria da população é contra a permanência das tropas dos EUA no país. Nada poderia ser pior para Bush, ainda mais se levada em conta a nova turbulência econômica – cujo epicentro é justamente os EUA – que poderá levar o país a uma nova recessão. Diante da crise financeira, Bush orientou que o Banco Central dos EUA emprestasse bilhões aos bancos.

Por outro lado, a crise se agrava com a aproximação das eleições presidenciais, marcadas para novembro de 2008. Nenhum dos pré-candidatos republicanos quer identificar sua imagem com a atual administração da Casa Branca. Por isso, os candidatos republicanos à sucessão de Bush cobravam a saída dos principais colaboradores.

Os democratas, por sua vez, pretendem capitalizar eleitoralmente a crise, mas em momento algum dizem que irão acabar com a ocupação. A senadora democrata Hillary Clinton, que está lidera as pesquisas eleitorais para a sucessão de Bush, votou a favor da ocupação e hoje diz que há muito tempo é favorável ao envio de mais soldados ao Afeganistão.

Post author
Publication Date