“Quando ela percebeu que eu era palestina, julgou que sua segurança estava ameaçada”

Momento em que Nadia é retirada da Câmara de Vereadores pela PM

PSTU-BA

Nessa terça feira, dia 14 de maio, a vereadora evangélica Lorena Brandão, do PSC, ordenou à Polícia Militar que expulsasse do plenário da Câmara de Vereadores de Salvador uma ativista da causa palestina. A advogada Nadia Husein estava com uma faixa da Palestina durante a solenidade em que a vereadora entregava o título de cidadão soteropolitano ao embaixador de Israel no Brasil, Yossi Avraham Shelley.

O Portal do PSTU conversou com Nadia Husein e transmite agora a entrevista na íntegra. Confira:

Ouça a entrevista(Portal do PSTU entrevista Nadia Husein)

 

Portal do PSTU: Nadia, primeiro quero agradecer a sua disponibilidade em nos conceder essa entrevista e iniciar já perguntando sobre o que ocorreu nessa terça-feira, na Câmara de vereadores de Salvador. Qual foi o motivo da sua presença lá?

Nadia Husein: Eu tomei conhecimento de que seria realizada uma sessão especial em homenagem ao Estado de Israel e seria concedido o título de cidadão soteropolitano ao embaixador de Israel aqui no Brasil. Essa atitude da Câmara é flagrantemente ilegal, já que nós estamos num Estado laico, e foi uma manifestação religiosa, né? Foi considerado pela proponente, a vereadora Lorena Brandão, segundo declarou em seu site, um “ato profético”, e nós estamos num Estado laico. Ademais, não existe qualquer pertencimento para a cidade de Salvador comemorar a fundação do Estado de Israel, né? Sendo que há um conflito mundialmente conhecido, mundialmente complexo, e todos nós sabemos que a criação do Estado de Israel foi uma criação beligerante,  ou seja, foi uma ocupação, forçada, onde 800 mil palestinos foram expulsos de sua terra.

Então, como eu fiz um requerimento à ouvidoria para o cancelamento dessa sessão e não obtive resposta, eu fui lá para, educadamente, me manifestar enquanto advogada, porque é um ato flagrantemente ilegal, e eu como advogada, tenho o direito de me manifestar. Então esperei o discurso da vereadora para me manifestar, pacificamente, sobre aquele ato.

Portal do PSTU: Certo. Pelo vídeo divulgado pelas redes sociais e na imprensa de Salvador, dá para ouvi-la ordenando a sua expulsão do plenário e alegando que o regimento da Casa garante a ela trabalhar num ambiente com segurança. Como é que você avalia esse comportamento da vereadora?

Nadia Husein: Eu estava com uma faixa, Palestina, assim como israelenses ali presentes estavam com uma faixa própria da religião deles e, quando ela percebeu que eu era uma palestina, ou alguém representante da Palestina, ela julgou que ela estava com a segurança dela ameaçada. É a mesma coisa que você virar para um negro e dizer “deixa eu segurar minha bolsa que ele vai me roubar“. Então coloque a palestina para fora porque ela vai me ferir, ela vai me machucar.

Então essa é uma atitude racista, xenófoba, e eu espero que as autoridades competentes tomem uma providência em relação a isso.

Portal do PSTU: Para onde é que você foi conduzida após a ordem da vereadora?

Nadia Husein: Ela ordenou a minha condução coercitiva para fora do plenário, 3 seguranças, três, dois policiais e acredito que era um segurança, um outro homem que estava presente, me seguraram à força, me tiraram de lá, e eu disse que eu só queria falar, e isso está registrado no vídeo, eu só quero falar, e eu só quero falar em nome do Estado democrático de direito da Constituição da República Federativa do Brasil. Então eu não fui lá para agredir a vereadora, ou agredir a religião de ninguém, ou agredir o embaixador, de forma nenhuma. E aí depois me conduziram para aquela sala de dentro e torceram meu braço, gritaram comigo face a face, nariz com nariz, disseram que eu estava detida. Eu perguntei por que eu estava sendo detida, e disse que para prender um advogado, na atuação de sua função, tinha que ter um representante da OAB. E depois eles desistiram de me prender, tiraram foto do meu documento e me liberaram.

Portal do PSTU: Pois é, nas redes sociais se fala em várias outras ilegalidades também, como solicitação de celulares, fotografias e documentos. Houve essa atuação então por parte da polícia lá?

Nadia Husein: Eu estava com 2 amigos e, eu sinceramente, honestamente eu não esperava que eu fosse conduzida coercitivamente para fora do plenário. Talvez como Marielle, que não esperava ser morta, né. A gente nunca espera o pior, mas estamos vivendo em tempos tão difíceis, que a gente tem que passar a esperar essas coisas mesmo das instituições. E aí eles disseram aos meus amigos que iam tomar o celular deles, e eles reagiram, foi só por isso que eles não conseguiram tomar, mas o intuito deles era tomar o celular dessas pessoas que filmaram o ato.

Portal do PSTU: Nadia, e a OAB vai fazer alguma coisa a respeito? Tem algum encaminhamento dado a isso?

Nadia Husein: Eu entrei em contato hoje com a comissão de prerrogativas da OAB, eles pediram que eu formulasse um documento a respeito, mas assim, o dia está bastante corrido e assim, é tão flagrante o acontecimento, está em todos os sites, mas eu espero que eles tomem uma providência né, em breve.

Portal do PSTU: Nadia, a violência que assola há séculos aí, como você mesmo falou, os palestinos, tem chamado a atenção no mundo todo, no entanto há maiores lutas fora as lutas de resistência ainda lá né. Você acha que a atitude como a do presidente do Brasil, por exemplo, de ter um escritório em Israel, receber com festa o presidente de Israel, e até mesmo essas ações aí de condecorações, elas são uma provocação aos palestinos, ou elas são um fortalecimento ideológico sobre uma garantia de legitimidade do Estado de Israel?

Nadia Husein: É uma tentativa de legitimar o absurdo, né. Bolsonaro diz que Israel tem direito de escolher onde é sua capital, então veja bem, então eu vou dizer agora que a capital do Brasil é Buenos Aires. Não, eu estou no território de outra pessoa, então não tenho o direito de escolher onde é a minha capital.

Então assim, é uma tentativa de legitimar as mortes, legitimar os absurdos. Eles dizem que Israel não ataca, ele só se defende, porque o sentimento que eles traduzem para o resto do mundo, financiado pelas grandes potências, é de que o povo palestino é um povo terrorista. Na verdade a Palestina é o lugar mais amoroso que eu conheço no mundo, isso eu posso te garantir.

Portal do PSTU: Nadia, quero agradecer a você por conceder essa entrevista para a gente, mesmo tendo sofrido aí essa violência, muito abrigada mesmo.

Nadia Husein: Obrigada, obrigda.