Quando os trabalhadores fazem a história

Russos lêem panfleto, no ano da revolução
Reprodução

Os últimos dias de outubro de 1917 foram eletrizantes na Rússia. Manifestações, movimentos de tropas, apelos à população vindos de todas as partes do espectro político. Folhetos e jornais tentavam atrair os leitores para as mais variadas posições. Os bolcheviques lançam a palavra de ordem “Todo poder aos Sovietes!”, ou seja, que o poder político passe aos conselhos de operários, de camponeses e de soldados, e iniciam os preparativos para a insurreição.

Os acontecimentos se precipitam às vésperas da abertura do II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia. O governo provisório, fruto da Revolução de Fevereiro, ameaça reprimir os bolcheviques. Esses, por sua vez, apoiados por grandes manifestações operárias e pela adesão dos soldados da principal fortaleza de Petrogrado, decidem pela tomada imediata do poder. Depois de meses de intensa luta política, era o momento exato de colher os frutos, mas mesmo dentro do Partido Bolchevique alguns hesitam. A firmeza de Lênin e Trotsky, porém, prevalece.

No dia 25 de outubro – 7 de novembro pelo calendário ocidental – o Comitê Revolucionário Militar derruba, sem muita resistência, o já fraco governo provisório. Kerensky, chefe do governo, foge. Outros ministros serão presos. Os principais pontos estratégicos da cidade são dominados pelos revolucionários. Abre-se o Segundo Congresso dos Sovietes. A questão do poder está colocada. Membros dos mencheviques e de outros pequenos grupos tentam ainda convencer o Congresso da necessidade de um governo de coalizão com os traidores da revolução: serão varridos pela história! Pouco depois, é anunciada a tomada do Palácio de Inverno, sede do governo russo. O desenrolar do processo revolucionário é inevitável.

O Congresso dos Sovietes forma o primeiro governo revolucionário com Lênin à frente e aprova diversos decretos, incluindo um sobre a proposta de paz a ser apresentada aos países beligerantes da I Guerra Mundial e outro sobre a abolição da propriedade privada da terra, que ficava à disposição dos comitês agrários locais, formados pelos camponeses, para posterior divisão.

Começava, assim, com relativa facilidade, a maior vitória da classe trabalhadora. Uma grande aventura, mas, como bem definiu o jornalista norte-americano John Reed, tratava-se de “uma das mais maravilhosas (aventuras) em que já se empenhou a humanidade, aquela que abriu às massas trabalhadoras o campo da História, fazendo com que hoje tudo dependa de suas vastas e naturais aspirações” (Dez dias que abalaram o mundo, Global, p. 15).

As revoluções são possíveis
Outubro foi, antes de tudo, um gigantesco movimento de massas extremamente conscientes de que sua emancipação e de que o atendimento de suas reivindicações só podiam ser atingidos por suas próprias forças. Por isso, toda tentativa de desqualificar tal movimento, classificando-o como um mero golpe de estado entre tantos outros, não passa de uma distorção grosseira, pregada pelos inimigos da revolução dos mais variados matizes.

Afinal, estes dias finais de outubro foram “os dez dias que abalaram o mundo”, nas magistrais palavras escolhidas por Reed para o título de seu livro, em que narra os primeiros momentos da Revolução Russa de Outubro de 1917. A notícia rapidamente correu o mundo e impulsionou a formação de partidos revolucionários por todos os cantos, inclusive no Brasil, com a criação do Partido Comunista Brasileiro, o velho PCB. Tal processo culminaria com a construção, em 1919, da Internacional Comunista ou, como ficaria mais conhecida, a III Internacional.

Contudo, seguiram-se dias difíceis. Uma feroz guerra civil e ataques estrangeiros, vencidos com um custo altíssimo: a perda do melhor da vanguarda revolucionária. O pior, porém, seria o isolamento da revolução que, somado a outros fatores, gerou a burocratização e degeneração do Partido Bolchevique, a mais formidável máquina revolucionária de todos os tempos. Os anos eletrizantes da revolução foram substituídos pela ditadura stalinista, que, décadas depois, conduziria a URSS de volta ao capitalismo e à sociedade de classes.

Independentemente do desfecho, Outubro mostrou ao mundo que era possível uma revolução socialista vitoriosa. Indo muito além da até então única experiência concreta, a efêmera Comuna de Paris de 1871, os bolcheviques, ao tomar o poder e mantê-lo, comprovaram que era possível construir uma nova ordem para além dos parâmetros da sociedade de classes e da ordem burguesa.

A Revolução Russa foi o mais importante acontecimento do século, marcando profundamente a história do planeta até sua derrocada final. Sua influência se alastrou pelos quatro cantos do mundo e os desdobramentos da vida política soviética eram acompanhados com atenção por toda humanidade. Daí que o grande historiador inglês Eric Hobsbawm tenha definido o período como o “breve século XX”. Em outras palavras e com alguma simplificação, o século XX, na prática, teria durado entre o nascimento e a morte da República dos Sovietes.

As lições de Outubro
Trotsky, no dia seguinte à insurreição, num discurso proferido no Congresso dos Sovietes, proclamara de forma profética: “nossa revolução permanecerá como a revolução clássica da história” (Dez dias que abalaram o mundo, Global, p. 142). Trotsky tinha razão: depois de 1917 a referência teórica da idéia de revolução, antes associada essencialmente ao padrão estabelecido pela Revolução Francesa de 1789, passou a ter em Outubro seu novo paradigma.

Assim, todos os revolucionários, inclusive os próprios bolcheviques, procuraram estudar com destacada atenção os ensinamentos da Revolução Russa, da mesma forma que anteriormente estudavam os acontecimentos da Comuna de Paris. Trotsky mesmo dedicou imenso tempo ao estudo do processo revolucionário, escrevendo diversas obras sobre o tema e teorizando sobre as condições revolucionárias, como forma de permitir que em novas situações os ensinamentos de Outubro não fossem perdidos.

Para Trotsky, quatro eram as características centrais de uma situação revolucionária: 1) o impasse da burguesia e a conseqüente confusão da classe dominante; 2) a aguda insatisfação e a ânsia de mudanças decisivas nas fileiras da pequena-burguesia, sem cujo apoio a grande burguesia não se pode manter; 3) a consciência da situação intolerável e a disposição para ações revolucionárias nas fileiras do proletariado; e 4) um programa claro e uma direção firme da vanguarda proletária.

Contudo, se estas eram características gerais de uma situação revolucionária, não podemos deixar de apontar também para as questões específicas da Revolução Russa. Essa destaca-se, na síntese feita por Valério Arcary, em As esquinas perigosas da História, por “três elementos decisivos que a distinguem de todas as outras revoluções socialistas do século XX: 1) o sujeito social dirigente e polarizador do descontentamento popular foi, indiscutivelmente, o proletariado urbano, que acaudilhou as outras classes, em particularmente a imensa massa camponesa que constituía a maioria da população; 2) a auto-organização popular nas fábricas, nos bairros populares, nas forças armadas e nas aldeias camponesas, na forma de conselhos ou sovietes, permitiu a mais avançada experiência de democracia direta conhecida pelo movimento operário até então (…); e 3) a liderança, ou o sujeito político coletivo era uma direção internacionalista que acreditava que o projeto da Revolução Russa dependia, como questão de vida ou morte, do triunfo da revolução européia, em geral, e da revolução alemã, em particular”.