Quando raça, classe e violência entram em choque

Vigia da USP, negro, é confundido com um ladrão em um estacionamento de supermercado e é barbaramente espancadoNo dia 7 de agosto, a vida de Januário Alves Santana, funcionário da segurança da Universidade de São Paulo, entrou literalmente em parafuso. Ele viu muitas de suas convicções, certeza e boa parte de sua dignidade serem massacradas debaixo de uma sucessão de golpes, tapas e socos. Isso aconteceu após ser acusado, por funcionários da rede francesa de supermercados Carrefour, de ser pego em flagrante roubando um carro, no estacionamento do estabelecimento na cidade de Osasco, grande São Paulo.
A violência que se abateu sobre Januário foi enorme. No dia 28, ele passou horas em uma operação para reconstituir os ossos quebrados em sua face. Quando fechávamos esta edição, ele estava se submetendo a um tratamento odontológico pois sua prótese dentária foi arrancada a socos e coronhadas.

Em conseqüência de todos os ferimentos e seqüelas, ele já perdeu oito quilos desde o dia da agressão. Contudo, isto, de longe, é o que menos doeu em Januário. O que mais indignou o funcionário da USP, seus parentes, amigos, companheiros de trabalho e todos que souberam da história, foi o fato de ele ter sido humilhado, arrastado para uma salinha, xingado e espancado por ser suspeito de estar roubando o seu próprio carro.

E o “crime” pelo qual Januário foi “julgado, condenado e imediata e exemplarmente punido”, é um “delito” conhecido por muitos nós: ele “violou a regra” de ser um homem negro com um carro “decente”, no caso um EcoSport, ou pego em alguma situação vista por muitos como inadequada pra “gente com este tom de pele”.

Muitos januários
Um tipo de “crime” típico de uma sociedade que tem imensa dificuldade de lidar com seu próprio racismo e encontra formas um tanto “peculiares” de expô-lo. Nós, negros e negras, conhecemos todas, o que não significa que elas deixem de nos surpreender ou indignar diariamente.

E não são poucas as vezes em que elas mesclam-se com problemas de classe. Exemplos? Basta entrar num shopping ou loja “chic”, e ganhamos um ‘amigo’: o segurança. Se nos aventuramos a entrar numa loja “só pra olhar”, como todo mundo, os olhos dos vendedores só se viram para o nosso lado para verificar se não estamos roubando… afinal “o maloqueiro não vai comprar nada, mesmo”.
Há pouco tempo, no início de julho, a repercussão de uma história semelhante ganhou a mídia mundial só porque envolveu um negro professor da chiquérrima Universidade de Harvard e amigo de Obama, o professor Henry Louis Gates, detido acusado de tentar assaltar sua própria casa.

Como todos devem ter visto, a história de Gates acabou numa cena patética nos jardins da Casa Branca, com Barack Obama, Gates e o policial que efetuou a prisão tomando uma cervejinha. Uma imagem tão absurda que até mesmo a imprensa norte-americana não perdoou, afirmando que Obama tinha criado o “dia tomar uma cerveja com quem te prendeu”.

Januário, contudo, não é professor numa universidade, é segurança. Nem tem amigos no poder. Por isso, sua história e a forma como ela irá acabar também é parte da “nossa história”. Não podemos nos calar diante dela. Muito menos podemos crer que este tipo de situação não voltará a se repetir sem que lutemos contra aquilo que é uma das mais nefastas facetas do capitalismo: a apropriação que o sistema faz da opressão, para garantir os privilégios de seus poucos senhores (homens, brancos, heterossexuais, obviamente…).

Violência racial, olhar de classe
Como todos acompanharam, depois de ser detido como “suspeito” de roubar seu próprio veículo e surrado, Januário, que tem 39 anos, tornou-se alvo de uma série de reportagens, o que fez com que até o governo Lula tivesse que se posicionar sobre a questão, incumbindo a Secretaria Especial de Promoção de Políticas para Igualdade Racial de acompanhar o caso.

Da mesma forma, não faltaram declarações “indignadas” de órgãos da imprensa, gente da mídia em geral, lideranças dos partidos burgueses e dos mais diversos setores da sociedade.

Algo que só pode ser explicado por um “detalhe”. Desta vez a expressão do racismo foi tão absurda e descarada que ninguém poderia simplesmente tomar a posição geralmente adotada pela mídia e, quase com a mesma freqüência, pelo governo Lula e seus aliados nos movimentos sociais: bancar o avestruz e enfiar a cabeça na terra.
Nem a “indignação da mídia”, e muito menos as promessas e projetos de políticas anti-racistas (que já nascem para ser engavetados) de Lula, porém, irão impedir que a situação vivida por Januário marque de forma violenta sua vida e a de tantos outros negros e negras.

O que está por trás de tudo isso, afinal, não é apenas um “incidente isolado”, um equívoco cometido por funcionários mal orientados ou a falta de “debate” sobre o tema. Por trás de cada um dos socos, pontapés e xingamentos escondiam-se as profundas relações que o racismo e todas as suas manifestações têm com o Capital.
A forma como preconceito, discriminação e opressão embrenham-se, embaralham-se e são moldados por aquilo que é determinante em sua sociedade de classes: o poder econômico, os interesses da classe que o detém e seu modo mesquinho de ver e “organizar” o mundo.

Coisas com as quais, hoje, Lula, a mídia e suas ramificações pela sociedade jamais ousarão comprar uma briga. E, por isso mesmo, o Carrefour não fará nada de fato para “resolver o problema”.

Não vamos nos calar
Esta não é a primeira vez que a rede é acusada de promover o racismo. Entidades, como o Sindicado dos Comerciários de Nova Iguaçu e Região, acumulam denúncias contra o conglomerado que, no Brasil, tem uma rede de 190 unidades distribuídas em 13 estados.

E o que aconteceu no estacionamento de Osasco está longe de ser o episódio mais grave, violento e absurdo envolvendo o Carrefour. Muito menos, esta é a única empresa envolvida neste tipo de história. O caso de Januário é apenas mais uma das agudas, violentas e “branquíssimas” pontas de “iceberg” que vez ou outra vem à tona numa sociedade como a que vivemos.

Por isso, o único caminho para mudar isto é a luta. Neste sentido, tanto a Secretaria de Negros e Negras do PSTU, quanto o “Movimento Quilombo Raça e Classe” (que inclui os companheiros do GT de Negros e Negras da Conlutas) estão se mobilizando para participar e ajudar a divulgar os protestos que estão sendo organizados. Em São Paulo, há duas atividades programadas para os dias 5 e 11 de setembro.

Em tempo: tentamos fazer uma entrevista com o companheiro Januário. No momento, porém, em função do período pós-operatório, a família e o advogado (ligado ao movimento negro e à ONG Padre Batista) estão evitando entrevistas. Assim que pudermos, voltaremos ao tema em nosso Portal.

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